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Início Brasil

A “Dolarização” está transformando os bairros mais desejados do Rio e essa mudança pressiona moradores locais, entenda

Por Junior Melo
08/jul/2026
Em Brasil
Dados do mercado imobiliário ajudam a mostrar como viver no Rio pagando aluguel ficou mais caro nos últimos anos. Imagem: Alex Robinson/ Getty

Dados do mercado imobiliário ajudam a mostrar como viver no Rio pagando aluguel ficou mais caro nos últimos anos. Imagem: Alex Robinson/ Getty

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O aumento dos preços dos aluguéis no Rio de Janeiro tem levado moradores a mudar de bairro e buscar regiões menos valorizadas ou até deixar a cidade em busca de um custo de vida mais compatível com a renda.

Um dos exemplos é o ator e servidor público Rodrigo Gicovate, de 37 anos, que deixou Copacabana, na Zona Sul, e se mudou para Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara.

A mudança ocorreu há cerca de dois anos, após o aumento das despesas tornar difícil permanecer no Rio. Rodrigo chegou à capital fluminense em 2019 e, depois de passar um período em Campos dos Goytacazes durante a pandemia, voltou em 2022.

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Na época, dividia apartamento em Copacabana com outras três pessoas para reduzir os custos. Mesmo assim, afirma que o orçamento ficou cada vez mais apertado.

“Estava difícil pagar aluguel, contas e todo o custo de vida. Não era apenas a moradia. Mercado, transporte e outros gastos também aumentaram”, relatou.

Segundo ele, o custo mensal para viver no bairro chegava a aproximadamente R$ 1,8 mil. Ao procurar opções mais baratas dentro do próprio Rio, não encontrou alternativas viáveis.

“Eu procurava quitinetes no Centro e não encontrava nada abaixo de R$ 2 mil ou R$ 2,5 mil. Quem ganha um salário médio consegue manter esse valor?”, questionou.

A ida para Niterói foi uma forma de equilibrar as despesas e também melhorar aspectos relacionados à rotina e segurança. O ponto decisivo, segundo Rodrigo, foi uma tentativa de assalto próxima à antiga residência.

Atualmente, ele mora sozinho em um apartamento menor no bairro Ponta D’Areia, na região central de Niterói, pagando cerca de R$ 2,2 mil de aluguel. Apesar do valor semelhante, afirma que ganhou qualidade de vida.

Como trabalha na própria cidade, reduziu o tempo de deslocamento e conseguiu reorganizar a rotina. Ele conta que passou a utilizar bicicleta elétrica e leva cerca de cinco minutos para chegar ao trabalho.

Para o servidor, o aumento dos preços da moradia dificulta cada vez mais que uma pessoa consiga viver sozinha nas grandes cidades.

“Boa parte da minha renda ainda vai para o aluguel. Fico preocupado pensando no futuro”, afirmou.

Na avaliação dele, a valorização internacional do Rio também contribui para o encarecimento.

“É uma cidade voltada para turistas. O lazer e a cultura, principalmente na Zona Sul, acabam sendo direcionados para uma parcela mais rica da população”, disse.


Moradores migram para bairros fora da Zona Sul

Outra alternativa encontrada por moradores é permanecer no Rio, mas trocar áreas tradicionalmente valorizadas por bairros com custo menor.

O gerente de contas Matheus Borges Assis, de 31 anos, deixou Copacabana após seis anos vivendo na cidade e se mudou para Vila Isabel, na Zona Norte.

A mudança ocorreu há cerca de dois anos e meio, após perceber a alta contínua dos preços, especialmente em regiões próximas ao metrô.

Segundo ele, o valor do aluguel ficou semelhante ao que pagaria em bairros mais disputados, mas com uma estrutura melhor.

“Paguei praticamente o mesmo valor para morar em um apartamento com varanda e garagem”, afirmou.

Apesar de reconhecer limitações em transporte, serviços e hospitais, Matheus considera que a mudança trouxe melhor custo-benefício e uma experiência mais próxima da identidade tradicional carioca.

“A Zona Sul tem muitos turistas e pessoas de fora. Em Vila Isabel e na Tijuca isso é menos perceptível”, declarou.


Preço do aluguel sobe acima da inflação

Dados do mercado imobiliário mostram que o aumento dos valores de locação no Rio ocorreu em ritmo superior ao da inflação nos últimos anos.

O preço médio do metro quadrado para aluguel passou de R$ 36,10 em maio de 2023 para R$ 51,60 em maio de 2026, uma alta de 42,7%. No mesmo período, a inflação acumulada ficou em 14,9%.

