O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a questionar a integridade das eleições americanas nesta quinta-feira (16). O republicano determinou a divulgação de documentos de inteligência anteriormente confidenciais, alegando que o material comprova fraudes eleitorais e interferência estrangeira no processo eleitoral. As afirmações, no entanto, divergem de avaliações produzidas por agências de inteligência e de estudos independentes.
Ao longo do primeiro semestre de 2026, Trump afirmou mais de 100 vezes que as eleições presidenciais de 2020 foram “fraudadas”. O discurso também tem servido de base para pressionar o Congresso a aprovar a Lei SAVE America, proposta que prevê regras mais rígidas de identificação de eleitores e amplia a atuação do governo federal sobre as eleições.
O projeto já foi aprovado em diversas ocasiões pela Câmara dos Representantes, de maioria republicana, mas ainda não reúne os 60 votos necessários para superar uma obstrução no Senado.
Segundo Trump, os documentos divulgados pela Casa Branca apontariam fragilidades no sistema eleitoral americano e reforçariam alegações envolvendo interferência estrangeira e possíveis irregularidades.
Alegações envolvendo a China
Entre os pontos apresentados pelo presidente está a acusação de que a China teria buscado favorecer candidatos democratas em eleições recentes. Trump afirmou que Pequim tentou influenciar o resultado das eleições de meio de mandato de 2018, prejudicar candidatos republicanos e comprometer suas chances de reeleição em 2020. O republicano também acusou o governo chinês de obter dados de eleitores americanos.
Entretanto, uma avaliação da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, divulgada em 2021, concluiu que a China chegou a considerar operações de influência para alterar o resultado das eleições de 2020, mas optou por não executá-las. O relatório foi elaborado durante a gestão de John Ratcliffe, então diretor de Inteligência Nacional no governo Trump e atual diretor da CIA.
O documento também aponta que a China buscava coletar informações sobre eleitores, opinião pública e partidos políticos americanos desde pelo menos 2008. Segundo a avaliação, os dados obtidos eram públicos e não foram utilizados para alterar votos.
Urnas eletrônicas e Venezuela
Trump também utilizou documentos da CIA sobre supostas fraudes eleitorais atribuídas ao governo do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro para sustentar que as urnas eletrônicas dos Estados Unidos poderiam ser vulneráveis a ataques cibernéticos. Segundo ele, o governo venezuelano teria capacidade de alterar digitalmente a contagem de votos.
Relatórios da CIA produzidos entre 2004 e 2020 indicam que o governo venezuelano possuía capacidade técnica para manipular votos digitalmente. No entanto, não há evidências de que esse tipo de fraude tenha ocorrido em eleições americanas, nem de que essas técnicas tenham sido empregadas nos Estados Unidos. A teoria de que o governo Maduro teria interferido nas eleições americanas de 2020 foi amplamente contestada por especialistas.
Registro de não-cidadãos
Outro ponto citado por Trump foi o suposto registro de aproximadamente 278 mil não-cidadãos para votar em eleições federais, informação que, segundo ele, teria sido identificada pelo Departamento de Segurança Interna.
O presidente e seus aliados utilizam esse argumento para defender regras mais rígidas de votação. Estados governados por republicanos forneceram voluntariamente dados de eleitores ao governo federal para auxiliar na identificação de possíveis registros irregulares.
Por outro lado, o governo Trump foi derrotado em 15 ações judiciais que buscavam obrigar outros estados — em sua maioria administrados por democratas — a compartilhar bancos de dados eleitorais, segundo o Democracy Docket.
Pesquisas independentes apontam que casos de votação por não-cidadãos são incomuns. Levantamento do Bipartisan Policy Center identificou que apenas 0,04% dos registros analisados pelos estados correspondiam a pessoas sem cidadania americana. Especialistas também alertam que revisões amplas nos cadastros eleitorais podem acabar retirando eleitores aptos a votar.
Caso em Michigan
Trump voltou a mencionar um episódio ocorrido em Muskegon, no estado de Michigan, envolvendo um esquema de registros eleitorais em larga escala.
Na ocasião, autoridades apreenderam formulários de registro coletados por uma empresa do Tennessee. As investigações concluíram que parte dos documentos era legítima, enquanto outros apresentavam irregularidades, como assinaturas falsificadas, endereços incorretos e inconsistências cadastrais.
Os registros considerados fraudulentos foram cancelados antes da eleição, e as autoridades informaram que nenhum voto relacionado ao caso foi contabilizado. O processo foi encaminhado ao FBI em 2021, mas não resultou em acusações formais. Trump afirmou que o atual diretor da agência, Kash Patel, pretende reabrir a investigação.
A secretária de Estado de Michigan, Jocelyn Benson, criticou as declarações do presidente e afirmou, em nota, que ele “optou por requentar teorias da conspiração há muito desmentidas e sem fundamento”.
Contagem de votos na Califórnia
O presidente também questionou a demora na apuração das eleições para governador da Califórnia e para a prefeitura de Los Angeles, realizadas no mês passado, sugerindo que o ritmo da contagem poderia indicar fraude e levantando dúvidas sobre o sistema de votação pelo correio.
Os resultados oficiais foram certificados na semana anterior, mais de um mês após as eleições primárias.
A apuração na Califórnia costuma levar mais tempo devido ao elevado número de votos enviados pelo correio, modalidade utilizada por cerca de 80% a 90% dos aproximadamente 23 milhões de eleitores do estado.
Embora Trump e aliados tenham relacionado a lentidão da contagem a possíveis irregularidades, nenhuma evidência pública de fraude foi apresentada. O republicano Steve Hilton, apoiado por Trump, terminou a disputa para o governo estadual em segundo lugar e garantiu vaga na eleição geral de novembro.
O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, rebateu as acusações e declarou à NPR que “todas as contagens, recontagens, contagens manuais, processos judiciais e auditorias demonstraram repetidamente — não apenas na Califórnia, mas em todo o país — que não há fraude eleitoral generalizada”.
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