O que se vê acima da água em Fernando de Noronha é apenas a ponta de uma montanha vulcânica com base a 4 mil metros de profundidade. O arquipélago de ilhas vulcânicas mais desejado do Brasil começou como magma, virou ilha, recebeu Darwin, serviu de presídio e hoje é Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO.
Um vulcão que virou paraíso: a origem do arquipélago
Há cerca de 12 milhões de anos, magma extravasou por fraturas profundas no assoalho do Oceano Atlântico Sul, gerando uma cadeia de montanhas submarinas. O arquipélago de Fernando de Noronha é a porção emersa dessa cadeia já extinta, resultado de dois grandes episódios eruptivos separados por um período de erosão. O ponto mais alto é o Morro do Pico, com 321 metros, uma chaminé vulcânica que domina a paisagem da ilha principal.
Só na ilha principal são encontrados 36 tipos de rochas de origem vulcânica. Essa diversidade geológica sustenta um ecossistema único, que levou a UNESCO a reconhecer o arquipélago, junto ao Atol das Rocas, como Sítio do Patrimônio Natural da Humanidade em 2001. O motivo: suas águas são área de alimentação essencial para atum, tartarugas, tubarões, cetáceos e aves, além de abrigar a maior concentração de golfinhos rotadores residentes do planeta.
Presos políticos, Darwin e a Segunda Guerra: uma história intensa
Descoberto em 1503 por Américo Vespúcio durante expedição ao Brasil, o arquipélago foi doado ao fidalgo português Fernão de Loronha, tornando-se a primeira Capitania Hereditária do país. Ingleses, franceses e holandeses disputaram a ilha ao longo dos séculos XVI e XVIII. A partir de 1737, Pernambuco retomou o controle e instalou um sistema de dez fortes para defender o território.
Em 1832, o naturalista Charles Darwin passou pelo arquipélago a bordo do HMS Beagle e anotou em seu diário admiração pela floresta densa e pelo vulcanismo das rochas. Em 1938, o governo federal instalou um presídio político. Capoeiristas, farroupilhas e opositores do regime vieram parar ali. Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942, o arquipélago se tornou Território Federal e base estratégica da Marinha americana no Atlântico Sul. Só em 1988 a ilha voltou a Pernambuco como Distrito Estadual, e o Parque Nacional Marinho foi criado no mesmo ano.
Fernando de Noronha é o destino dos sonhos de muitos brasileiros, um santuário marinho com águas tão transparentes que permitem avistar tubarões, tartarugas e arraias a todo momento. O vídeo é do canal Mentes Flutuantes, que conta com mais de 70 mil inscritos, e apresenta um guia completo de 4 dias na ilha, detalhando roteiros, custos e as praias mais cinematográficas do arquipélago:
O que fazer nas praias e no mar de Noronha?
O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, administrado pelo ICMBio, cobre 70% do arquipélago. O ingresso é válido por 10 dias e dá acesso às principais praias e pontos de mergulho. Algumas trilhas exigem agendamento prévio, com vagas limitadas pelo estudo de capacidade de suporte.
- Baía do Sancho: eleita sete vezes a mais bela praia do mundo pelo Travelers’ Choice do TripAdvisor. O acesso se faz por uma escadaria cravada numa fenda das falésias ou por barco. Mergulho livre com colete obrigatório na área controlada pelo ICMBio.
- Baía dos Golfinhos: santuário onde centenas de golfinhos rotadores se reúnem diariamente para descansar. Não é permitido descer à praia nem entrar na água: o atrativo é o mirante, especialmente ao amanhecer, quando os grupos são maiores.
- Baía dos Porcos: pequena faixa de areia entre rochas vulcânicas com água cor de esmeralda e vista direta para o Morro Dois Irmãos, cartão-postal do arquipélago. Raias e tartarugas são avistadas com frequência.
- Baía do Sueste: piscina natural onde tartarugas marinhas vêm se alimentar no mangue. Visitantes entram na água com colete flutuador, sem tocar o fundo. Encontro quase garantido com as tartarugas dóceis.
- Praia do Atalaia: piscinas naturais rasas com visibilidade excepcionais. Acesso apenas por trilha com agendamento obrigatório e número diário limitado de visitantes. Tubarões-lixa, polvos e moreias aparecem nas poças de maré.
- Caverna da Sapata: um dos pontos de mergulho mais técnicos do arquipélago, a cerca de 20 metros de profundidade. A visibilidade na água pode chegar a 50 metros, impulsionada pela Corrente Sul Equatorial, que traz água quente da África.
Gastronomia do Atlântico: o que comer em Noronha
A cozinha noronhense é definida pelo mar. O peixe chega fresco do dia e os cardápios mudam conforme a pesca. Restaurantes com mesas ao ar livre e vista para o Atlântico são a norma na Vila dos Remédios e na orla.
- Peixe grelhado com molho de maracujá: prato símbolo da ilha, servido em quase todos os restaurantes, com peixes capturados localmente.
- Tubalhau: bolinho de tubarão, iguaria local que virou marca registrada noronhense, servido como petisco.
- Lagosta na manteiga ou no coco: disponível conforme a temporada de pesca, preparada de formas variadas pelos chefs da ilha.
- Sardinha da ilha em conserva: usada apenas pelos pescadores locais para isca, foi incorporada ao cardápio do restaurante Benedita Cozinha, liderado pelo chef Dário Costa, em conserva artesanal sobre focaccia.
- Sorvete de frutas tropicais: sabores de pitanga, cajá e graviola refrescam as tardes quentes nos quiosques da Vila dos Remédios.
Quando ir a Fernando de Noronha e como é o clima?
O arquipélago tem clima tropical oceânico quase estável ao longo do ano, com temperaturas entre 25°C e 32°C. As duas estações definem o tipo de experiência possível em cada período.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Na estação chuvosa, trilhas ficam enlameadas e exigem chegada com antecedência aos PICs.
Como chegar ao arquipélago de Pernambuco?
Fernando de Noronha fica a 545 km de Recife e a 350 km do Rio Grande do Norte, com acesso exclusivo por via aérea. Voos partem de Recife e Natal, com duração de cerca de 1h30. Ao desembarcar, é cobrada a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), calculada por diária de permanência. O ingresso do Parque Nacional Marinho, adquirido no ICMBio ou online, é separado e válido por 10 dias.
Noronha: onde cada mergulho revela um mundo novo
Fernando de Noronha é um dos raros destinos onde a paisagem acima e abaixo da água concorrem em beleza. Vulcão adormecido, presídio, base militar e santuário ecológico: poucas ilhas no mundo acumulam camadas tão distintas de história e natureza em apenas 26 km².
Você precisa conhecer Noronha pelo menos uma vez, preferentemente fora da alta temporada, quando o mar fica para você e os golfinhos, sem pressa.