Um inquérito sigiloso da Polícia Federal investiga o possível envolvimento de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha e filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em supostos casos de tráfico de influência e corrupção.
Segundo informações apresentadas pela revista VEJA, mensagens obtidas pela Polícia Federal indicariam contatos de Lulinha com lobistas e empresários interessados em negócios com órgãos do governo federal.
Entre os negócios investigados está uma tentativa de viabilizar a comercialização de medicamentos à base de canabidiol junto ao Ministério da Saúde. De acordo com a investigação citada pela publicação, o grupo envolvido estimava faturar mais de R$ 1 bilhão com o negócio.
Um dos nomes relacionados às tratativas é Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, investigado no caso envolvendo descontos indevidos em aposentadorias.
As apurações também mencionam possíveis tratativas envolvendo portos, aeroportos e empresas públicas, entre elas Telebras, Correios e Dataprev.
Lobista é citada como parte da articulação
De acordo com a Polícia Federal, a lobista Roberta Luchsinger teria desempenhado papel nas articulações investigadas.
Segundo as informações divulgadas pela VEJA, Roberta buscaria aproximar empresários interessados em contratos públicos de autoridades e agentes do governo. As mensagens analisadas pelos investigadores também indicariam que ela recorreria a Lulinha quando encontrava obstáculos nas negociações.
Em uma das mensagens citadas pela revista, Roberta afirmou: “Fui uma das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar”.
Em outra conversa, teria descrito sua relação com Lulinha dizendo: “Fábio e eu somos uma pessoa só”. Ela também teria explicado a participação dele nas articulações: “Ele só entra em campo quando precisa”.
A lobista teria resumido sua estratégia da seguinte forma: “Eu trabalho a política via Palácio. Com costuras”.
Mansão em Brasília era frequentada por integrantes do grupo
Segundo reportagem de O Globo mencionada pela VEJA, Roberta alugou uma mansão em Brasília em meados de 2024. O imóvel teria sido utilizado como base durante suas atividades na capital.
Lulinha estaria entre os frequentadores da residência, assim como empresários, autoridades e integrantes do governo.
Entre os nomes citados como visitantes estão Alexandre Padilha, ministro da Saúde; Wellington Dias, ministro do Desenvolvimento Social; Frederico Siqueira, ministro das Comunicações; Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola e ex-chefe de gabinete do presidente; Swedenberger Barbosa, o Berger, atual chefe adjunto do gabinete presidencial; além de Fernando e Kalil Bittar, Roberta Luchsinger e Lulinha.
A residência fica em um condomínio de alto padrão em Brasília, a cerca de oito quilômetros do Palácio do Planalto.
Um funcionário do condomínio relatou à VEJA que havia orientação para que visitantes da casa não fossem registrados na entrada.
“O Fábio era amigo de todo mundo aqui. É gente boa, gente humilde. Andava às vezes pelo jardim da residência de bermuda e sem camisa”, afirmou o funcionário, segundo a publicação.
Outro funcionário relatou que Antônio Carlos Camilo Antunes também frequentava o imóvel e que, antes de seu nome aparecer nas investigações sobre o INSS, era conhecido no local como “Dr. Antônio”.
Contrato do imóvel
O primeiro contrato de aluguel da mansão teria sido firmado em nome de Rafael Nicolau Arbex, dentista residente em São Paulo e amigo de Fernando Bittar.
Arbex também foi citado no contexto da Operação Lava-Jato como testemunha de defesa no processo que levou à condenação de Lula por corrupção. Na época, afirmou que frequentava o sítio de Atibaia, mas que nunca havia visto o então presidente no local.
Sobre o aluguel da mansão, Arbex afirmou que assinou o contrato em nome de Roberta porque ela teria enfrentado um imprevisto e não poderia comparecer a Brasília.
“Assinei o contrato no lugar de Roberta porque na época ela teve um imprevisto e não pôde ir a Brasília”, declarou.
Segundo ele, as despesas do imóvel eram de responsabilidade da lobista. A manutenção da residência teria chegado a R$ 100 mil mensais. A reportagem afirma que existe suspeita de que empresários interessados em negócios com o governo custeassem essas despesas.
Tratativas envolvendo canabidiol
A tentativa de alterar regras relacionadas a medicamentos à base de canabidiol aparece entre os principais negócios investigados.
Segundo a reportagem, Roberta havia se reunido com Alexandre Padilha em 2023, quando ele ainda era deputado federal. Em 2024, Padilha ocupava o Ministério das Relações Institucionais.
IMAGEM: ALEXANDRE PADILHA, Ministro da Saúde – O petista recebeu Roberta em seu gabinete em janeiro de 2023, quando era deputado federal. Perguntado sobre a visita à mansão em Brasília, disse por meio de sua assessoria que não comentaria assuntos de “esfera pessoal”. (Fabio Pozzebom/Agência Brasil)
Naquele período, Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde, também teria sido alvo das articulações do grupo.
