A reta final da eleição presidencial ganhou um componente que pode alterar a distribuição dos votos até 4 de outubro: a tentativa de concentrar, já no primeiro turno, parte do eleitorado hoje dividido entre candidaturas menores.
A jornalista Vera Magalhães chamou atenção para esse fenômeno ao analisar a mais recente pesquisa Quaest. O levantamento colocou Lula (PT) com 37% e Flávio Bolsonaro (PL) com 33%, configurando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Augusto Cury aparece com 6%, Ronaldo Caiado com 4%, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 1%. (Folha de S.Paulo)
Segundo Vera, permanece aberta a possibilidade de a eleição terminar já no primeiro turno, sobretudo porque o bloco de candidatos que disputa a terceira colocação vem diminuindo. A observação vale matematicamente para os dois líderes: caso haja forte concentração dos votos válidos em Lula ou Flávio, aumenta a possibilidade de um deles superar a barreira de 50% dos votos válidos necessária para vencer sem segundo turno. (Tribuna da Internet)
Voto útil vira peça central da estratégia
No campo de Flávio Bolsonaro, entretanto, existe um dado que ajuda a explicar por que sua campanha passou a mirar diretamente os eleitores de Cury, Caiado, Renan e Zema.
Levantamento do Datafolha divulgado nesta quarta-feira (23) mostra que, considerando conjuntamente os eleitores desses quatro candidatos, 43% dizem preferir Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno contra Lula, enquanto 30% optariam pelo petista e 26% votariam branco, nulo ou em nenhum dos dois. (Folha de S.Paulo)
O número não significa que esses votos automaticamente migrarão para Flávio ainda no primeiro turno. Mas revela a existência de um contingente relevante de eleitores de candidaturas alternativas que demonstra maior inclinação pelo senador quando obrigado a escolher entre os dois principais concorrentes.
A própria campanha de Flávio já percebeu essa oportunidade. Desde agosto, o candidato vem fazendo apelos públicos para que eleitores de Caiado, Zema e Renan considerem antecipar para o primeiro turno uma escolha que eventualmente fariam apenas no segundo. (UOL Economia)
Ratinho Junior faz movimento político
Outro sinal apareceu no Paraná. Ratinho Junior (PSD), que em março havia declarado apoio à candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, fez nesta semana um aceno político a Flávio Bolsonaro. O movimento chamou atenção justamente por ocorrer quando cresce a disputa pelo chamado voto útil no campo da direita. (CNN Brasil)
O gesto não prova, isoladamente, uma transferência organizada dos apoiadores de Caiado, mas mostra como a reta final começa a produzir reposicionamentos entre lideranças políticas.
Ao mesmo tempo, os adversários reagiram. Caiado, Zema e outros candidatos passaram a intensificar críticas a Flávio diante da ofensiva do senador sobre seus respectivos eleitorados. (Tribuna da Internet)
Alerta para a campanha de Lula
É justamente aí que está o ponto de atenção para a campanha petista.
Os quatro principais candidatos que aparecem atrás de Lula e Flávio somam 14% na última Quaest: Cury (6%), Caiado (4%), Renan (3%) e Zema (1%). Não é possível presumir que todo esse eleitorado migrará para um mesmo candidato — e pesquisas indicam que uma parcela pode votar em Lula, branco ou nulo.
Entretanto, o Datafolha mostra que, numa escolha direta entre Lula e Flávio, o senador possui hoje maior atração sobre esse conjunto de eleitores. (Folha de S.Paulo)
Por isso, uma eventual antecipação do comportamento de segundo turno para o primeiro poderia modificar significativamente a matemática da eleição.
A Folha já havia apontado que as duas campanhas pretendem intensificar a busca pelo voto útil. Para Flávio, o principal alvo está justamente nos eleitores de Cury, Caiado, Renan e Zema. Lula também busca conquistar parte desse contingente, especialmente os eleitores mais ao centro. (Folha de S.Paulo)
Tudo depende da velocidade da migração
Ainda não há dados que permitam afirmar que Flávio Bolsonaro vencerá no primeiro turno. A Quaest mais recente continua mostrando Lula numericamente à frente, com 37% contra 33%, embora os dois estejam tecnicamente empatados pela margem de erro. (Folha de S.Paulo)
A questão que passa a dominar os últimos dias de campanha é outra: os eleitores das candidaturas menores permanecerão com seus candidatos ou começarão a antecipar a escolha de um eventual segundo turno?
Se a segunda hipótese ganhar força, a disputa poderá sofrer uma concentração acelerada.
E, pelos dados atuais do Datafolha, Flávio Bolsonaro apresenta vantagem sobre Lula justamente na preferência agregada dos eleitores de Zema, Renan, Caiado e Cury em uma disputa direta. É esse movimento — ainda em formação e sujeito a mudanças — que pode transformar o voto útil em uma das variáveis decisivas desta reta final e manter aberta a possibilidade de definição da Presidência já em 4 de outubro. (Folha de S.Paulo)