A sanfona ressoa nas calçadas, o cheiro de milho assado invade o ar e a neblina desce sobre o Planalto da Borborema ao cair da noite. Campina Grande, no agreste da Paraíba, é a “Liverpool Brasileira” que trocou o título de segunda maior exportadora de algodão do mundo por uma festa junina de 30 dias que atrai milhões de visitantes.
De onde vem o apelido de Liverpool Brasileira?
Do algodão. Na primeira metade do século XX, a matéria-prima chegava de municípios vizinhos, era beneficiada na única máquina do interior do país e seguia de trem até o porto de Recife. Na década de 1940, o volume exportado só perdia para Liverpool, na Inglaterra. A fibra fez a população saltar de 20 mil para 130 mil habitantes em pouco mais de três décadas.
O ciclo do algodão branco passou, mas a fibra segue na identidade campinense. A Embrapa Algodão, sediada na cidade, desenvolveu variedades naturalmente coloridas, nas tonalidades marrom, verde e avermelhado. O produto dispensa tingimento químico e já foi apresentado em desfiles de moda em Milão. Peças feitas com a fibra são vendidas na Vila do Artesão, complexo com cerca de 70 lojas dedicadas ao artesanato paraibano.
O que visitar ao redor do Açude Velho?
O Açude Velho, espelho d’água de 47 mil m² construído em 1830, é o cartão-postal da cidade. Em suas margens ficam museus, monumentos, bares e restaurantes. Boa parte do roteiro se faz a pé.
- Museu de Arte Popular da Paraíba: projetado por Oscar Niemeyer, tem três blocos circulares que lhe renderam o apelido de Museu dos Três Pandeiros. Foi considerado a última grande obra do arquiteto.
- Monumento Farra da Bodega: estátuas de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro frente a frente, separados por uma mesa em formato de pandeiro. Um dos registros fotográficos mais populares da cidade.
- Museu do Algodão: funciona na antiga estação ferroviária e conta a saga do ouro branco com maquinário original, fotografias e peças em algodão colorido. Entrada gratuita.
- Feira Central: cerca de 75 mil m² de ervas, carnes, queijos, rapadura, artesanato e cordel. Reconhecida em 2017 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
- Parque da Criança: área verde com pistas de caminhada, quadras esportivas e playground, ao lado do Açude Velho. Entrada gratuita.
A tecnologia e a cultura nordestina se encontram em um polo de inovação e tradição. O vídeo é do canal DEVA NO AR, referência com mais de 190 mil inscritos, e apresenta o Açude Velho, museus e o Parque do Povo:
Como funciona o maior São João do mundo?
Criado em 1983, o Maior São João do Mundo ocupa o Parque do Povo por mais de 30 dias entre junho e julho. São shows diários, quadrilhas, ilhas de forró e comidas típicas espalhadas por 42 mil m². Em 2025, a festa recebeu mais de 3 milhões de visitantes e bateu dois recordes certificados pela Rank Brasil: o maior quadrilhão junino do mundo, com 1.303 pares dançando ao mesmo tempo, e o maior bolo de milho do planeta, com 49 metros de comprimento e 692 kg.
O ponto alto das noites é o palco principal, que já recebeu nomes como Elba Ramalho, presente em todas as edições da festa desde a estreia. Fora de junho, Campina Grande mantém agenda cultural ativa com eventos como o Festival de Inverno e o MotoFest.
Qual o sabor do agreste paraibano?
A cozinha campinense carrega tempero sertanejo e ingredientes fartos. Boa parte dos pratos pode ser encontrada na própria Feira Central, onde barracas servem café da manhã e almoço a preço acessível.
- Carne de sol com macaxeira: servida frita ou na brasa, com queijo coalho, feijão verde e manteiga da terra. Presente em praticamente todo restaurante regional.
- Bode assado no Bodódromo: acompanhado de rubacão (baião de dois), farofa e vinagrete. A buchada e o picado de bode também são muito procurados.
- Cuscuz com ovo e nata: café da manhã campinense por excelência. O Bar do Cuscuz é parada obrigatória.
- Queijo de coalho com rapadura: a combinação clássica do agreste, vendida em cada esquina da Feira Central.
Quando o clima favorece a visita à Rainha da Borborema?
A altitude de 551 metros garante noites mais frescas do que as do litoral paraibano. O período seco, de setembro a dezembro, é ideal para passeios ao ar livre. Junho é o mês mais disputado por causa do São João.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à capital do forró?
Campina Grande fica a 128 km de João Pessoa pela BR-230, cerca de 1h40 de carro. De Recife, são 200 km pela BR-104. O Aeroporto Presidente João Suassuna, a 7 km do centro, recebe voos de capitais brasileiras e funciona como hub regional da Azul. Ônibus interestaduais partem diariamente da rodoviária para as principais capitais do Nordeste.
Suba a serra e sinta o forró na pele
Campina Grande mistura a memória do algodão que vestiu o mundo, uma feira que é patrimônio nacional e um São João que transforma a cidade inteira em arraial a céu aberto. O agreste paraibano guarda no topo da Borborema uma energia que só quem sobe a serra consegue sentir.
Você precisa calçar um sapato confortável, atravessar a Feira Central antes do almoço e deixar a sanfona do Parque do Povo cuidar do resto.