A Bolsa de Valores brasileira continua sendo considerada uma das mais baratas do mundo, segundo analistas do mercado financeiro. No entanto, especialistas afirmam que os preços atrativos das ações, por si só, não são suficientes para impulsionar uma recuperação consistente do mercado. A ausência de uma perspectiva econômica clara segue sendo um dos principais obstáculos para atrair novos investimentos.
Na avaliação da gestora Franklin Templeton, o cenário político contribui para ampliar as incertezas. Isso porque, até o momento, os principais pré-candidatos à Presidência não apresentaram propostas detalhadas sobre temas considerados essenciais, como equilíbrio das contas públicas, aumento da produtividade e estímulos ao crescimento econômico.
Durante encontro com jornalistas realizado na quinta-feira (25), o portfólio manager da Franklin Templeton Brasil, Frederico Sampaio, afirmou que os atuais preços das ações refletem justamente esse ambiente de indefinição.
“Os preços da Bolsa incorporam a continuidade desse cenário. É possível montar diferentes cenários para a economia, mas ainda é difícil atribuir uma probabilidade clara para cada um deles”, afirmou.
Segundo Sampaio, o nível de desconto do mercado brasileiro é tão elevado que a Bolsa nacional passou a negociar com múltiplos inferiores aos da Argentina, considerada a segunda mais barata da América Latina. Enquanto o mercado argentino é negociado a cerca de nove vezes o lucro das empresas, o Ibovespa opera próximo de oito vezes. Para o executivo, a diferença está relacionada à percepção positiva dos investidores em relação às reformas econômicas implementadas pelo governo de Javier Milei.
A falta de previsibilidade também tem impactado a entrada de capital estrangeiro no país. Dados da consultoria Elos Ayta mostram que investidores internacionais retiraram R$ 14,9 bilhões da B3 em maio de 2026, configurando a maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022.
O volume supera o recorde anterior, registrado em agosto de 2023, quando o saldo negativo foi de R$ 13,21 bilhões. Apesar disso, o fluxo acumulado entre janeiro e maio deste ano ainda permanece positivo, totalizando R$ 43,8 bilhões.
Para Sampaio, a movimentação evidencia a dependência do mercado brasileiro em relação ao cenário externo.
“Em pouco mais de um mês, praticamente metade do capital que havia ingressado no mercado saiu novamente. O investidor estrangeiro procura entender qual será o fator capaz de impulsionar o crescimento da economia. Enquanto não houver essa resposta, parte dos recursos continuará sendo direcionada para outros mercados”, explicou.
Com aproximadamente R$ 51 bilhões em ativos sob gestão no Brasil — concentrados principalmente em renda fixa —, a Franklin Templeton tem priorizado investimentos em empresas com geração consistente de caixa e forte capacidade de distribuição de dividendos.
Entre os setores considerados mais atrativos estão energia elétrica, saneamento básico e concessões de infraestrutura, áreas que, segundo a gestora, oferecem maior previsibilidade de resultados e potencial para remunerar os acionistas mesmo em um ambiente de baixa valorização das ações.
Na visão da instituição, uma mudança de percepção do mercado pode ocorrer rapidamente caso surjam sinais concretos de compromisso com a estabilidade econômica e o equilíbrio fiscal.
“Quando as expectativas estão muito baixas, qualquer notícia positiva pode provocar uma reação significativa nos mercados”, destacou Sampaio.
Enquanto aguardam esse cenário, parte dos investidores brasileiros tem ampliado a exposição ao mercado internacional.
Marc Forster, também da Franklin Templeton, afirmou que este é o primeiro ciclo de juros elevados em que o interesse dos brasileiros por aplicações no exterior cresce de forma tão expressiva.
Segundo ele, em ciclos anteriores de alta da taxa de juros predominava a percepção de que os elevados rendimentos oferecidos no mercado doméstico reduziam a necessidade de diversificação internacional. Agora, porém, a combinação entre riscos internos e novas oportunidades no exterior alterou esse comportamento.
“Nos ciclos anteriores, a pergunta era: ‘por que investir fora?’. Desta vez, essa resistência praticamente desapareceu”, afirmou.
De acordo com Daniel Popovich, portfólio manager da Franklin Templeton Investment Solutions, o interesse dos investidores está concentrado principalmente na renda variável internacional, com destaque não apenas para os Estados Unidos, mas também para mercados asiáticos.
Ele explicou que o avanço da inteligência artificial tem impulsionado investimentos na Ásia, região que concentra importantes fabricantes de semicondutores e empresas estratégicas para o desenvolvimento da tecnologia.
“Antes, a busca por investimentos internacionais estava muito concentrada nos Estados Unidos. Hoje existe um movimento crescente de diversificação geográfica, especialmente em direção à Ásia, impulsionado pela demanda por tecnologia e semicondutores”, afirmou.
Popovich também destacou o aumento da procura por hedge funds e outras estratégias alternativas no exterior, que vêm apresentando desempenho superior ao observado por muitos fundos multimercados brasileiros.
“Os hedge funds internacionais voltaram a registrar resultados bastante positivos e despertaram novamente o interesse dos investidores”, concluiu.