Ex-banqueiro teria de apresentar informações detalhadas sobre o suposto esquema e indicar onde estão recursos enviados ao exterior
Autoridades envolvidas nas investigações sobre as fraudes relacionadas ao Banco Master admitem analisar uma nova tentativa de delação premiada de Daniel Vorcaro. Para que as negociações sejam retomadas, porém, os investigadores exigem que o ex-banqueiro apresente informações completas e demonstre boa-fé.
Segundo integrantes das equipes responsáveis pelo caso, a principal condição é que Vorcaro mude a postura adotada nas duas tentativas anteriores. A expectativa é que ele forneça um relato abrangente sobre o suposto esquema, sem selecionar apenas informações já conhecidas pelas autoridades ou omitir detalhes relevantes.
Apontado pelos investigadores como líder da suposta organização criminosa responsável por desvios de recursos do Banco Master, Vorcaro teria de apresentar informações sobre pessoas envolvidas e, principalmente, indicar os caminhos que possam levar à recuperação dos valores desaparecidos.
Nas duas propostas anteriores, segundo pessoas ligadas às investigações ouvidas pela Folha, o ex-banqueiro teria apresentado informações consideradas insuficientes ou tentado desviar o foco de determinados fatos.
Relação com Ciro Nogueira
Um dos episódios que provocaram maior insatisfação entre os investigadores envolve a relação de Vorcaro com o presidente do PP e senador Ciro Nogueira (PI).
Em mensagens trocadas com a ex-namorada Martha Graeff, Vorcaro se referiu ao parlamentar como um “grande amigo de vida”. As investigações, entretanto, teriam identificado uma relação que, segundo os investigadores, ultrapassaria uma simples amizade.
De acordo com as apurações, um assessor de Vorcaro no Banco Master teria elaborado o texto de um projeto legislativo que ficou conhecido como “emenda Master”. O documento foi encaminhado a Ciro Nogueira, que o apresentou no plenário sem alterações.
Em outro diálogo interceptado pela Polícia Federal, Vorcaro teria afirmado que a proposta legislativa havia sido aprovada exatamente nos termos que ele havia solicitado.
O projeto atendia a interesses do Banco Master ao propor o aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A mudança permitiria que investidores dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) comercializados pela instituição aplicassem valores maiores no banco.
Para os investigadores, parte das declarações feitas anteriormente por Vorcaro sobre o assunto, incluindo a caracterização de sua relação com o senador como mera amizade, não corresponderia aos fatos apurados.
Novo depoimento à PF é adiado
Estava previsto para esta quinta-feira (20) um depoimento de Vorcaro à Polícia Federal relacionado à investigação sobre uma suposta rede de influenciadores que teria sido utilizada para atacar a credibilidade do Banco Central. A oitiva, entretanto, foi adiada.
A possibilidade de uma nova tentativa de acordo de delação voltou a ser considerada cerca de dois meses depois da segunda rejeição e após uma mudança na equipe de defesa do ex-banqueiro.
O advogado Daniel Bialski passou a integrar a defesa de Vorcaro no último mês. Ele atua nas investigações criminais ao lado de Sérgio Leonardo, que é amigo do ex-banqueiro e o representa desde o início da Operação Compliance Zero.
Em entrevista à GloboNews, Bialski afirmou que Vorcaro “quer falar e quer colaborar” novamente, caso tenha essa oportunidade.
Segundo pessoas próximas às tratativas, porém, as conversas iniciais entre a nova defesa e as autoridades ainda estariam concentradas em questões mais amplas relacionadas ao processo.
Bialski também solicitou uma audiência com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso.
Ministro do STF não trata de acordo de delação
O gabinete de Mendonça negou a possibilidade de discutir uma nova tentativa de delação com os advogados.
Segundo pessoas próximas ao ministro, ele está disponível para receber representantes das partes envolvidas nos processos sob sua relatoria, mas não cabe ao magistrado negociar ou discutir os termos de um eventual acordo de colaboração premiada.
Entre os assuntos que poderiam ser levados à conversa estão questões relacionadas às condições de prisão de Vorcaro, como uma possível ampliação do período destinado às visitas.
O ex-banqueiro está preso desde junho na unidade prisional conhecida como Papudinha, no Distrito Federal. Antes disso, estava custodiado na Superintendência da Polícia Federal no DF, onde tinha maior acesso aos advogados.
Até o momento, a defesa não teria procurado formalmente a Polícia Federal ou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para apresentar uma nova proposta. Nos bastidores, segundo informações da Folha, a receptividade seria maior por parte da PF do que da PGR.
Recuperação de recursos é ponto central
Um dos principais motivos para a possível retomada das negociações é a dificuldade de localizar e repatriar recursos sem a colaboração de Vorcaro.
Investigadores afirmam saber que parte do dinheiro teria sido enviada para fora do país, mas ainda não teriam informações completas sobre os locais onde os valores estão mantidos ou sobre o montante envolvido.
Esses dados são considerados relevantes porque poderiam acelerar a recuperação dos recursos.
Sem uma colaboração, a recuperação dos valores dependeria do avanço das investigações e do processo judicial, incluindo eventual condenação, trânsito em julgado e localização dos ativos pelas próprias autoridades.
Apesar disso, integrantes das equipes envolvidas no caso afirmam que a investigação possui um volume significativo de informações obtidas de forma independente, além dos materiais reunidos durante as operações.
Os investigadores também avaliam que as apurações ainda estão longe de serem concluídas e que novos elementos devem ser reunidos mesmo sem uma eventual delação de Vorcaro.
De modo geral, acordos de colaboração premiada podem ser utilizados para obter informações que contribuam para identificar outros envolvidos, localizar provas e recuperar ativos. Dependendo do crime investigado, a colaboração também pode auxiliar na identificação de vítimas.