O aumento foi ainda maior em imóveis de um quarto, segundo dados do QuintoAndar, com valorização de 51,4% no período.

Em bairros da Zona Sul, a elevação foi mais intensa. Dados do Grupo OLX apontam que, entre 2021 e 2026:

  • Copacabana teve alta de 101,8% no valor médio do metro quadrado;
  • Ipanema registrou aumento de 108,3%;
  • Leblon teve crescimento de 105,7%.

A valorização ocorre em meio ao aumento da presença internacional na cidade.

Segundo dados da Embratur, do Ministério do Turismo e da Polícia Federal, o Brasil recebeu mais de 2,6 milhões de turistas estrangeiros no primeiro bimestre de 2026.

O Rio foi o principal ponto de entrada de visitantes internacionais no país, com 884,5 mil chegadas no primeiro trimestre.


Nômades digitais e investidores estrangeiros pressionam mercado

Além do turismo tradicional, especialistas apontam o crescimento do trabalho remoto internacional como um dos fatores que influenciam a procura por imóveis na cidade.

Dados do Ministério das Relações Exteriores mostram aumento na emissão de vistos para nômades digitais: foram 479 em 2024, 508 em 2025 e outros 117 apenas nos três primeiros meses de 2026.

O canadense Kyle Pearce, de 42 anos, é um dos estrangeiros que escolheu o Rio como base temporária. Ele chegou em abril e decidiu morar em Copacabana enquanto trabalha remotamente com marketing digital.

Segundo ele, a cidade oferece qualidade de vida e um ambiente favorável para profissionais que trabalham pela internet.

Kyle afirma que viver no Rio custa cerca de 30% menos do que no Canadá, embora ressalte que esse não foi o principal motivo da mudança.

“Vim porque o Rio é uma cidade interessante, com cultura, praias e um estilo de vida próprio”, disse.


Investidores ampliam presença no mercado imobiliário

Especialistas afirmam que o aumento da procura por imóveis também está relacionado ao interesse de investidores estrangeiros.

O economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM, explica que a valorização imobiliária resulta de uma combinação de fatores, como turismo internacional, câmbio favorável e retorno financeiro de aluguéis de curta temporada.

Segundo ele, a maior procura por imóveis para hospedagens temporárias reduz a quantidade disponível para contratos tradicionais.

Levantamento da imobiliária Patrimóvel aponta que estrangeiros representaram 28% das compras de apartamentos tipo estúdio em Copacabana, Ipanema e Leblon entre novembro de 2025 e abril de 2026.

Os americanos lideram entre os compradores, seguidos por argentinos, espanhóis, romenos e suíços.


Aluguéis de curta duração mudam dinâmica da cidade

O crescimento das plataformas de hospedagem temporária também passou a influenciar o mercado.

Apartamentos compactos em bairros turísticos passaram a ser vistos como investimentos com potencial de retorno maior do que contratos tradicionais de longo prazo.

Para especialistas, esse movimento reduz a oferta de imóveis disponíveis para moradores permanentes em algumas regiões.

A discussão ocorre em várias cidades do mundo. Em Barcelona, por exemplo, foram anunciadas restrições aos aluguéis de curta duração. Já em Lisboa, medidas limitaram novas licenças para hospedagens temporárias.

Especialistas, porém, destacam que o Rio possui características próprias e que comparações precisam ser feitas com cautela.


Desafio é equilibrar turismo e moradia

Para especialistas, o principal desafio do Rio nos próximos anos será equilibrar o crescimento do turismo e dos investimentos com a necessidade de manter moradias acessíveis para quem vive na cidade.

O economista Jorge Ferreira dos Santos Filho afirma que o limite da valorização ocorre quando ela deixa de melhorar a economia local e passa a expulsar moradores tradicionais.

Entre as medidas apontadas estão maior regulamentação dos imóveis de curta temporada, transparência de dados e ampliação da oferta de moradias.

Já o economista Gilberto Braga, professor do Ibmec Rio de Janeiro, defende que o aumento da oferta habitacional é uma das principais soluções para reduzir a pressão sobre os preços.

Segundo ele, novos empreendimentos em diferentes regiões da cidade podem ajudar a atender tanto moradores quanto investidores.

O cenário atual mostra que a valorização imobiliária transformou a relação dos cariocas com a cidade: enquanto alguns buscam bairros mais afastados, outros deixam o Rio em busca de alternativas mais acessíveis.

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