O uso de semaglutida e de outros medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, indicados para o tratamento do diabetes e da obesidade, pode provocar alterações na saúde bucal, segundo especialistas. Entre as queixas mais frequentes dos pacientes estão boca seca, mudanças no paladar, aumento da sede e até um hálito com odor semelhante ao de enxofre — efeitos que ficaram conhecidos popularmente como “boca de Ozempic” e “hálito de Ozempic”.
De acordo com a cirurgiã-dentista Jennifer L. Thompson, presidente do Conselho de Prática Odontológica da Associação Dental Americana, a boca seca é o efeito mais relatado entre os usuários desses medicamentos. A redução da produção de saliva pode favorecer o surgimento de mau hálito, alterações no sabor dos alimentos, maior sensibilidade dos dentes e aumento do risco de cáries e doenças periodontais.
Especialistas explicam que um dos principais fatores por trás dessas alterações é o retardo do esvaziamento do estômago e do intestino, efeito característico dessa classe de medicamentos. Um estudo canadense aponta que a permanência prolongada dos alimentos no sistema digestivo favorece a fermentação e o crescimento de bactérias, o que pode resultar na produção de gás sulfídrico e provocar eructações com odor de enxofre.
Além disso, cerca de 24% dos pacientes relatam episódios de vômito durante o tratamento. O contato frequente do ácido estomacal com os dentes pode causar desgaste do esmalte e contribuir para o desenvolvimento do mau hálito.
Uma revisão científica também observou que sintomas gastrointestinais e xerostomia — termo médico para boca seca — parecem ocorrer com maior frequência em usuários de semaglutida quando comparados aos pacientes que utilizam outros medicamentos da mesma categoria.
Outro estudo, realizado com dados de mais de 200 mil usuários desses medicamentos, identificou um aumento de quase um terço na probabilidade de desenvolvimento da doença do refluxo gastroesofágico. Embora a pesquisa não tenha encontrado relação direta entre o refluxo e a halitose ou a boca seca, os pesquisadores destacam que esses sintomas podem ter sido subnotificados.
Os especialistas também apontam que a diminuição da saliva pode estar relacionada à ação direta da semaglutida sobre as glândulas salivares. A ativação prolongada do receptor de GLP-1 pode interferir no funcionamento dessas glândulas, reduzindo a produção salivar ao longo do tratamento.
A saliva desempenha papel fundamental na proteção da cavidade bucal, ajudando a eliminar resíduos alimentares e neutralizar os ácidos produzidos pelas bactérias. Quando sua produção diminui, aumenta a proliferação bacteriana, favorecendo o surgimento de cáries, inflamações gengivais e mau hálito.
As alterações no paladar ainda são alvo de pesquisas, mas cientistas acreditam que o GLP-1 também participa dos mecanismos responsáveis pela percepção dos sabores e pela recompensa associada ao consumo de alimentos, o que pode fazer com que alimentos doces se tornem menos atrativos e sabores amargos sejam percebidos de forma mais intensa por alguns pacientes.
Apesar desses efeitos, especialistas ressaltam que as alterações bucais, isoladamente, não indicam necessariamente problemas gastrointestinais mais graves, como gastroparesia. No entanto, sintomas persistentes ou associados a desconfortos digestivos devem ser avaliados por um médico.
Para reduzir os impactos na saúde bucal, a recomendação é manter uma rotina adequada de higiene, com escovação por pelo menos dois minutos, uso diário de fio dental e acompanhamento odontológico regular.
Nos casos de boca seca, a orientação inclui manter boa hidratação, utilizar gomas de mascar ou pastilhas com xilitol e, quando necessário, recorrer a medicamentos estimuladores da produção de saliva, como a pilocarpina, sempre sob orientação médica.
Já em situações de refluxo ou vômitos, especialistas recomendam evitar escovar os dentes imediatamente após o episódio. O ideal é enxaguar a boca com água e aguardar cerca de 30 minutos antes da escovação, reduzindo o risco de erosão do esmalte dentário.
Para amenizar o hálito com odor de enxofre, podem ser utilizados cremes dentais contendo flúor e zinco, raspadores de língua e enxaguantes bucais fluoretados.
Especialistas destacam que esses efeitos colaterais, na maioria dos casos, não justificam a interrupção do tratamento com agonistas de GLP-1, considerados importantes no controle do diabetes e da obesidade. O reconhecimento precoce dos sintomas e o tratamento adequado podem contribuir para uma melhor qualidade de vida dos pacientes, que também devem manter consultas periódicas com o dentista, especialmente aqueles com diabetes, condição que já aumenta o risco de problemas bucais.
