A soma chega a 93 votos em um Senado com apenas 81 cadeiras. Dissidências no Centrão e apoios controversos na direita revelam que a disputa pelo comando da Casa pode ser decidida por senadores que aparecem nas contas dos dois lados.
A disputa pela presidência do Senado Federal, marcada para 1º de fevereiro de 2027, apresenta uma contradição matemática que chama a atenção nos bastidores de Brasília. O atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), afirma contar com pelo menos 48 votos para garantir sua reeleição. Enquanto isso, setores da direita trabalham com a projeção de até 45 votos para eleger um candidato de oposição. A soma chega a impressionantes 93 votos, embora o Senado possua apenas 81 parlamentares. São 12 votos a mais do que o total disponível, indicando que as projeções não podem estar simultaneamente corretas.
O cenário revela uma disputa em que promessas de apoio, acordos partidários e compromissos individuais nem sempre caminham na mesma direção. Uma coisa parece praticamente inevitável: haverá mudanças de posição e possíveis traições políticas. A questão é saber qual dos grupos sofrerá as maiores perdas quando os senadores depositarem seus votos na urna.
Alcolumbre conta com votos que podem não ser dele
A primeira fragilidade aparece na própria contabilidade de Alcolumbre. O presidente do Senado aposta no apoio das legendas do Centrão, especialmente da federação formada por União Brasil e Progressistas (PP), cujas direções nacionais anunciaram apoio à sua recondução.
Entretanto, a decisão das cúpulas partidárias não significa que todos os integrantes das bancadas seguirão a orientação.
Dois exemplos são particularmente relevantes. O senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP) declarou publicamente que não votará em Alcolumbre e que apoiará o candidato escolhido pela direita, seja Rogério Marinho (PL-RN), seja Tereza Cristina (PP-MS).
A própria Tereza Cristina (PP-MS) também se posicionou contra a tentativa de impor uma decisão partidária à bancada. A senadora defende a liberdade de voto e permanece entre os nomes considerados para enfrentar Alcolumbre.
Essas manifestações demonstram que parte dos votos contabilizados pelo atual presidente pode não se confirmar. O apoio institucional de um partido não representa necessariamente o compromisso individual de seus senadores.
Direita também pode estar contando votos que irão para Alcolumbre
Se a matemática de Alcolumbre apresenta fragilidades, a da direita também merece atenção.
Entre os parlamentares que aparecem nas projeções do campo conservador estão nomes que, apesar de suas afinidades políticas com a direita, podem optar pela continuidade do atual presidente do Senado.
Um deles é Styvenson Valentim (Podemos-RN), reeleito senador pelo Rio Grande do Norte. Embora identificado com pautas conservadoras e frequentemente incluído nas expectativas de apoio da oposição, Styvenson é apontado em avaliações de bastidores como um possível voto favorável a Alcolumbre.
Outro caso é o de Marina JHC (PSDB-AL), eleita senadora por Alagoas e esposa de João Henrique Caldas, o JHC, eleito governador do estado. Marina também aparece entre os nomes que setores da direita esperam atrair, mas suas relações políticas e articulações regionais alimentam a possibilidade de alinhamento com Alcolumbre.
É importante destacar que, até o momento, não há confirmação pública de compromisso de voto de Styvenson ou Marina JHC com Alcolumbre. As possibilidades refletem avaliações políticas, não declarações definitivas dos parlamentares.
Esses dois exemplos ajudam a explicar por que as contas apresentadas pelos grupos podem estar distantes da realidade.
Rogério Marinho e Tereza Cristina disputam a preferência da oposição
Enquanto Alcolumbre trabalha para consolidar os apoios do Centrão, a direita busca construir uma candidatura única.
Os principais nomes são Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS). O PL terá a maior bancada do Senado, com 29 parlamentares, mas precisará conquistar votos de outras legendas para alcançar a maioria necessária.
Reportagens recentes indicam que Tereza Cristina trabalha com a possibilidade de reunir até 42 votos, enquanto aliados de Alcolumbre sustentam que ele já teria pelo menos 48. Lideranças oposicionistas, por sua vez, contestam essa projeção e avaliam que o atual presidente poderia ter apenas 38 votos efetivamente assegurados.
A diferença entre as estimativas demonstra que a disputa permanece aberta, apesar das declarações de confiança dos dois campos.
O voto secreto pode revelar as traições
A eleição para a presidência do Senado ocorre por votação secreta, circunstância que amplia a incerteza sobre os compromissos assumidos nos bastidores.
Para vencer no primeiro escrutínio, considerando a composição completa da Casa, um candidato precisa conquistar pelo menos 41 votos.
Isso significa que tanto os 48 votos anunciados por Alcolumbre quanto os 45 projetados por setores da direita seriam suficientes para garantir a vitória.
O problema é que esses números não representam votos depositados nas urnas, mas estimativas construídas a partir de declarações, negociações e expectativas.
A matemática não permite que os dois lados estejam certos ao mesmo tempo.
Alcolumbre pode estar superestimando o apoio de parlamentares do Centrão que não pretendem acompanhá-lo. A direita, por sua vez, pode estar incluindo em suas contas senadores que, embora tenham afinidade ideológica com a oposição, preferem manter o atual presidente no comando da Casa.
No fim, a disputa poderá ser decidida justamente por esses votos considerados garantidos por um lado, mas negociados com o outro.
A única certeza matemática é que existem 81 votos possíveis. Os outros 12, que aparecem na soma das projeções, revelam o tamanho da disputa política — e a possibilidade de que as maiores surpresas só sejam conhecidas quando as urnas forem abertas.