A 250 km de Porto Alegre, na região da Costa Doce, uma cidade de 350 mil habitantes guarda o maior conjunto de casarões tombados do Rio Grande do Sul, uma tradição doceira reconhecida como patrimônio imaterial pelo IPHAN e fazendas de charque que contam a história do Brasil do sal ao açúcar. Pelotas, a Princesa do Sul, foi a capital econômica do estado no século XIX e até hoje preserva a riqueza de uma época em que o charque financiou palácios, teatros e uma doçaria que virou patrimônio nacional.
Do cearense que trouxe o charque às 28 etnias que formaram a cidade
A história de Pelotas começa com o cearense José Pinto Martins, que em 1780 instalou às margens do Arroio Pelotas a primeira charqueada com produção industrial da região. O nome da cidade vem das embarcações de couro usadas pelos antigos charqueadores para cruzar o arroio. Fundada oficialmente em 1835, Pelotas cresceu com a carne salgada e seca ao sol, que alimentava o Nordeste e gerava uma riqueza sem precedentes no Sul.
No auge, mais de 50 charqueadas operavam na cidade, sustentadas por mão de obra escrava e por 28 etnias que se misturaram na formação do município, a maioria de origem africana. A elite charqueadora importou materiais europeus e contratou arquitetos estrangeiros. O resultado é um patrimônio eclético que não se repete em nenhuma outra cidade gaúcha. Em maio de 2018, o IPHAN concedeu a Pelotas o selo de Patrimônio Cultural Brasileiro ao tombar o conjunto histórico e registrar as tradições doceiras da região.
A charqueada onde orixás se escondem sob um santo católico
A Rota das Charqueadas fica a dez minutos do centro. Das mais de 50 que existiam, quatro tiveram sua área preservada e podem ser visitadas: Boa Vista, São João, Santa Rita e Costa do Abolengo. A Charqueada São João, construída em 1810, é reconhecida como Patrimônio Nacional pelo IPHAN e mantém as características arquitetônicas originais.
Dentro das charqueadas, os detalhes revelam uma época de contrastes. Uma curiosidade marcante: quanto menor o vidro da janela, maior a fortuna da família. Em um dos casarões, uma gruta dedicada a São João Batista, construída por escravos, esconde sob as conchas figuras de orixás. Para quem passava, os escravos rezavam para o santo católico. Na verdade, rezavam para os próprios deuses. As charqueadas foram cenário da minissérie A Casa das Sete Mulheres e do filme O Tempo e o Vento.
Pelotas é um destino que une perfeitamente a elegância histórica à tradição doceira gaúcha. O vídeo é do canal Diogo Elzinga, que possui mais de 1 milhão de inscritos, e explora o Mercado Central, as famosas Charqueadas e a Praia do Laranjal:
Mais de 200 doces e receitas que vieram de um convento
Os navios que saíam de Pelotas carregados de charque para o Nordeste voltavam repletos de açúcar. A abundância de açúcar e a influência das receitas portuguesas trazidas pelas freiras do Convento de São Francisco de Paula deram origem a uma tradição doceira que hoje soma mais de 200 variedades. Quindim, camafeu, ninho, bem-casado e pão de ló são alguns dos clássicos, muitos com certificação de autenticidade.
A tradição doceira foi reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Imaterial do Brasil. A Fenadoce (Festa Nacional do Doce), realizada entre maio e junho, é o maior evento gastronômico da região e atrai milhares de visitantes. O Museu do Doce, instalado no casarão construído em 1878 pelo Conselheiro Francisco Antunes Maciel, fica na Praça Coronel Pedro Osório e conta essa trajetória do sal ao açúcar.
O que visitar no centro histórico da Princesa do Sul?
Todo o roteiro pode ser feito a pé a partir da Praça Coronel Pedro Osório, cercada por casarões ecléticos e palacetes.
- Theatro Sete de Abril: inaugurado em 1831, é um dos teatros mais antigos do Brasil em funcionamento. Arquitetura neoclássica e programação cultural ativa.
- Praça Coronel Pedro Osório: coração histórico com jardins franceses, o Grande Hotel e vista para os principais casarões.
- Mercado Central: construído em 1846, abriga restaurantes, bares, produtos coloniais e o Mercado de Pulgas, feira de antiguidades inspirada nas de Montevidéu.
- Museu da Baronesa: no Parque da Baronesa, a 3 km do centro. Acervo com mobiliário, objetos pessoais e fotografias da aristocracia pelotense do século XIX.
- Bibliotheca Pública Pelotense: fundada em 1875, mantém acervo raro de livros e documentos em prédio imponente.
- Praia do Laranjal: a 12 km do centro, às margens da Laguna dos Patos. Chamada de “Mar de Dentro”, com trapiche que é cartão-postal da cidade.
Quando ir a Pelotas e como é o clima?
O clima é subtropical úmido, com verões agradáveis e invernos frios. A Fenadoce (maio-junho) é o período de maior movimento turístico. O Governo do Estado do Rio Grande do Sul destaca Pelotas como um dos municípios mais representativos da Costa Doce.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Capital Nacional do Doce
Pelotas fica a 250 km de Porto Alegre pela BR-116 e BR-392, cerca de 3 horas de carro. O Aeroporto de Pelotas opera voos regionais. O aeroporto mais próximo com voos nacionais é o Salgado Filho, em Porto Alegre. Rio Grande fica a 60 km e Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, a 130 km. Ônibus partem de Porto Alegre com frequência diária.
Prove o doce que nasceu do sal
Pelotas é a cidade que enriqueceu com carne salgada ao sol, transformou o açúcar que voltava do Nordeste em mais de 200 tipos de doce, ergueu palácios com material importado da Europa e guardou nos casarões das charqueadas os segredos de escravos que rezavam para orixás disfarçados de santos. O IPHAN reconheceu tudo isso em 2018, do conjunto histórico às receitas de quindim.
Você precisa provar um camafeu na Praça Coronel Pedro Osório, visitar a charqueada onde o sino avisava da chuva e entender por que uma cidade do extremo sul do Brasil é chamada de Capital Nacional do Doce.