Ciência vira o jogo contra ativismo no debate sobre transexuais no esporte

Ciência vira o jogo contra ativismo no debate sobre transexuais no esporte

Num primeiro momento, a pressão ativista prevaleceu. Agora, a inclusão de transgêneros no esporte começa a ser guiada pela ciência. Nas últimas semanas, modalidades como natação, ciclismo e rúgbi saíram na frente na implementação de políticas sobre homens e mulheres biológicos que desejam competir em outro gênero.

Por alguns anos, a comunidade esportiva pareceu não saber o que fazer sobre a questão e, sem discussões aprofundadas, abrigou alguns homens biológicos que se identificam como mulheres em competições femininas. Com a repetição de casos de evidente desvantagem física, somado ao incômodo — já não mais silencioso — de muitas atletas profissionais, o esforço de regulamentação enfim foi deflagrado.

Fisicamente, a vantagem masculina se dá em diferentes aspectos, em menor ou maior grau, dependendo da modalidade. Mas, em linhas gerais, os homens superam as mulheres em quantidade de músculos, extensão de estrutura óssea, capacidade de pulmões e resistência à dor.

Os primeiros atletas que externaram uma visão crítica sobre os critérios para transgêneros no esporte foram inibidos pela cultura do cancelamento. Mas, aos poucos, a racionalidade foi ganhando terreno, e o debate amadureceu.

A iniciativa pioneira de algumas modalidades em debater respeitosamente a questão, em busca de um horizonte de inclusão real, baseada em critérios científicos, parece indicar um caminho sustentável para os transgêneros no esporte.

Natação define regras depois de caso Lia Thomas

No final de março, Lia Thomas se tornou a primeira atleta transgênero a vencer uma prova no campeonato universitário dos Estados Unidos. Isso, num nível de excelência de competição do NCAA (National Collegiate Athletic Association), que costuma abastecer os times olímpicos do país. Mas a discrepância de performance na comparação com as adversárias inspirou debates acalorados na imprensa norte-americana.

Thomas venceu as 500 jardas livres com mais de um segundo de vantagem à frente da segunda colocada — uma eternidade para os padrões da prova. Lia nasceu como William e competiu entre homens até 2020. Antes de se tornar a número 1 entre as mulheres, era o número 462 entre 500 nadadores masculinos. O caso acabou mobilizando toda a comunidade dos esportes aquáticos nos EUA.

Três meses depois do triunfo de Thomas, a Federação Internacional de Natação (Fina) decidiu impedir que atletas transgêneros participem de provas femininas de elite, caso tenham passado por qualquer parte do processo de puberdade masculina.

Em um documento de 34 páginas, a entidade informou que atletas transgêneros podem competir na categoria feminina, mas “desde que não tenham experimentado nenhuma parte da puberdade masculina além do estágio 2 de Tanner (escala de maturação sexual que marca o início do desenvolvimento físico)”.

A Fina, que também regula as competições de polo aquático, saltos ornamentais e nado artístico, aprovou o novo regulamento com 71,5% dos votos em uma consulta interna, com dirigentes de vários países.

O documento aprovado é resultado do trabalho de uma comissão que incluiu atletas (inclusive transgêneros), esportistas aposentados, técnicos, cientistas, advogados e especialistas em direitos humanos.

Também ficou estabelecido o limite máximo de 2,5 nmol/L de testosterona para atletas transgênero. Esta determinação foi motivada pela constatação de que a puberdade estabelece diferenças significativas — muitas vezes definitivas — em nível de competição.

Por fim, a entidade citou a possibilidade de criar uma categoria “aberta”, que possibilitaria uma participação mais abrangente de atletas, independentemente de seu sexo biológico ou estágio da transição de gênero. No entanto, esta sugestão ainda vai ser objeto de estudos mais detalhados.

Ciclismo e rúgbi buscam critérios de igualdade

Dias antes de a natação divulgar a sua política, o ciclismo também adotou novos parâmetros para a modalidade. A União Ciclística Internacional (UCI) reduziu pela metade o nível aceitável de testosterona no sangue das atletas e dobrou para 24 meses o período de tratamento de transição mínimo nas atletas transgênero.

O esporte, que já teve a transgênero canadense Rachel McKinnon como campeã mundial entre mulheres (categoria master), baseou a decisão em indicadores científicos.

“As últimas publicações demonstram que o retorno dos marcadores de capacidade de resistência ao ‘nível feminino’ ocorre dentro de seis a oito meses sob baixa testosterona no sangue, enquanto as esperadas adaptações na massa muscular e força muscular demoram muito mais — dois anos no mínimo”, diz o documento da UCI.

Outro esporte cuja potência física decide vitórias e medalhas partiu para o mesmo caminho. A Liga Internacional de Rúgbi (IRL) informou que está trabalhando para empregar uma política para atletas transgêneros a partir de 2023.

A proposta é “desenvolver um conjunto de critérios, com base nas melhores evidências possíveis, que equilibrem de maneira justa o direito do indivíduo de jogar com a segurança de todos os participantes”. Neste momento, por tempo indeterminado, a participação de atletas transgêneros em partidas internacionais está vetada.

Homens biológicos batendo em mulheres e derrotando meninas

Os limites do aceitável no debate sobre transgêneros no esporte entraram no octógono junto com Fallon Fox. Homem biológico, a lutadora foi aceita em eventos de artes marciais mistas (MMA) e conseguiu tanto resultados expressivos como polêmicas. No episódio mais marcante, em 2015, quebrou o crânio de Tamikka Brents em um combate de menos de um minuto. Depois, foi criticada por se gabar da “façanha” nas redes sociais.

Em 2021, Laurel Hubbart fez história como a primeira transgênero a disputar uma Olimpíada. Nos Jogos de Tóquio, a representante da Nova Zelândia disputou o levantamento de peso, mas ficou longe do pódio. A atleta competiu como homem até os 30 e, cinco anos depois, fez a transição de gênero. Para conseguir a vaga olímpica, a neozelandesa teve que manter por 12 meses o nível de testosterona do corpo abaixo de 10 nmol/l, número determinado pela federação de sua modalidade.

No último final de semana, outro caso de aparente desequilíbrio chamou atenção. Uma atleta transgênero de 29 anos derrotou uma adolescente de 13 na final de um torneio feminino de skate nos EUA. Homem biológico que se identifica como mulher, Ricci Tres superou a adolescente Shiloh Catori na decisão e ficou com a premiação de US$ 500. Outras três menores participaram do evento, incluindo Juri Iikura, de 10 anos (5ª colocada).

No ano passado, Tres se tornou a primeira atleta transgênero a tentar a classificação para a disputa do skate nas Olimpíadas. No entanto, a skatista apresentou testes com níveis de testosterona considerados elevados para os padrões do Comitê Olímpico Internacional (COI) e acabou ficando de fora da disputa.

Caso emblemático no basquete
Um dos casos mais emblemáticos da inclusão de transgêneros no esporte aconteceu com Gabrielle Ludwig, que conseguiu jogar contra mulheres em nível universitário nos EUA, já na casa dos 50 anos. Ana Paula Henkel, colunista de Oeste, comentou o caso em 2019.

Créditos: Revista Oeste.




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