A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil informou previamente às autoridades brasileiras que dois representantes do governo norte-americano pretendiam se reunir com o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante uma visita ao país. A viagem, no entanto, não ocorreu após o governo brasileiro negar os vistos solicitados pelos enviados.
Os funcionários públicos americanos Riley Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto da pasta, tiveram os pedidos de entrada recusados pelo Brasil.
Segundo informações apuradas, o governo brasileiro entendeu que a visita poderia reforçar narrativas de contestação ao processo eleitoral brasileiro, motivo pelo qual decidiu não conceder os vistos.
Nos bastidores do governo Lula, a avaliação é de que a negativa faz parte das prerrogativas do Estado brasileiro. Ainda assim, integrantes da administração reconhecem a possibilidade de eventuais medidas de reciprocidade por parte dos Estados Unidos, principalmente relacionadas à emissão de vistos para autoridades brasileiras, embora não esperem impactos imediatos na área comercial.
Samuel Samson foi citado anteriormente pelo jornal norte-americano The New York Times como um dos integrantes do governo Donald Trump ligados à chamada “guerra cultural contra a Europa”.
Além da reunião prevista com Flávio Bolsonaro, os representantes americanos também solicitaram encontros com autoridades brasileiras durante a visita.
De forma reservada, integrantes do governo afirmam que não receberam garantias de que a agenda dos enviados não teria caráter político, fator que, aliado ao perfil ideológico dos integrantes da comitiva, contribuiu para a decisão de negar os vistos.
De acordo com a apuração, os pedidos foram apresentados em 20 de julho por meio do Consulado-Geral do Brasil em Washington e encaminhados ao Itamaraty por nota verbal, instrumento utilizado para comunicações diplomáticas formais entre o Ministério das Relações Exteriores e representações diplomáticas brasileiras.
Pessoas familiarizadas com o assunto afirmam que também chamou a atenção o momento escolhido para a viagem. A visita ocorreria pouco depois de Flávio Bolsonaro participar de um encontro com diplomatas, ocasião em que voltou a fazer críticas ao sistema de urnas eletrônicas brasileiro.
No governo federal, há a percepção de que a condução das relações entre Brasil e Estados Unidos tem sido influenciada por integrantes da Secretaria de Estado americana ligados ao secretário Marco Rubio.
Segundo integrantes da gestão Lula, os dois aumentos tarifários aplicados recentemente pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros — de 25% e 12,5% — reforçaram essa avaliação, apesar de os EUA manterem superávit na balança comercial com o Brasil.
Outra manifestação que chamou a atenção do governo brasileiro foi a declaração de Marco Rubio, em 16 de julho, quando atribuiu ao “ego de Lula” o anúncio da tarifa de 25%. Para integrantes do governo, a fala evidenciaria uma tentativa de influência sobre o cenário político brasileiro.
Até o momento, o governo brasileiro informa que não recebeu novos pedidos de visto de autoridades norte-americanas. Embora Riley Barnes e Samuel Samson possam apresentar uma nova solicitação, isso ainda não ocorreu.
Procurada, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil afirmou que não comenta reuniões privadas.
