A tensão que marcou a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) na terça-feira (15), durante o julgamento relacionado ao ministro Alexandre de Moraes, também apareceu em conversas privadas entre integrantes da Corte. Mensagens de celular obtidas pela jornalista Andréia Sadi e divulgadas pelo g1 mostram uma troca de acusações entre Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques nos dias que antecederam a sessão.
As conversas, reveladas inicialmente pelo portal Metrópoles, ocorreram na mesma semana em que Andrei Rodrigues foi afastado do cargo de diretor-geral da Polícia Federal. A decisão foi tomada pelo ministro André Mendonça e encaminhada para referendo da Segunda Turma do STF, da qual Gilmar Mendes faz parte.
O julgamento começou às 10h. Um minuto depois, Gilmar Mendes apresentou pedido de vista, suspendendo a análise. Apesar disso, Nunes Marques e Luiz Fux anteciparam seus votos e se posicionaram favoravelmente à decisão de Mendonça.
Troca de mensagens entre Gilmar e Fux
Fux, que preside a Segunda Turma, recebeu mensagens de Gilmar Mendes criticando sua postura durante o julgamento. Segundo o relato publicado por Andréia Sadi, a conversa teria ocorrido nos seguintes termos:
Gilmar Mendes: “Isto revela qq menos postura institucional. Espero que não se repita”
Fux: “Gilmar você deve dizer espero que não se repita pra quem você quiser. Pra cima de mim não. Ninguém nesse mundo diz pra mim como agir. Boa Noite por ora”
Gilmar: “Fux, soh cuide de atuar como Presidente da turma”.
Fux: “Bom Dia. Cuide de não encher meu saco!”
Discussão com Nunes Marques
Gilmar Mendes também teria trocado mensagens em tom acalorado com Nunes Marques. Segundo a reportagem, o ministro chegou a bloquear Gilmar no aplicativo de mensagens.
Gilmar: “Assumam que estão ferrados”
Nunes Marques: “Me respeite Gilmar. Isso não é postura”.
Gilmar: “Não julguem porra”.
Gilmar: “Não respeito a quem nao se daH respeito”
Gilmar: “Vc tem de sair do tse tambem”
Nunes Marques: “Então não me tecle pois não falo com que não me respeita”
Gilmar: “Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso na turma”
Nunes Marques: “Abro com o maior prazer”.
Nunes Marques: “Há 15 anos que presto contas de tudo”.
Nunes Marques: “Como juiz”
Nunes Marques: “Tramoias…”
Gilmar: “Verdade! E de sua família”
As mensagens foram divulgadas em meio às discussões sobre possíveis conflitos envolvendo ministros do STF e pessoas próximas a eles no contexto do caso Banco Master.
Nunes Marques se declarou impedido
Na terça-feira (15), Nunes Marques se declarou impedido de participar do julgamento relacionado a Alexandre de Moraes. Ele afirmou que não se sentia confortável em participar da análise por também ocupar a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), diante dos possíveis impactos do caso sobre o cenário eleitoral.
Antes de deixar o julgamento, porém, o ministro se manifestou sobre mensagens que haviam vindo a público envolvendo seu filho, o advogado Kevin Marques, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro e divulgadas pela imprensa mencionaram supostos pagamentos de R$ 500 mil mensais relacionados a Kevin Marques. A defesa do advogado nega que ele tenha prestado serviços ao Banco Master ou recebido dinheiro diretamente de Vorcaro.
Em plenário, Nunes Marques afirmou:
“Em relação as mensagens que circulam de ontem e de hoje, eu nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master. Meu filho nunca prestou nenhum serviço ao banco e nunca foi remunerado pelo banco”
O ministro também declarou:
“O sigilo bancário já foi quebrado, não se adianta se especular de outra forma. Se o sigilo já foi quebrado, contra fatos não há argumentos. Quanto a isso eu tenho absoluta isenção e a minha isenção está calcada e absolutamente comprovada nos votos que proferi. Se eu me sentisse desconfortável ou cooptado eu jamais teria votado pela confirmação da prisão de Daniel Vorcaro, do seu pai e de outras pessoas envolvidas”
Defesa de Kevin Marques
A assessoria de Kevin Marques também negou que ele tenha recebido dinheiro do Banco Master ou de Daniel Vorcaro.
Segundo a manifestação do advogado, os R$ 281,6 mil recebidos foram pagos pela Consult Inteligência Tributária por serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa. A defesa afirma que a atuação profissional não teve relação com o Supremo Tribunal Federal.
Dados divulgados a partir de relatório do Coaf indicam que a Consult recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025 e realizou 11 transferências que totalizaram R$ 281,6 mil para Kevin Marques. A existência das transferências é distinta da alegação de que os valores teriam sido pagos diretamente pelo Banco Master ou por Vorcaro — o que é negado pela defesa.
O episódio envolvendo as mensagens ocorre em meio às discussões internas do STF sobre o tratamento de casos que envolvem ministros da Corte e pessoas de seus círculos profissionais e familiares.
Com informações de Valor Econômico.