A perda da patente internacional da polilaminina reacendeu o debate sobre como cortes de verbas em universidades federais impactam a inovação científica no Brasil. O caso, envolvendo uma substância com potencial para recuperação de movimentos em pessoas com lesão medular, expõe fragilidades na proteção de tecnologias estratégicas.
O que é a polilaminina e como sua patente internacional foi perdida?
A polilaminina é uma substância derivada da laminina, proteína presente em diversos tecidos humanos, extraída da placenta e aplicada na reorganização da matriz extracelular em áreas de lesão medular. A proposta terapêutica é reduzir barreiras físicas e facilitar a reconexão de fibras nervosas, etapa essencial para recuperação de movimentos. As informações são do portal Folha Vitória.
No campo farmacêutico, a patente garante exclusividade de exploração por cerca de 20 anos, contados a partir do pedido; no caso da polilaminina, a UFRJ solicitou a patente nacional em 2007, mas a concessão só foi oficializada em 2025, encurtando significativamente o tempo útil de proteção. Paralelamente, pedidos internacionais foram submetidos, porém cortes orçamentários entre 2015 e 2016 impediram o pagamento das taxas de manutenção no exterior, levando à perda da proteção fora do Brasil.
Quais são os impactos da perda da patente da polilaminina?
A perda da patente internacional permite que grupos e empresas em outros países reproduzam e desenvolvam tecnologias semelhantes sem autorização da equipe brasileira, reduzindo o poder de negociação da UFRJ e o potencial de retorno financeiro direto.
Cientificamente, a ausência de exclusividade pode estimular a multiplicação de estudos em outros centros, ampliando dados de segurança e eficácia, mas também deslocar benefícios econômicos e tecnológicos para o exterior. Para preservar a proteção no Brasil, Tatiana Sampaio chegou a custear do próprio bolso a manutenção da patente nacional, evidenciando a vulnerabilidade de pesquisas estratégicas à oscilação de verbas públicas e à falta de políticas consistentes de propriedade intelectual. Veja a fala da pesquisadora (Reprodução/X/@NewsLiberdade):
🚨URGENTE – Doutora Tatiana Sampaio diz que salvou a patente nacional da Polilaminia com o próprio dinheiro, após o governo cortar dinheiro da UFJR
— SPACE LIBERDADE (@NewsLiberdade) February 18, 2026
“Ficamos só com a patente nacional, que eu paguei do meu bolso para não perder” pic.twitter.com/WWudA5ZKx3
Em que estágio estão os testes e o acesso à polilaminina no Brasil?
Atualmente, a polilaminina passa por testes de segurança acompanhados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ainda sem liberação ampla no Sistema Único de Saúde (SUS) ou na rede privada. O uso tem ocorrido de forma restrita, geralmente por decisões judiciais individuais, que autorizam a aplicação da substância.
Até o momento, pelo menos 26 pessoas já foram tratadas com polilaminina no Brasil, incluindo cinco pacientes do Espírito Santo, com três óbitos entre os participantes, sem evidência de relação causal direta com o composto segundo os dados disponíveis.
Quais desafios o caso da polilaminina evidencia na política científica brasileira?
A trajetória da polilaminina revela como descobertas com alto potencial em saúde dependem de decisões orçamentárias, administrativas e regulatórias, indo além do financiamento de laboratórios ou bolsas.
Esse episódio é frequentemente citado em debates sobre políticas de ciência, tecnologia e inovação, ilustrando a tensão entre produção de conhecimento em universidades públicas e capacidade de garantir soberania tecnológica. Para organizar essa discussão, destacam-se alguns pontos críticos levantados por pesquisadores, gestores e formuladores de políticas:
- Necessidade de financiamento contínuo e previsível para manter patentes estratégicas no exterior e evitar perda de protagonismo tecnológico.
- Criação de estruturas institucionais robustas de apoio à propriedade intelectual, reduzindo a dependência de esforços individuais de pesquisadores.
- Fortalecimento de parcerias público-privadas para custear registros, ensaios clínicos avançados e produção em larga escala, mantendo parte dos ganhos econômicos no país.
Quais os próximos passos no uso da substância no Brasil?
Apesar das perdas no cenário internacional, o avanço dos estudos clínicos, o acompanhamento da Anvisa e a vigência da patente nacional mantêm a polilaminina como objeto de interesse na neurociência e na reabilitação.
O futuro da polilaminina dependerá da capacidade de articular financiamento, parcerias e estratégias de proteção intelectual que permitam ampliar ensaios clínicos, comprovar eficácia em maior escala e eventualmente integrar o tratamento ao SUS.