A decisão da China de aplicar uma sobretaxa de 55% sobre as importações de carne bovina que ultrapassarem as cotas estabelecidas para cada país acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. Segundo análise da consultoria StoneX, o Brasil já utilizou 98,5% da cota anual de 1,106 milhão de toneladas até o fim de junho.
Mantido o ritmo atual dos embarques, o limite deverá ser alcançado em agosto. A partir desse momento, toda carne exportada acima da cota passará a pagar uma tarifa total de 67% — resultado da alíquota original de 12% somada à sobretaxa de 55% —, o que pode comprometer a competitividade do produto brasileiro no principal mercado consumidor.
China compra mais da metade da carne bovina exportada pelo Brasil
A China responde atualmente por cerca de 52% das exportações brasileiras de carne bovina.
Em 2025, o Brasil enviou 1,68 milhão de toneladas ao mercado chinês, volume cerca de 35% superior à cota definida para 2026. Com o novo limite, aproximadamente 580 mil toneladas por ano precisarão ser direcionadas ao mercado interno ou a outros países compradores.
Setor estima perdas de até R$ 16,5 bilhões
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes estima que as exportações brasileiras de carne bovina poderão cair até 10% em 2026.
Segundo a entidade, o impacto financeiro pode chegar a US$ 3 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 16,5 bilhões em perdas para o setor.
Frigoríficos já sentem os efeitos
Mesmo antes do esgotamento da cota, empresas do setor começaram a reduzir o ritmo de produção destinada ao mercado chinês.
De acordo com relatos da indústria, dezenas de frigoríficos concederam férias coletivas aos funcionários e interromperam parte das operações voltadas às exportações.
Com maior oferta de carne no mercado interno, a tendência é de pressão sobre os preços pagos aos pecuaristas, principalmente no curto prazo.
Produtores enfrentam cenário delicado
A situação ocorre em um momento de dificuldades para o campo. Dados da Serasa Experian mostram que a inadimplência entre produtores rurais atingiu 8,1% no segundo trimestre de 2025, o maior índice desde o início da série histórica.
Especialistas avaliam que a combinação entre restrições no mercado chinês, queda nos preços da arroba e dificuldades financeiras pode aumentar a pressão sobre toda a cadeia da pecuária brasileira nos próximos meses.