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DO HABIB’S ÀS CASAS BAHIA: por que grandes empresas estão entrando em crise no Brasil? DESCUBRA

Por Junior Melo
28/ago/2026
Em Brasil, Economia
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, nega que razão para a alta de recuperações judiciais seja somente as taxas de juros- André Borges/EPA/Shutterstock

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, nega que razão para a alta de recuperações judiciais seja somente as taxas de juros- André Borges/EPA/Shutterstock

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Grandes empresas de diferentes setores, como Habib’s, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Oncoclínicas, Grupo Toki — que reúne Tok&Stok e Mobly —, Grupo CVLB — responsável por Casa & Vídeo e Le Biscuit — e St. Marché, recorreram neste ano a pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial.

Especialistas avaliam que a quantidade de empresas que enfrentam dificuldades financeiras pode continuar crescendo.

Dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial, mostram que o número de companhias em recuperação judicial aumentou 66% nos últimos três anos. No segundo trimestre de 2026, foram contabilizados 6.341 casos.

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Entre as empresas em recuperação, 21% pertencem ao varejo, 19,6% à indústria de transformação e 17,5% ao agronegócio. Esses são os segmentos com maior concentração de pedidos.

A recuperação judicial permite que a empresa renegocie suas dívidas com diferentes grupos de credores, como trabalhadores, fornecedores e instituições financeiras, sob acompanhamento da Justiça. Já na recuperação extrajudicial, a companhia negocia diretamente com um grupo de credores e posteriormente leva o acordo para homologação judicial.

Os dois mecanismos têm como objetivo evitar a falência da empresa. Quando a Justiça conclui que a companhia não possui condições de honrar seus compromissos financeiros e precisa encerrar as atividades, é decretada a falência. Foi o que ocorreu com a Oi em 25 de agosto.

Juros elevados pressionam empresas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu que o varejo sofre os efeitos das taxas elevadas de juros, principalmente porque o setor depende de crédito para comprar produtos de fornecedores e também para vender aos consumidores.

Apesar disso, Durigan rejeitou a ideia de que exista uma crise generalizada na economia brasileira.

Em entrevista à Globonews, no dia 21 de agosto, o ministro afirmou que existem diversos indicadores que apontam para um desempenho positivo em diferentes setores da economia. Segundo ele, em razão do período eleitoral, a oposição tenta caracterizar a situação como uma crise generalizada.

Especialistas ouvidos pela reportagem, entretanto, apontam três fatores principais para o atual aumento dos pedidos de recuperação empresarial, especialmente no varejo.

O primeiro é a manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado. A Selic está em 14% ao ano, o que aumenta o custo das dívidas das empresas e reduz a disponibilidade de crédito para os consumidores.

O segundo fator está relacionado à gestão. Empresas que, ao longo da última década, reduziram estruturas gerenciais para cortar despesas e ganhar agilidade acabaram, em alguns casos, concentrando decisões em um número menor de pessoas. Para especialistas, isso pode fazer com que erros estratégicos tenham consequências maiores.

O terceiro ponto envolve as transformações no mercado de trabalho. Segundo os especialistas, salários baixos e perspectivas reduzidas de crescimento fazem com que menos profissionais queiram construir carreira dentro das empresas, enquanto as companhias também passaram a valorizar menos funcionários que já conhecem suas estruturas.

Para Fabian Salum, professor titular e pesquisador líder de estratégias competitivas da Fundação Dom Cabral (FDC), a atual onda de recuperações tem causas externas e internas.

Entre os fatores externos, ele cita a dificuldade de acesso a capital, a restrição das instituições financeiras para conceder financiamentos e capital de giro e o aumento do endividamento das empresas no período posterior à pandemia.

Salum destaca ainda que a Selic saiu de 2% para 15% ao longo desse período, elevando a pressão financeira sobre as companhias.

Endividamento dos consumidores também afeta empresas

Além das dificuldades enfrentadas pelas empresas, os especialistas destacam o alto nível de endividamento das famílias. Segundo os dados apresentados na reportagem, 39% da população está inadimplente.

Com menos dinheiro disponível para o consumo, as empresas encontram dificuldades para atingir suas metas de vendas. O resultado pode ser a redução dos investimentos, inclusive na capacitação dos funcionários.

Salum avalia que, justamente em momentos de dificuldade financeira, as companhias precisam de profissionais preparados para encontrar soluções. Entretanto, a média gerência está entre os grupos mais afetados pelos cortes.

Esses profissionais fazem a ligação entre a área operacional e a direção das empresas, conectando supervisores, coordenadores, analistas e operadores ao nível estratégico.

Segundo Salum, muitos desses trabalhadores deixam de receber treinamento e passam a ser considerados dispensáveis. Em outros casos, diante da ausência de perspectivas de crescimento profissional, acabam deixando as empresas para atuar como consultores.

O especialista diferencia o cenário atual do chamado “downsizing” dos anos 1990, quando houve redução de diversos níveis hierárquicos.

Hoje, segundo ele, existe uma concentração maior de responsabilidades nos cargos mais altos das empresas. Um executivo pode acumular funções relacionadas a recursos humanos, ESG, inovação, segurança e medicina do trabalho. Em outros casos, um mesmo diretor pode responder por áreas administrativas, financeiras, marketing e tecnologia.

Para Salum, algumas dessas funções podem ter relação entre si, mas exigem atenção específica. Em um cenário no qual as decisões precisam ser tomadas rapidamente, ele considera necessário manter profissionais capazes de liderar equipes, e não apenas supervisioná-las.

