Enquanto figuras influentes do governo americano mantêm uma postura crítica em relação a Lula e Alexandre de Moraes, o presidente brasileiro encontrou um surpreendente canal de aproximação com Donald Trump. No centro dessa relação está o bilionário Joesley Batista, que se tornou peça importante na interlocução entre Brasília e Washington.
Análise política | Júnior Melo
Existe um paradoxo na relação entre Brasil e Estados Unidos que ajuda a compreender os movimentos mais recentes da política internacional. Enquanto setores influentes do conservadorismo americano enxergam com profunda desconfiança a relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrantes do Supremo Tribunal Federal, especialmente Alexandre de Moraes, o próprio Donald Trump mantém uma relação surpreendentemente cordial com o presidente brasileiro. A aparente contradição fica ainda mais interessante quando surge um personagem capaz de transitar entre esses dois mundos: o empresário Joesley Batista.
Dentro do universo político que cerca Trump, nomes como o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance representam uma corrente ideológica muito mais próxima da direita brasileira do que do governo petista. Rubio, frequentemente lembrado como um possível nome para a sucessão republicana de 2028, construiu sua trajetória combatendo regimes de esquerda na América Latina. Vance, por sua vez, tornou-se uma das principais vozes do conservadorismo americano. Embora não exista demonstração pública de unanimidade dentro do governo dos Estados Unidos sobre uma suposta aliança destinada a perpetuar Lula no poder, essa interpretação encontra espaço entre críticos da atuação do Judiciário brasileiro.
Outro personagem importante é Jason Miller, antigo assessor e aliado de Donald Trump. Em setembro de 2021, durante uma visita ao Brasil para participar da Conferência de Ação Política Conservadora, Miller foi abordado no aeroporto de Brasília e submetido a um depoimento da Polícia Federal por determinação de Alexandre de Moraes. O episódio atrasou sua saída do país por aproximadamente três horas. Ele foi posteriormente liberado, sem que houvesse ordem de prisão. O caso permanece como um dos episódios mais emblemáticos do atrito entre integrantes do movimento conservador americano e o magistrado brasileiro.
A situação de Moraes também provocou tensões envolvendo Elon Musk, empresário próximo ao universo político de Trump e um dos homens mais ricos do planeta. O enfrentamento entre o proprietário do X e o ministro brasileiro ganhou repercussão internacional, especialmente nas discussões sobre liberdade de expressão e decisões judiciais envolvendo plataformas digitais. Moraes chegou a ser atingido por sanções americanas com fundamento na Lei Magnitsky, aplicadas em julho de 2025 e retiradas em dezembro daquele ano. A retirada das sanções, entretanto, não pode ser atribuída comprovadamente à influência de um único empresário.
É justamente nesse ponto que surge a grande contradição política: apesar da resistência de importantes figuras do conservadorismo americano ao governo brasileiro, Lula conseguiu estabelecer uma comunicação pessoal com Donald Trump que ultrapassa os canais tradicionais da diplomacia.
E o responsável por abrir essa porta atende pelo nome de Joesley Batista.
O empresário brasileiro, controlador da JBS, construiu uma rede de relacionamentos no mundo empresarial e político americano. Sua proximidade com Trump deixou de ser apenas uma especulação quando vieram a público informações sobre sua participação na articulação de encontros entre os dois presidentes. Segundo reportagem da CNN Brasil publicada em maio de 2026, Lula chegou a conversar diretamente com Trump utilizando o telefone celular de Joesley Batista, sem a participação do chanceler Mauro Vieira ou de assessores diplomáticos.
O episódio é extraordinário sob qualquer perspectiva política. O presidente de uma das maiores nações do mundo encontrou dificuldades para acertar uma agenda com a Casa Branca, mas um empresário brasileiro conseguiu estabelecer contato direto com o presidente americano. Segundo a reportagem, Trump atendeu à ligação e ajudou a destravar a reunião. A Reuters também confirmou, com base em fonte familiarizada com as negociações, o papel relevante de Joesley na organização do encontro.
A força dessa relação pode ser compreendida também pelos interesses econômicos envolvidos. A JBS possui operações expressivas nos Estados Unidos, e sua subsidiária Pilgrim’s Pride realizou uma contribuição de US$ 5 milhões ao fundo da posse presidencial de Trump em 2025. O valor ajuda a dimensionar o acesso empresarial da família Batista ao ambiente político republicano, embora uma contribuição financeira não demonstre, por si só, influência sobre decisões de política externa.
É nesse cenário que a situação de Flávio Bolsonaro ganha relevância. Após sua derrota eleitoral em 2026 e diante dos relatos sobre sua ida aos Estados Unidos, integrantes do campo bolsonarista passaram a observar com atenção os sinais emitidos pela Casa Branca. A hipótese de que a proximidade entre Trump e Joesley esteja funcionando como um freio a medidas mais duras contra o governo Lula circula como interpretação política, mas ainda carece de comprovação documental ou confirmação oficial. O mesmo vale para eventuais relatos sobre uma operação americana de retirada de Flávio Bolsonaro do Brasil.
A retirada das sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes alimenta os questionamentos. Para setores da direita, seria natural esperar que a pressão americana permanecesse, especialmente diante do histórico de enfrentamento entre Moraes e aliados de Trump. Entretanto, a decisão de Washington demonstrou que os interesses da administração americana podem seguir caminhos diferentes das expectativas de seus apoiadores brasileiros.
Isso não significa que Joesley Batista tenha determinado a retirada das sanções, tampouco que Trump tenha abandonado seus aliados ideológicos. Significa, porém, que a política internacional não se resume à afinidade entre direita e esquerda. Relações empresariais, interesses comerciais e canais pessoais de comunicação podem influenciar a maneira como governos conduzem suas relações, mesmo quando existem divergências políticas profundas.
Para Lula, essa realidade representa uma vantagem inesperada. O presidente brasileiro consegue manter interlocução com Trump enquanto integrantes do campo conservador americano continuam questionando a atuação do governo petista e de setores do Judiciário. A capacidade de separar a relação pessoal entre presidentes das disputas ideológicas pode explicar parte dessa convivência aparentemente contraditória.
O grande paradoxo é que Donald Trump, principal referência política da direita mundial e aliado histórico do bolsonarismo, pode ter se transformado em um importante fator de estabilidade para o governo Lula diante das pressões provenientes dos próprios Estados Unidos.
E, se essa interpretação estiver correta, o presidente brasileiro tem uma carta que poucos imaginariam encontrar em suas mãos: não Marco Rubio, não JD Vance, muito menos Alexandre de Moraes, mas o próprio Donald Trump.
A explicação para essa improvável aproximação pode estar menos nos corredores do Itamaraty e mais no telefone pessoal de Joesley Batista.
No jogo internacional, a ideologia aproxima aliados, mas os interesses frequentemente decidem até onde uma aliança pode chegar. E Lula parece ter compreendido que, enquanto tiver acesso direto a Trump, poderá encontrar espaço para negociar mesmo diante da resistência de importantes integrantes do conservadorismo americano.
Paradoxalmente, a maior sorte política de Lula em Washington pode ser justamente ter Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos.