Erguida sobre um maciço de quartzito no sul de Minas Gerais, São Thomé das Letras tem ruas, casas e igrejas feitas da mesma rocha branca da montanha. A cidade da pedra reúne lendas de portais, inscrições rupestres milenares e cachoeiras escondidas na Serra da Mantiqueira.
Por que a cidade ficou famosa pelo misticismo?
A fama começou na própria origem do município. No fim do século 18, o escravizado João Antão teria se refugiado em uma gruta no alto da serra, onde um homem de vestes brancas lhe entregou uma carta de alforria endereçada ao seu senhor, o capitão Francisco Junqueira. Como Antão era analfabeto e a caligrafia era impecável, a história virou milagre.
No lugar do encontro, foi erguida em 1785 a Igreja Matriz, com pinturas rococó do artista colonial Joaquim José da Natividade. Séculos depois, a cidade ganhou outra camada de mística ao ser apontada por correntes esotéricas como um dos sete pontos energéticos do planeta.
O que visitar na cidade das pedras?
As atrações se dividem entre o centro histórico tombado e o entorno de mata e quartzito. Algumas ficam a poucos minutos a pé, outras exigem trilha ou carro.
- Gruta de São Thomé: caverna no centro onde nasceu a lenda fundadora, com inscrições rupestres atribuídas aos índios Cataguases. Visita gratuita e rápida.
- Casa da Pirâmide: mirante no Parque Municipal Antônio Rosa com vista de 360 graus do vale, ponto preferido para o pôr do sol.
- Pedra da Bruxa: formação rochosa que lembra a silhueta de uma bruxa, vizinha ao mirante principal.
- Ladeira do Amendoim: trecho onde carros em ponto morto parecem subir o aclive, fenômeno ainda sem explicação consensual.
- Gruta do Carimbado: estrela das lendas locais, apontada como suposta entrada para um túnel até Machu Picchu. Fechada à visitação desde 2012 por razões ambientais.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário: a Igreja de Pedra, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) em 1985, foi construída com blocos de quartzito encaixados sem argamassa.
Quais cachoeiras valem o desvio na serra?
O município tem mais de uma dezena de quedas, distribuídas em vales próximos ao distrito de Sobradinho. As mais procuradas combinam acesso fácil e poços para banho.
- Cachoeira da Eubiose: trilha curta e poço gelado, opção certeira em dias quentes.
- Cachoeira Véu da Noiva: queda alta e fina em meio à mata, com piscina natural na base.
- Vale das Borboletas: sequência de quedas pequenas em corredeira, ideal para passar o dia.
- Cachoeira de Shangri-Lá: a 18 km do centro, forma corredeiras sobre pedras avermelhadas, tida por muitos como o ponto mais energético.
- Cachoeira da Lua: na estrada para Sobradinho, conhecida pelo salto de corda preso às árvores.
Roteiro de fim de semana para aproveitar tudo
Dois dias dão conta dos principais pontos, mas três permitem cachoeiras mais distantes. O ideal é alternar centro histórico e natureza.
No primeiro dia, caminhe pelo centro tombado, conheça a Gruta de São Thomé e termine a tarde na Casa da Pirâmide para o pôr do sol. No segundo, reserve a manhã para a Cachoeira da Eubiose ou Véu da Noiva e a noite para o céu estrelado da Pedra da Bruxa. Sobrando tempo, vá até Shangri-Lá com um guia local.
Quando ir e o que esperar do clima?
A altitude faz a cidade ter inverno seco e fresco e verão chuvoso. Julho a setembro é a melhor janela para trilhas e céu limpo.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade no topo da serra?
A cidade fica a 311 km de Belo Horizonte e a 350 km de São Paulo. O acesso principal vem pela MG-167, após o município de Três Corações, e a entrada na serra é feita por estrada sinuosa entre pedreiras. Há linhas regulares de ônibus saindo das principais capitais do Sudeste e a cidade integra o roteiro da Estrada Real.
Vale subir a serra para conhecer
Poucos lugares no Brasil reúnem tanto patrimônio histórico, paisagem de altitude e lenda em tão pouco espaço. São Thomé das Letras é a rara cidade onde o quartzito é matéria-prima de tudo, das calçadas às histórias contadas no fim da tarde.
Você precisa subir a serra e passar uma noite em São Thomé para entender por que tanta gente acredita que algo diferente acontece ali no alto.
