O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), intensificou as negociações com lideranças partidárias para tentar permanecer no comando da Casa a partir de fevereiro de 2027. A movimentação ocorre em meio à resistência do PL, que elegeu a maior bancada da Câmara e defende mudanças na presidência do Legislativo.
As articulações ganharam força com a retomada dos trabalhos parlamentares em Brasília. Na terça-feira (13), Motta recebeu o apoio formal do PSD, liderado na Câmara pelo deputado Antônio Brito (BA), que era apontado como possível concorrente ao cargo.
Na mesma noite, o presidente da Câmara reuniu lideranças partidárias e, nesta quarta-feira (14), deve dar continuidade às conversas com representantes de outras siglas. Segundo relatos ouvidos pela Folha de S.Paulo, a residência oficial da Presidência da Câmara passou a concentrar parte das negociações em torno da sucessão.
PL quer mudança no comando da Câmara
O PL, partido do senador Flávio Bolsonaro, elegeu 121 dos 513 deputados federais e busca emplacar um nome alinhado ao bolsonarismo para comandar a Casa. A legenda demonstra resistência a Motta, que foi eleito com apoio dos próprios liberais, mas acumulou divergências com o grupo ao longo do mandato.
Entre os principais pontos de atrito está a decisão de Motta de não colocar em votação a proposta de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Em vez disso, os deputados aprovaram um projeto alternativo de redução de penas, cuja aplicação foi suspensa por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Outro fator de desgaste foi a aproximação de Motta com o governo Lula. O presidente da Câmara apoiou pautas defendidas pelo Planalto, incluindo a proposta de fim da escala de trabalho 6×1, aprovada pela Câmara em maio, conforme o relato da reportagem original. Durante a campanha eleitoral na Paraíba, Motta também declarou apoio a Lula e apareceu usando um boné com o nome do presidente, gesto que gerou críticas de setores políticos.
PSD, MDB e União-PP entram nas articulações
Além do PSD, Motta busca reunir apoio do MDB, do Republicanos e de partidos da base governista. O MDB, liderado na Câmara por Isnaldo Bulhões (AL), ainda não havia formalizado publicamente seu apoio, mas interlocutores citados pela reportagem afirmaram que a sigla mantinha proximidade com o atual presidente da Casa.
O deputado também recebeu sinalizações favoráveis de setores do PP e do União Brasil, partidos que integram uma federação. Dentro desse grupo, o deputado reeleito Doutor Luizinho (PP-RJ) chegou a ser citado como possível candidato, mas, segundo os relatos, não vinha realizando articulações para reunir apoio contra Motta.
Uma ala da federação avalia que a permanência de Motta poderia funcionar como contraponto à influência do PL em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Essa interpretação, porém, não representa necessariamente a posição de todos os integrantes dos partidos.
O Republicanos também enfrenta divergências internas. Apesar da presença de uma ala alinhada ao bolsonarismo, interlocutores afirmam que as articulações recentes favoreceram a união em torno de Motta. O PL havia sinalizado apoio a Marcos Pereira (SP), presidente nacional do Republicanos, mas a possibilidade não teria prosperado dentro da sigla.
Disputa envolve também a base do governo Lula
Motta mantém conversas com partidos como Solidariedade, Podemos e PSDB e busca apoio de legendas governistas, entre elas PT, PCdoB, PV e PSB.
Segundo congressistas da base, o governo Lula tem interesse em evitar que a presidência da Câmara fique sob controle de um nome diretamente alinhado ao bolsonarismo. A estratégia também é vista como relevante para a relação entre o Executivo e o Legislativo caso Lula seja reeleito.
A eleição para as presidências da Câmara e do Senado ocorrerá em fevereiro de 2027, quando os parlamentares eleitos tomarão posse. Hugo Motta e o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), poderão disputar a permanência nos cargos.
Até lá, as negociações devem envolver a formação de alianças entre partidos de diferentes campos políticos. A disputa pela Câmara ocorre em um cenário de crescimento da bancada do PL e de divergências entre Motta e antigos aliados, especialmente em torno da anistia relacionada ao 8 de Janeiro e da relação com o governo federal.
