A proximidade das eleições de 2026 já começa a influenciar o comportamento dos investidores no mercado financeiro brasileiro. Investidores estrangeiros reduziram a exposição à Bolsa brasileira, com saídas que já ultrapassam R$ 13 bilhões, incluindo uma retirada de R$ 4,7 bilhões em apenas um dia.
O movimento ganhou força após o banco americano JP Morgan rebaixar sua recomendação para as ações brasileiras de compra para neutra. Para Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, o relatório funcionou como um gatilho para uma reprecificação dos ativos do país.
“O relatório ajudou bastante, é um banco estrangeiro, então se comunica muito, tem muito acesso aos investidores estrangeiros”, afirmou Barros. Segundo ele, o documento contribuiu para acelerar a mudança de percepção sobre os ativos brasileiros.
Cenário eleitoral aumenta cautela
Na avaliação de Barros, a proximidade das eleições faz com que fatores domésticos tenham cada vez mais peso nas decisões dos investidores.
“Sempre que a gente tem ano eleitoral, os fatores locais, quanto mais próximos a eleição, começam a pesar muito mais na precificação dos ativos”, explicou.
Um dos principais pontos de preocupação é a falta de clareza sobre a condução da política econômica a partir de 2027. O cenário para o período posterior às eleições ainda é considerado incerto pelos investidores.
Barros também apontou que a ausência de discussões mais aprofundadas sobre questões estruturais durante a campanha pode aumentar a percepção de risco. Entre os temas citados estão as contas públicas, o equilíbrio fiscal, investimentos em infraestrutura e segurança pública.
“Essa campanha não parece que vai tratar dos problemas do país”, afirmou. Para o economista, a falta de debate sobre essas questões pode dificultar a construção de uma agenda de reformas econômicas após as eleições.
Dívida pública preocupa mercado
O cenário fiscal também aparece entre os principais fatores de preocupação. Segundo Barros, as propostas apresentadas até o momento pelos candidatos não seriam suficientes para estabilizar a trajetória da dívida pública.
“Quando a gente faz conta, a trajetória da dívida pública não estabiliza. Ela continua crescendo de forma ininterrupta com o arcabouço atual vigente”, disse.
O economista também afirmou que o Brasil possui uma dívida pública 25 pontos percentuais acima da média dos países emergentes.
Ao comentar uma proposta de ajuste fiscal de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) apresentada pelo candidato mais bem colocado da oposição, Barros avaliou que a medida seria relevante, mas insuficiente para colocar a dívida em uma trajetória de estabilização e queda.
Diferencial de juros pode perder força
O comportamento do câmbio também é motivo de atenção. O real vinha sendo favorecido pelo diferencial de juros entre o Brasil e outras economias, mas essa vantagem pode diminuir nos próximos meses.
A expectativa de mudanças nos juros dos Estados Unidos, combinada com a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes da taxa básica brasileira, tende a reduzir essa diferença.
“Eu esperaria uma desvalorização adicional para frente, em função dessa redução do diferencial de juros”, projetou Barros.
Para o economista, a situação reflete uma deterioração dos fundamentos macroeconômicos brasileiros. Ele afirmou que o crescimento atual estaria sendo sustentado principalmente por estímulos fiscais e de crédito.
“A economia brasileira vem se deteriorando, os fundamentos macroeconômicos vêm se deteriorando”, afirmou.
Segundo Barros, o nível de estímulos utilizados para sustentar o crescimento não pode ser mantido indefinidamente e exigirá correções no futuro.
“Tem muito estímulo fiscal, fiscal de crédito sendo dado para manter esse PIB artificialmente elevado”, disse. “A gente, infelizmente, vai ter que corrigir esse problema. Não dá para carregar isso por muito mais tempo.”
O cenário combina, portanto, cautela dos investidores estrangeiros, incertezas sobre a política econômica após as eleições, preocupações com a trajetória da dívida pública e possíveis mudanças no diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.