Cinquenta e quatro km de estrada de barro mantiveram Itacaré fora do mapa turístico por décadas. A Mata Atlântica fechava o acesso, o cacau sustentava a economia e as praias ficavam para os pescadores e surfistas que já conheciam o segredo. Hoje, a cidade no litoral sul da Bahia é um dos destinos de ecoturismo mais completos do país, mas várias praias ainda só se alcançam a pé.
Uma aldeia Pataxó que virou porto do cacau
A história de Itacaré começou em uma aldeia de índios Pataxós, onde o padre jesuíta Luís de Grã construiu uma capela dedicada a São Miguel no início do século XVIII. O povoado foi batizado como São Miguel da Barra do Rio de Contas e elevado a município em 1732. Um detalhe curioso: os jesuítas construíram um túnel ligando o altar da Igreja de São Miguel à Casa dos Jesuítas para facilitar a fuga durante ataques indígenas. A igreja e a Casa dos Jesuítas, com quase 300 anos, são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Ambiental e Cultural da Bahia (IPAC).
O nome Itacaré tem origem incerta. Para alguns, significa “pedra redonda”; para outros, “pedra bonita”. O que não resta dúvida é que o cacau definiu o ritmo da cidade por mais de um século, até que a crise da lavoura e a construção da BA-001 redirecionaram a economia para o turismo. Em 1993, o governo estadual criou a APA Itacaré/Serra Grande, oficializando a vocação para o ecoturismo.
Quais praias valem a trilha pela mata?
Itacaré concentra praias urbanas de fácil acesso e praias selvagens que exigem caminhada pela Mata Atlântica. A plataforma continental estreita, com apenas 8 milhas na região, garante ondas consistentes o ano inteiro.
- Praia da Tiririca: a mais conhecida para surf, com ondas fortes e campeonatos nacionais. Acesso fácil a partir do centro.
- Prainha: enseada simétrica entre dois morros verdes, acessível por trilha de 40 minutos a partir da Praia da Ribeira, cruzando mata e cachoeiras. Já foi eleita uma das praias mais bonitas do Brasil.
- Jeribucaçu: areia branca, encontro de rio com mar e coqueirais ao fundo. A trilha de 2 km começa após 4 km de estrada de terra. No caminho, uma segunda trilha leva à Cachoeira da Usina.
- Havaizinho: acesso restrito por trilha que garante tranquilidade mesmo na alta temporada.
- Engenhoca: conjunto de três pequenas praias com ondas fortes e recifes, procurada por surfistas experientes.
- Praia da Concha: a mais calma, ideal para famílias e stand-up paddle, com vista para o Mirante da Concha.
O vídeo é do canal Partiu de Férias, que apresenta destinos paradisíacos com autoridade, e detalha tanto as praias urbanas acessíveis pelo centro quanto as rurais escondidas na estrada BA-001:
Cachoeiras e rios dentro da mata
O relevo acidentado e a cobertura vegetal preservada formam dezenas de quedas d’água acessíveis por trilha ou barco. A Cachoeira do Cleandro é visitada em passeio de barco ou caiaque pelo Rio de Contas, cruzando manguezais. A Cachoeira da Usina pode ser alcançada em 15 minutos a partir da BA-001 ou por trilha mais longa via Jeribucaçu.
Para quem busca adrenalina, o Rio de Contas oferece rafting com duas horas de corredeiras. Também há arvorismo, rapel e tirolesa em áreas licenciadas dentro da APA. A região abriga comunidades ribeirinhas e quilombolas que mantêm modos de vida tradicionais, e tours culturais incluem oficinas de culinária baiana e visitas a essas comunidades.
Do cacau ao chocolate: a rota que conta a história da região
Antigas fazendas de cacau abriram as portas para o turismo de experiência. Na Fazenda Vila Rosa, em Taboquinhas, o visitante acompanha o processo do cacau ao chocolate artesanal, com degustação no final. A gastronomia de Itacaré mistura tempero baiano com frutos do mar frescos e ingredientes do cacau.
- Moqueca de peixe: servida em panela de barro com dendê, leite de coco e pimenta.
- Acarajé: vendido nas barracas da Rua da Pituba, coração gastronômico e noturno da cidade.
- Chocolate artesanal: tabletes e bombons produzidos com cacau da região, encontrados em lojinhas do centro.
- Tapioca: recheios que vão do queijo coalho com carne de sol ao doce com coco.
- Peixe assado na brasa: servido nas barracas rústicas de Jeribucaçu e Prainha.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
Itacaré tem clima tropical com chuvas distribuídas ao longo do ano. O período mais seco, de setembro a março, favorece trilhas e banhos de cachoeira. O inverno traz as maiores ondas para o surf.
Temperaturas aproximadas. Consulte a previsão atualizada no Climatempo.
Como chegar ao paraíso da Costa do Cacau?
Itacaré fica a 75 km de Ilhéus e a 270 km de Salvador pela BA-001, a estrada que percorre o litoral baiano. O Aeroporto de Ilhéus (IOS) é o mais próximo. De Salvador, o trajeto via balsa de Itaparica reduz a distância. Dentro da cidade, muitas praias exigem veículo 4×4, buggy ou caminhada. Itacaré também integra a Costa do Cacau e serve como ponto de partida para passeios à Península de Maraú, Morro de São Paulo e Ilha de Boipeba.
Tire o chinelo e entre na trilha
Itacaré é rara entre os destinos brasileiros porque a mata que escondeu suas praias por décadas ainda está ali, viva, cobrindo os morros e protegendo cada enseada. É o tipo de lugar onde a caminhada até a praia faz parte da experiência, e o peixe assado na brasa espera quem chega com areia nos pés.
Você precisa calçar o chinelo, cruzar a trilha da Prainha e entender por que quem conhece Itacaré sempre encontra um motivo para voltar.