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Início Clima

Super El Niño pode trazer fome e devastação; veja prognóstico

Por Junior Melo
17/ago/2026
Em Clima
Foto: Reprodução/TV Globo

Foto: Reprodução/TV Globo

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Eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes colocam o El Niño novamente no centro das atenções. Cientistas acompanham a formação de um possível “Super El Niño”, que pode se tornar um dos episódios mais intensos já registrados.

Para entender como o fenômeno se desenvolve e antecipar seus impactos, pesquisadores combinam tecnologias modernas de monitoramento com registros preservados pela natureza ao longo de milhares de anos.

Atualmente, os cientistas conseguem acompanhar a evolução do El Niño com meses de antecedência e identificar melhor os mecanismos que alimentam o fenômeno.

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Como o El Niño se forma

Em condições normais, correntes frias sobem pela costa do Peru e levam nutrientes das profundezas para a superfície. Ao mesmo tempo, os ventos alísios empurram as águas mais quentes do Oceano Pacífico em direção à região da Indonésia.

Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem. Com isso, a água quente se desloca para o leste e modifica os padrões atmosféricos em diferentes regiões do planeta.

Esse mecanismo ajuda a explicar como um fenômeno que começa no Oceano Pacífico consegue provocar consequências a milhares de quilômetros de distância.

Quando o El Niño surpreendeu os cientistas

O fenômeno é conhecido há séculos. O nome El Niño surgiu a partir da observação de pescadores da costa do Peru, que percebiam o aquecimento das águas do Pacífico próximo ao Natal. A referência era ao Menino Jesus.

Apesar do conhecimento acumulado ao longo dos anos, a ciência nem sempre conseguiu prever a intensidade dos episódios.

Em 1982 e 1983, por exemplo, o mundo foi surpreendido por um dos mais intensos El Niños já registrados até então.

No Nordeste brasileiro, a seca provocou grandes perdas agrícolas. Em Santa Catarina, o excesso de chuva causou inundações em centenas de municípios, deixando dezenas de mortos e provocando enormes prejuízos à infraestrutura.

A dimensão daquele episódio contribuiu para a criação de uma ampla rede de monitoramento do Oceano Pacífico.

Liderados pelo pesquisador Michael McPhaden, cientistas espalharam centenas de boias pelo oceano. Os equipamentos continuam transmitindo informações em tempo real, via satélite, sobre temperatura da superfície do mar, ventos e outras condições atmosféricas e oceânicas.

Cavernas ajudam a reconstruir o clima do passado

Além dos instrumentos modernos, pesquisadores também recorrem a registros naturais para entender como o clima se comportou no passado.

Em uma região da Mata Atlântica, cientistas percorrem centenas de metros pelo interior de uma caverna em busca de pistas deixadas por eventos climáticos antigos.

As estalagmites crescem lentamente conforme a água atravessa as rochas e deposita minerais. Com o passar dos milhares de anos, cada camada pode preservar informações sobre as condições climáticas existentes naquele período.

Dentro da caverna, barragens naturais também ajudam a identificar episódios de chuvas intensas. Formadas pelo depósito de carbonato de cálcio, essas estruturas criam pequenas piscinas que podem acumular água e lama durante períodos de inundação.

Quando o nível da água diminui, uma fina camada de sedimentos permanece depositada sobre as rochas. Com o passar do tempo, novos depósitos cobrem as marcas anteriores.

As camadas mais escuras encontradas nas formações permitem identificar períodos de enchentes extremas. Uma das estalagmites analisadas pelos pesquisadores preserva aproximadamente 2.300 anos de registros climáticos.

Outro estudo baseado nesse tipo de material identificou centenas de eventos extremos ao longo de mais de sete mil anos.

Um El Niño ainda mais intenso pode estar chegando

Os registros do passado ajudam os cientistas a compreender o comportamento do fenômeno, enquanto os equipamentos espalhados pelo oceano permitem acompanhar o que está acontecendo no presente.

As projeções indicam uma alta probabilidade de que o próximo El Niño seja muito forte. De acordo com as estimativas apresentadas pelos pesquisadores, a chance de o fenômeno atingir intensidade elevada chega a 90%.

O cenário preocupa porque o planeta já enfrenta temperaturas elevadas em razão das mudanças climáticas.

Segundo Michael McPhaden, o ano atual pode ser o mais quente já registrado. Caso isso não aconteça, 2027 pode assumir esse posto.

No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, ampliou a capacidade de processamento do supercomputador utilizado nas previsões meteorológicas e pretende aumentar ainda mais essa estrutura nos próximos anos.

Para os pesquisadores, o desafio é maior porque as condições climáticas atuais estão se tornando diferentes das observadas no passado. Com isso, modelos matemáticos precisam ser constantemente atualizados para acompanhar uma realidade climática em transformação.

O pico do fenômeno é esperado para dezembro, mas seus efeitos devem continuar durante os primeiros meses de 2027.

Calor, seca e incêndios preocupam no Brasil

As projeções apontam para uma alta probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro.

Ondas de calor prolongadas podem representar riscos especialmente para populações mais vulneráveis, como idosos, pessoas doentes e moradores de áreas com infraestrutura precária.

Na Amazônia, a combinação de calor e redução das chuvas aumenta o risco de incêndios florestais.

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), ressalta, porém, que as queimadas na região dependem principalmente da ação humana. Segundo ela, é raro que um incêndio tenha início de forma espontânea, especialmente durante o auge do período seco.

Fenômeno provoca impactos em diferentes países

Os efeitos do El Niño também podem ser observados em várias partes do mundo.

Na Indonésia, a redução das chuvas favorece a ocorrência de incêndios florestais. Áreas queimadas já superam registros de episódios anteriores de El Niño, aumentando também os riscos para espécies ameaçadas, como os orangotangos.

Na China, enchentes provocaram alagamentos. Na América do Sul, fortes nevascas chegaram a bloquear a estrada andina que liga o Cone Sul ao Oceano Pacífico, deixando milhares de caminhões parados durante semanas.

Os impactos também podem atingir a economia global. Quando eventos extremos atingem simultaneamente importantes regiões produtoras de alimentos, podem ocorrer redução da oferta, aumento de preços e prejuízos de grande proporção.

Tecnologia tenta antecipar deslizamentos

Além de acompanhar o comportamento do El Niño, pesquisadores brasileiros também utilizam novas tecnologias para tentar reduzir os impactos dos eventos extremos.

O professor Clódis de Oliveira Andrades Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), participou do mapeamento de mais de 17 mil deslizamentos registrados após as chuvas de 2024.

Agora, pesquisadores utilizam drones equipados com sensores para identificar sinais de instabilidade do solo, inclusive em áreas cobertas por vegetação.

Em uma propriedade rural, um inclinômetro passou a monitorar possíveis movimentações do terreno. O equipamento é capaz de enviar alertas por SMS para a Defesa Civil e para os bombeiros quando identifica alterações que ultrapassam os parâmetros estabelecidos.

O agricultor Artemim Cruz conta que percebeu rachaduras no terreno antes do deslizamento que destruiu seu parreiral. Desde então, mantém atenção constante durante os períodos de chuva.

Para os pesquisadores, a combinação entre ciência, tecnologia, monitoramento e educação pode ajudar a reduzir os riscos provocados por eventos extremos.

A ideia é que as comunidades também sejam capacitadas para reconhecer sinais de instabilidade, permitindo uma reação mais rápida diante de situações de perigo.

Com a possibilidade de um El Niño de forte intensidade e um planeta cada vez mais aquecido, antecipar os impactos e preparar as populações pode ser tão importante quanto compreender o próprio fenômeno.

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