Areia branca, água entre azul-turquesa e verde-esmeralda, nenhuma onda. Poderia ser o Caribe de água doce, mas é um rio. Alter do Chão fica às margens do Tapajós, a 37 km de Santarém, no oeste do Pará, e prova que a Amazônia também tem praia.
A vila fundada em 1626 que o mundo conheceu em 2009
A história começa antes da areia branca. Em 1626, o explorador português Pedro Teixeira fundou a Missão de Nossa Senhora da Purificação no território dos Borari, povo indígena cujas tradições ainda marcam a cultura local. A vila ganhou nome em referência a uma localidade portuguesa homônima e foi elevada à categoria de vila em 1758.
O reconhecimento internacional veio quando o jornal britânico The Guardian elegeu Alter do Chão como a praia de água doce mais bonita do mundo, em 2009. Em 2022, a Lei Estadual nº 9.543 reconheceu a vila como patrimônio cultural material e imaterial do Estado do Pará.
Por que a água do Tapajós parece Caribe?
O Rio Tapajós é um dos poucos da Amazônia com águas claras. A ausência de sedimentos permite enxergar o fundo, mergulhar sem turbidez e tomar banho em temperatura morna o ano inteiro. As águas ácidas do rio ainda inibem a proliferação de mosquitos, um bônus inesperado no coração da floresta.
O verdadeiro espetáculo, porém, está no ciclo das águas. Entre agosto e dezembro, o nível do rio baixa e revela extensas faixas de areia branca que formam praias em plena selva. De janeiro a julho, as chuvas sobem o rio metros acima, cobrindo as praias e criando a Floresta Encantada, onde é possível navegar de canoa entre copas de árvores submersas.
O que visitar entre ilhas de areia e floresta alagada?
Quatro a cinco dias são ideais para cobrir os principais roteiros. A paisagem muda completamente conforme a época.
- Ilha do Amor: banco de areia que surge em frente à vila quando o rio baixa. Acessível por barco a remo ou a pé na seca. Quiosques servem peixe fresco com vista para o Tapajós.
- Ponta do Cururu: faixa de areia que avança quase 2 km rio adentro. Um dos melhores pontos para o pôr do sol. Acessível por lancha ou caminhada de 50 minutos.
- Floresta Nacional do Tapajós (Flona): trilhas por selva primária com sumaúmas centenárias e visita a comunidades ribeirinhas que produzem farinha de mandioca artesanal. Abriga torres climáticas criadas em parceria com a NASA nos anos 1990.
- Canal do Jari: braço do Rio Amazonas onde se avistam preguiças, macacos e vitórias-régias em habitat natural.
- Serra da Piroca: trilha leve de 2 km com mirante panorâmico de Alter do Chão, Ilha do Amor e do Tapajós. Ideal para o fim de tarde.
Apelidada de “Caribe Amazônico”, Alter do Chão encanta com suas praias de águas cristalinas, rica cultura paraense e o místico pôr do sol sobre o Rio Tapajós. O vídeo é do canal Trip Partiu, com quase 400 mil inscritos, e apresenta um guia completo de passeios pela região, como a Floresta Encantada, o Canal do Jari e a mítica Ilha do Amor:
A Festa do Çairé e o duelo dos botos
A Festa do Çairé é uma das manifestações folclóricas mais antigas do norte do Brasil. Acontece na primeira quinzena de setembro e mistura rituais católicos com tradições indígenas Borari. O ponto alto é a disputa entre os botos cor-de-rosa e tucuxi, que divide a vila em duas torcidas. Nas noites de fim de semana, o carimbó, dança típica do Pará, toma conta da praça principal, ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Saúde.
Tacacá na cuia e tambaqui na brasa
A gastronomia é amazônica, feita com ingredientes da floresta e do rio.
- Tacacá: servido quente na cuia, com tucupi, goma de mandioca, jambu (que adormece a língua) e camarão seco.
- Tambaqui assado: peixe de rio preparado na brasa e servido com farinha d’água nos restaurantes à beira do Tapajós.
- Açaí grosso: consumido com farinha de tapioca ou peixe frito, no estilo paraense.
- Aviú: considerado o menor camarão do mundo (cerca de 1 cm), reproduz-se no encontro dos rios Tapajós e Amazonas. Aparece em caldos e farofas.
Quando a paisagem muda de praia para floresta alagada?
Alter do Chão tem calor o ano inteiro. A diferença está no nível do rio, que define dois cenários completamente distintos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo (Santarém). Condições podem variar. Setembro é o mês com menor incidência de chuvas e maior faixa de areia.
Como chegar ao Caribe Amazônico?
O Aeroporto de Santarém (STM) recebe voos diários com conexão em Belém, Brasília ou Manaus. De Santarém a Alter do Chão são 37 km pela PA-457, cerca de 40 minutos de carro. Há transfers, táxis e vans regulares. Quem vem de barco pelo Amazonas pode desembarcar em Santarém após viagem de cerca de 2 dias a partir de Manaus ou Belém.
Onde o rio vira Caribe e a floresta vira catedral
Alter do Chão é desses lugares que mudam conforme a estação, mas nunca decepcionam. Na seca, a Ilha do Amor surge como um cenário improvável de areia branca em plena Amazônia. Na cheia, a floresta se abre para canoas que navegam entre copas de árvores. A vila de 6 mil habitantes preserva o carimbó nas noites de praça, o tacacá na cuia e a certeza de que o Tapajós é, sim, um dos rios mais bonitos do planeta.
Você precisa pisar na areia da Ilha do Amor, olhar a água cristalina cercada de floresta tropical e entender por que esse pedaço do Pará faz qualquer relógio perder o sentido.