A força eleitoral do bolsonarismo pode reduzir a necessidade de aproximação com as Forças Armadas em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL). Essa é a avaliação do cientista político João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em entrevista à BBC News Brasil.
Especialista nas relações entre militares e política, Martins Filho avalia que a participação de integrantes das Forças Armadas no governo de Jair Bolsonaro (PL) deixou consequências negativas para a instituição. Na sua análise, a experiência anterior também pode levar os militares a evitar uma nova exposição política.
“Agora eles não precisam mais dos militares, porque o movimento deles se fortaleceu o suficiente”, afirmou o professor, ao comparar a situação atual com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.
Participação militar no governo Bolsonaro
Durante a Presidência de Jair Bolsonaro, as Forças Armadas ganharam espaço na administração federal. O então presidente, capitão reformado do Exército, escolheu o general Hamilton Mourão como vice e nomeou militares para diferentes funções no governo.
Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou 6.157 militares da ativa e da reserva ocupando cargos naquela gestão.
Para Martins Filho, a experiência teve efeitos negativos sobre a imagem das Forças Armadas, sobretudo diante das investigações e condenações relacionadas à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
“Foi extremamente negativo. E não foi agora, quando descobriram as articulações golpistas. Foi desde o começo do governo”, declarou à BBC.
O pesquisador também avaliou que, no atual governo Lula, a orientação dos comandos militares para evitar manifestações políticas públicas contribuiu para reduzir a exposição da instituição no debate partidário. Ele ressaltou, porém, que essa mudança de comportamento não significa necessariamente uma transformação das opiniões políticas existentes entre os militares.
Flávio Bolsonaro e a relação com os quartéis
Na avaliação do cientista político, Flávio Bolsonaro poderá procurar comandantes militares alinhados às suas posições caso seja eleito presidente, mas não necessariamente repetirá a estratégia do pai de incorporar militares ao núcleo do governo.
Martins Filho argumentou que o movimento bolsonarista ampliou sua força eleitoral e, por isso, teria menos necessidade de recorrer às Forças Armadas para conquistar votos ou sustentar sua atuação política.
O professor também apontou que a relação entre militares e o grupo político ligado aos filhos de Jair Bolsonaro foi marcada por disputas internas durante o governo anterior.
Ao comentar a possibilidade de uma anistia aos condenados pelos atos relacionados à tentativa de golpe, Martins Filho afirmou que a medida poderia gerar divergências dentro das próprias Forças Armadas, já que nem todos os militares concordariam com o perdão aos envolvidos.
Relação com Lula e cenário internacional
Martins Filho também analisou a relação entre o governo Lula e as Forças Armadas. Segundo ele, o presidente não promoveu mudanças profundas na política de Defesa nem estabeleceu de maneira suficiente as prioridades estratégicas que deveriam orientar a aquisição de equipamentos militares.
Sobre a política internacional, o pesquisador afirmou que parte dos militares mantém uma visão favorável aos Estados Unidos e desconfianças em relação à China. Na sua avaliação, essas posições influenciam a maneira como integrantes das Forças Armadas interpretam as relações do Brasil com as duas potências.
O professor também considerou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia trazer riscos à democracia e à soberania nacional. Essa avaliação está ligada à sua interpretação das posições políticas da família Bolsonaro e das possíveis consequências de uma concentração de poder nas instituições.
Tentativa de golpe e divisão nas Forças Armadas
Ao abordar os acontecimentos posteriores à eleição de 2022, Martins Filho afirmou que o Brasil esteve próximo de uma tentativa de golpe de Estado. Segundo ele, a falta de apoio majoritário dentro do Alto Comando do Exército foi decisiva para impedir que a articulação avançasse.
O pesquisador também destacou que a condenação de militares por envolvimento na trama golpista não provocou uma reação pública expressiva dos clubes militares, o que, na sua interpretação, demonstra a complexidade das divisões existentes na instituição.
Martins Filho defendeu ainda que as Forças Armadas façam uma autocrítica sobre o envolvimento de seus integrantes em disputas partidárias e sobre as consequências da participação militar no governo Bolsonaro.
As declarações fazem parte de uma entrevista à BBC News Brasil sobre o papel das Forças Armadas na política brasileira, a relação dos militares com os governos Lula e Bolsonaro e os possíveis efeitos de uma eventual mudança de governo sobre essa dinâmica.
