Uma movimentação nos bastidores de um dos maiores negócios da história da mídia americana pode colocar Elon Musk em uma posição até pouco tempo atrás difícil de imaginar: tornar-se acionista indireto de duas das maiores redes de notícias dos Estados Unidos, CNN e CBS News.
Segundo reportagem publicada nesta quarta-feira (23) pelo Semafor, executivos da Paramount discutem a possibilidade de convidar Musk para integrar um grupo de investidores que colocaria capital na companhia. O empresário é um dos nomes considerados pelo CEO da Paramount, David Ellison, enquanto o grupo se prepara para concluir a aquisição da Warner Bros. Discovery.
A operação que une Paramount e Warner Bros. Discovery é avaliada em aproximadamente US$ 110 bilhões, incluindo dívidas, e deve entrar em vigor no início de outubro. Com a transação, ativos como CBS, Paramount+, CNN, HBO, Warner Bros. e Discovery passarão a integrar o mesmo conglomerado.
Musk como acionista
Ainda não existe acordo anunciado com Elon Musk. Também não se sabe quanto o bilionário poderia investir. O que existe, segundo fontes ouvidas pelo Semafor, é uma discussão dentro da Paramount sobre convidá-lo para participar de um sindicato de investidores.
A própria Paramount não comentou a informação, enquanto Musk não respondeu ao pedido de manifestação feito pelo veículo. Portanto, neste momento, trata-se de uma possibilidade em negociação, e não de uma compra consumada.
Caso aceite e a operação seja estruturada dessa maneira, Musk poderia adquirir uma participação acionária na companhia que será proprietária tanto da CBS quanto da CNN. Isso não significa, entretanto, que o empresário compraria diretamente as emissoras ou passaria a comandar suas redações. A reportagem original considera improvável que ele tivesse participação formal na operação do conglomerado.
Relação de Musk com CNN e CBS chama atenção
É justamente a identidade do potencial novo acionista que transforma uma operação financeira em assunto também editorial e político.
Musk mantém há anos uma relação conflituosa com parte da imprensa tradicional americana e utiliza frequentemente o X, plataforma que controla desde a aquisição do antigo Twitter, para criticar veículos, jornalistas e a maneira como determinados assuntos são cobertos.
CNN e CBS também já fizeram ampla cobertura crítica de Musk, de suas empresas e de sua atuação política. Isso, porém, é diferente de estabelecer como fato objetivo que as duas emissoras institucionalmente sejam “contra” o empresário: suas redações cobrem Musk de forma independente e frequentemente crítica, assim como outros personagens de grande relevância pública.
A ironia política, portanto, é evidente: um empresário que já esteve no centro de coberturas duras dessas redes pode acabar tendo participação econômica no conglomerado proprietário delas.
Relação com os Ellison facilita aproximação
Existe ainda uma ponte importante entre Musk e os responsáveis pela operação.
Larry Ellison, fundador da Oracle e pai de David Ellison, mantém uma relação antiga com Musk. Ele investiu US$ 1 bilhão na compra do Twitter por Musk em 2022, além de ter investido anteriormente na Tesla e integrado o conselho de administração da fabricante de veículos elétricos.
Larry Ellison também assumiu uma parcela gigantesca do risco financeiro da aquisição da Warner: garantiu pessoalmente mais de US$ 40 bilhões do financiamento de capital necessário para a operação. A entrada de Musk ou de outros bilionários permitiria diversificar a base de investidores e reduzir a exposição financeira de Ellison.
CNN e CBS sob o mesmo teto
A discussão ocorre justamente quando cresce nos Estados Unidos o debate sobre quem exercerá influência sobre duas das principais redações do país.
Como parte do acordo que permitiu avançar a aquisição da Warner, a Paramount concordou em criar um conselho destinado a preservar a independência editorial da CNN e da CBS News. Especialistas ouvidos pela Reuters, entretanto, questionaram a força efetiva desse mecanismo, argumentando que a autoridade final continuará concentrada na direção da companhia.
Isso torna a eventual chegada de Musk ainda mais sensível.
O próprio Semafor observa que uma participação do empresário poderia gerar repercussão política em Washington, embora ressalte que ter participação acionária não significaria necessariamente possuir poder formal sobre as operações ou decisões editoriais.
De crítico da grande mídia a possível acionista
A situação produziria uma reviravolta curiosa no mercado de comunicação americano.
Depois de desembolsar US$ 44 bilhões para comprar o Twitter e transformá-lo no X, Musk ampliou consideravelmente sua presença direta no universo da informação. Agora, seu nome aparece nas discussões para colocar dinheiro em um conglomerado que reunirá alguns dos ativos mais conhecidos da mídia tradicional americana.
Se o investimento realmente ocorrer, Elon Musk poderá passar de crítico frequente da grande mídia a acionista de uma companhia proprietária da CNN e da CBS.
Por enquanto, entretanto, há uma diferença fundamental entre possibilidade e negócio fechado: a Paramount estuda convidá-lo, mas não existe confirmação de que Musk tenha aceitado investir ou sequer recebido formalmente uma proposta.
É justamente essa decisão que poderá transformar uma conversa de bastidores em uma das movimentações mais inesperadas da mídia americana.