Registros policiais e investigações recentes voltaram a colocar em discussão o uso indevido de recursos do Bolsa Família por beneficiários envolvidos com o consumo de drogas ou explorados por organizações criminosas. O tema ganhou repercussão após uma audiência realizada na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, em 9 de junho.
Durante o encontro, o deputado Kim Kataguiri apresentou relatos de que traficantes estariam retendo cartões do Bolsa Família de pessoas em situação de rua como forma de pagamento por entorpecentes. O vereador de Joinville, Mateus Batista, afirmou que ouviu denúncias semelhantes em diferentes cidades brasileiras.
A discussão ganhou força depois que o governo federal incluiu, em 2025, pessoas em situação de rua entre os grupos prioritários para ingresso no programa. Dados do Cadastro Único mostram que o número de pessoas nessa condição cadastradas passou de 198,7 mil, em dezembro de 2022, para 392,4 mil em junho de 2026.
Casos registrados por autoridades em diferentes estados reforçaram o debate. Em Caçador (SC), a Polícia Militar apreendeu um cartão do Bolsa Família junto com drogas. Em Birigui (SP), policiais encontraram diversos cartões de beneficiários durante uma operação contra o tráfico. Já em São José do Rio Preto (SP), a Operação Bolsa Crack, conduzida pelo Ministério Público, investigou um esquema em que traficantes mantinham cartões de usuários de drogas como garantia de pagamento.
Outro episódio ocorreu em Remígio (PB), onde um conflito envolvendo a posse de um cartão do Bolsa Família terminou com a morte de uma idosa e de seu neto, segundo informações divulgadas pela imprensa.
Diante desses casos, Kim Kataguiri defendeu mudanças nas regras do programa, propondo que beneficiários em situação de dependência química sejam acompanhados periodicamente por centros de assistência social e encaminhados para tratamento quando necessário.
Por outro lado, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome afirma que não há evidências de que o Bolsa Família incentive o tráfico de drogas. Em material divulgado para combater desinformação, a pasta cita um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz em parceria com a Universidade Harvard, segundo o qual beneficiários do programa apresentaram menor risco de internações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.
O ministério também argumenta que a dependência química deve ser enfrentada por políticas públicas de saúde e assistência social, e não por meio da exclusão automática de beneficiários do programa.
Atualmente, não existe um levantamento nacional que indique quanto dos recursos do Bolsa Família é efetivamente desviado para a compra de drogas ou apropriado por organizações criminosas. No entanto, investigações também apuram o uso de contas de beneficiários em esquemas de lavagem de dinheiro. Em um dos casos, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontaram que uma beneficiária de programas sociais teria movimentado cerca de R$ 3,3 milhões em contas bancárias, supostamente utilizada como “laranja” por integrantes do crime organizado.