Decisões tomadas durante a pandemia ainda afetam empresas

A pandemia de coronavírus também aparece entre os fatores que contribuíram para decisões estratégicas que hoje impactam algumas companhias.

Durante aquele período, muitas empresas ampliaram os investimentos em tecnologia e criaram ou expandiram operações de comércio eletrônico.

Especialistas consideram que essas medidas eram necessárias, mas avaliam que algumas decisões foram tomadas de maneira acelerada, sem considerar a possibilidade de uma forte alta da taxa de juros.

Isabella Vasconcellos, professora do curso de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), afirma que empresas que enfrentam dificuldades atualmente ainda sofrem consequências de decisões tomadas entre 2020 e 2021, período marcado por grande incerteza econômica.

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) citados por Vasconcellos, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria entre 2020 e 2025. O saldo de contratações para essas posições ficou negativo em 112 mil postos.

Para a professora, cortes e reestruturações durante processos de recuperação precisam ser avaliados cuidadosamente, já que a redução excessiva de profissionais qualificados pode prejudicar a capacidade de recuperação da própria empresa.

André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners, também alerta para o risco de perder trabalhadores qualificados durante processos de ajuste.

Segundo ele, o varejo exige bastante dos profissionais e enfrenta dificuldades para encontrar gestores preparados. Pimentel afirma ainda que executivos qualificados acabam migrando para outros setores devido às exigências de jornada do segmento.

Expansões acima da capacidade financeira

Outro problema apontado pelos especialistas envolve decisões de expansão tomadas sem considerar a capacidade de geração de caixa das empresas.

Pimentel afirma que algumas companhias adotam planos de crescimento incompatíveis com os recursos disponíveis e acabam recorrendo a financiamentos caros para sustentar essas estratégias.

Segundo ele, a pressão por resultados também pode influenciar decisões tomadas por executivos e conselhos de administração.

Um exemplo citado é o da Casas Bahia. A empresa possuía mais de mil lojas espalhadas pelo país. Durante o processo de recuperação judicial, 298 unidades foram fechadas e 1.900 funcionários foram demitidos. Posteriormente, a Justiça determinou a reintegração provisória das equipes.

Para Pimentel, parte das unidades poderia ter sido encerrada antes ou sequer deveria ter sido aberta, caso não apresentasse condições de gerar rentabilidade.

O consultor afirma que algumas empresas priorizam demonstrar crescimento e desempenho em vez de concentrar esforços na rentabilidade do negócio.

Outro fator apontado é o sistema de remuneração de executivos. Em algumas companhias, bônus estão vinculados ao cumprimento de metas de expansão, o que pode criar incentivos para aumentar o tamanho da operação.

Pimentel avalia que, em determinadas situações, o caminho para recuperar a rentabilidade seria justamente reduzir o tamanho da empresa.

Ele também cita a preocupação dos investidores com uma eventual redução das operações, diante do risco de queda no valor das ações. Na avaliação do consultor, porém, o avanço do comércio eletrônico e das novas tecnologias torna necessária uma revisão da estrutura física de muitas empresas.

Cortes de funcionários podem agravar dificuldades

Betania Tanure, psicóloga especializada em comportamento organizacional e sócia da consultoria BTA Associados, considera que o avanço tecnológico também trouxe novas incertezas para as empresas.

Para ela, diante de resultados abaixo do esperado, pode ser mais simples para uma companhia reduzir o quadro de funcionários do que elaborar uma estratégia racional de expansão.

Tanure avalia que cortes entre 10% e 20% da força de trabalho, observados em crises recentes, podem sobrecarregar os profissionais que permanecem e comprometer a qualidade das operações.

Vasconcellos também alerta para os efeitos da redução de funcionários qualificados. Segundo ela, esse tipo de corte pode prejudicar o futuro das empresas justamente em um período de maior pressão financeira.

A professora afirma que a estrutura de capital das companhias continuará pressionada diante da expectativa de juros elevados. Mesmo quando as empresas conseguem aumentar as vendas e a receita, o custo das dívidas pode crescer e consumir parte do caixa.

Caso o ritmo de vendas diminua, a situação financeira tende a ficar ainda mais difícil.

Governança ganha importância

Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade Brasil, afirma que taxas de juros acima de dois dígitos aumentam o risco de insolvência das empresas. Para ele, entretanto, problemas de gestão também precisam ser considerados.

O executivo cita casos de fraude, como o da Americanas, e situações de expansão considerada mal calculada, como a da Raízen, como exemplos que reforçam a importância de mecanismos de governança.

A Allianz Trade Brasil atua com seguro de crédito. Nesse modelo, um fornecedor de uma empresa em recuperação judicial que seja cliente da companhia pode receber entre 90% e 95% do valor devido em até 30 dias após a Justiça deferir o pedido de recuperação.

Apesar de as vendas da companhia terem aumentado 6% no primeiro semestre de 2026, o crescimento dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial produz efeitos sobre o mercado de crédito.

Segundo Tanus, a percepção de risco faz com que os limites de crédito sejam reduzidos e que o financiamento fique mais caro.

Famílias também sofrem com o custo do crédito

Armando Castelar, pesquisador associado do FGV IBRE, destaca que o cenário econômico afeta simultaneamente empresas e consumidores.

Segundo o economista, parte dos trabalhadores tem uma parcela significativa da renda comprometida com empréstimos consignados.

Para Castelar, esse cenário pode contribuir para o surgimento de novos pedidos de recuperação judicial e aumentar a pressão sobre o Banco Central para que reduza a taxa básica de juros.

Com informações de BBC News

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