Segundo as informações apresentadas pela VEJA, havia interesse dos envolvidos em aproximar Berger de Antônio Carlos Camilo Antunes.
IMAGEM: ANTÔNIO CARLOS CAMILO, Careca do INSS – Figura central no escândalo das aposentadorias, era um assíduo frequentador da mansão dos lobistas. Interessado em fechar um contrato bilionário de venda de medicamentos, ele pressionava o filho do presidente a agir. (Ton Molina/Fotoarena/.)
Em uma conversa incluída no inquérito, Roberta teria convidado Marcola para um almoço na mansão.
“Quer um churrasquinho?”, perguntou a lobista.
Marcola teria respondido que tinha pouco tempo disponível. Em seguida, Roberta sugeriu que Berger fosse convidado para o encontro.
“Leva o Berger”, afirmou.
Na sequência, teria acrescentado: “O Fábio pediu”.
IMAGEM: MARCO AURÉLIO SANTANA, o Marcola, Ex-chefe de gabinete de Lula – Era contato frequente de Roberta para tratar de interesses do grupo e manteve interlocução direta com Lulinha quando o primogênito negociava com o governo a compra de medicamentos à base de canabidiol. (Ricardo Stuckert/.)
As mensagens também apontam, segundo a publicação, que Lulinha e o Careca do INSS viajaram juntos para Portugal para visitar uma fábrica de medicamentos relacionados ao negócio investigado.
Outros órgãos públicos aparecem nas mensagens
Wellington Dias, ministro do Desenvolvimento Social, também aparece entre os nomes citados na investigação.
IMAGEM: WELLINGTON DIAS, Ministro do Desenvolvimento Social – Mensagens de Roberta Luchsinger que constam do relatório de investigação da Polícia Federal citam o ministro, outro habitué da mansão. Entre 2023 e 2024, ele recebeu a lobista por várias vezes em seu gabinete na Esplanada. (Elvis González/EFE)
Segundo a reportagem, Roberta esteve várias vezes no gabinete do ministro entre 2023 e 2024. Depois da contratação dos serviços da lobista, um empresário teria firmado contratos de R$ 33 milhões com o Ministério do Desenvolvimento.
Em uma das mensagens, Roberta teria sugerido ao empresário que contratasse Lulinha.
Frederico Siqueira também aparece nas conversas relacionadas às investigações. Antes de assumir o Ministério das Comunicações, ele presidiu a Telebras e foi diretor da Oi.
IMAGEM: FREDERICO SIQUEIRA, Ministro das Comunicações – O ministro foi presidente da Telebras, estatal onde um dos sócios de Lulinha fazia lobby, e diretor da Oi, empresa implicada em outro escândalo envolvendo o primogênito. A posse dele foi comemorada por Roberta Luchsinger. (Antonio Cruz/Agência Brasil)
As mensagens analisadas pela Polícia Federal indicariam que Siqueira teria fornecido informações aos lobistas interessados em negócios envolvendo a Dataprev.
Roberta também teria mencionado a proximidade de Siqueira com o grupo em conversa com um consultor de crise.
“Eu tô com casa aqui. Fábio, filho do pr (presidente), fica aqui comigo. Estamos vindo toda semana (a Brasília)”, escreveu.
Na mesma conversa, acrescentou: “Fred merece uma atenção especial”.
IMAGEM: SWEDENBERGER BARBOSA, Chefe adjunto de gabinete de Lula – Era considerado peça-chave para destravar as negociações que poderiam render mais de meio bilhão de reais em lucros para o Careca do INSS, com quem se reuniu após a intervenção de Lulinha e Marcola (./Divulgação)
Citados negam ou não comentam
A reportagem da VEJA procurou os nomes citados para questionar as visitas à residência.
Alexandre Padilha, Wellington Dias, Frederico Siqueira e Swedenberger Barbosa, por meio de suas assessorias, afirmaram que não comentariam informações relacionadas à esfera pessoal.
Jorge Viana e Marcola não se manifestaram.
Roberta Luchsinger não foi localizada pela reportagem.
Por meio de seu advogado, Lulinha afirmou que nunca participou de reuniões na casa, que não utilizava o endereço para essa finalidade e que esteve no imóvel apenas de maneira episódica e pontual.
Antônio Carlos Camilo Antunes está preso.
A reportagem ressalta que a simples presença de uma pessoa na residência não configura, por si só, crime. As eventuais responsabilidades dos envolvidos dependem do avanço das investigações e da análise das provas pelas autoridades competentes.
Na terça-feira (25), durante um evento de celebração do Dia do Soldado, Lula foi questionado sobre as revelações e as suspeitas investigadas pela Polícia Federal envolvendo seu filho. O presidente deixou o local sem responder aos questionamentos.
Com informações de VEJA.