As forças dos Estados Unidos vão deixar suas últimas bases no Iraque nesta quarta-feira (30), encerrando a presença militar americana no país. A retirada ocorre em meio a preocupações sobre um possível vácuo de segurança, o fortalecimento de milícias apoiadas pelo Irã e uma eventual reorganização do Estado Islâmico.
Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil nesta quarta-feira (30), o acordo para a retirada foi firmado em 2024, durante o governo de Joe Biden, e está sendo executado pela administração de Donald Trump. A saída é celebrada pelo Irã e por seus aliados, enquanto os Estados Unidos travam uma guerra contra Teerã, que mantém influência no Iraque por meio de grupos aliados.
A retirada acontece 23 anos depois da invasão liderada pelos EUA que derrubou Saddam Hussein. A operação provocou uma onda de instabilidade no país, que posteriormente culminou na ascensão do Estado Islâmico.
Embora a saída das tropas americanas tenha amplo apoio entre os iraquianos, há preocupação sobre a capacidade das forças de segurança do país de proteger o território sem o apoio militar dos EUA. Ao longo de mais de duas décadas de guerra, cerca de 4.500 militares americanos morreram no Iraque.
“A lição das últimas duas décadas é que vácuos de segurança podem ser extremamente perigosos”, afirmou Jassim al-Bahadli, analista iraquiano que presta consultoria às forças de segurança.
Histórico da presença americana
Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 e ocuparam o país. Na época, instalaram um governo liderado por xiitas e iniciaram uma longa campanha de contrainsurgência, primeiro contra apoiadores de Saddam Hussein e posteriormente contra a Al-Qaeda.
As tropas americanas deixaram o Iraque no fim de 2011, mas retornaram menos de três anos depois para apoiar as forças iraquianas no combate ao Estado Islâmico. A guerra contra o grupo ocorreu principalmente entre 2014 e 2017.
O número de militares americanos mortos na chamada “Operação Liberdade do Iraque” foi aproximadamente duas vezes maior que o registrado na guerra do Afeganistão, encerrada com a retirada dos Estados Unidos em 2021.
No conflito deste ano com o Irã, sete dos 18 militares americanos registrados como mortos estavam no Iraque. O último deles foi um sargento do Exército que morreu durante a detonação controlada de um drone em uma base próxima a Erbil, em julho.
Retirada gera preocupação com milícias e Estado Islâmico
O Irã, que afirma ter como objetivo final retirar as tropas americanas de todo o Oriente Médio, apresenta a saída dos EUA do Iraque como uma vitória de seu chamado “eixo de resistência”, formado por grupos armados aliados espalhados pela região.
Para o analista político Ahmed Younis, de Bagdá, uma das principais preocupações é que grupos aliados do Irã se sintam fortalecidos com a ausência de uma presença militar ocidental e tentem ampliar sua influência sobre políticas estatais e instituições do país.
Autoridades de segurança iraquianas, tanto do governo federal quanto da região curda semiautônoma no norte do país, também avaliam que a retirada americana pode favorecer uma reorganização do Estado Islâmico.
Apesar da derrota de seu autoproclamado califado há quase uma década, o grupo mantém células dormentes. No auge de sua atuação, os militantes chegaram a controlar cerca de um terço do território iraquiano e mataram milhares de pessoas.
As forças americanas forneciam às forças de segurança iraquianas informações de inteligência sobre os movimentos do Estado Islâmico, além de serviços de vigilância aérea e reconhecimento.
“A questão mais importante agora é saber se as instituições de segurança do Iraque prepararam um Plano B viável para a fase pós-coalizão”, afirmou o general reformado do Exército iraquiano Mohammed al-Jubouri, que comandou uma brigada durante a guerra contra o Estado Islâmico.
Segundo ele, um dos cenários de maior preocupação seria o grupo obter drones armados ou equipados com explosivos improvisados, enquanto o Iraque ainda possui capacidade limitada de defesa aérea para enfrentar esse tipo de ameaça.
