As apostas esportivas e jogos on-line podem ter provocado um impacto significativo sobre a economia brasileira em 2025. Um estudo elaborado pelo economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), estima que as bets tenham retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica no ano passado.
O intervalo corresponde a aproximadamente 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2025. Segundo o pesquisador, o valor representaria entre 40% e 50% de todo o crescimento registrado pela economia brasileira no período, que foi de 2,3%.
Além do impacto sobre o PIB, o estudo avalia possíveis consequências das apostas para a arrecadação pública e para a desigualdade de renda.
A análise, porém, é contestada por entidades que representam o setor de apostas. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmam que os resultados precisam ser interpretados com cautela e apontam limitações na metodologia utilizada.
Como o impacto foi calculado
Para chegar à estimativa, Klein utilizou como ponto de partida uma projeção de R$ 62,5 bilhões em transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas em 2025. O número foi calculado em estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em dados de pagamentos do Banco Central.
O conceito considera a diferença entre o dinheiro colocado pelos apostadores e os valores que retornam na forma de prêmios.
A partir desse montante, o economista avaliou como os gastos estariam distribuídos entre diferentes faixas de renda. A análise considera que famílias de menor renda tendem a destinar uma parcela maior de seus recursos ao consumo.
Foram construídos dois cenários: um em que a maior parte das apostas seria financiada por pessoas que recebem até dois salários mínimos e outro no qual os gastos estariam mais concentrados entre as faixas de renda mais elevadas.
Na sequência, o pesquisador aplicou um multiplicador econômico para estimar quanto a redução do dinheiro disponível para o consumo poderia representar em termos de atividade econômica.
Com essa metodologia, chegou ao intervalo de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões de impacto negativo sobre o PIB.
Empregos não compensariam perda estimada
Klein também considerou os empregos associados diretamente e indiretamente ao setor de apostas.
Um estudo produzido pela LCA Consultores para a ANJL e o IBJR estima aproximadamente 15,5 mil postos de trabalho relacionados às plataformas. A massa salarial associada a essas vagas poderia gerar até R$ 1 bilhão em renda na economia.
Segundo Klein, mesmo considerando essa contribuição, a estimativa de impacto negativo das apostas sobre a atividade econômica sofreria pouca alteração.
Outro levantamento, elaborado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e divulgado em abril, calculou que o aumento da inadimplência severa parcialmente associado aos gastos com bets provocou uma redução de R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.
Para a CNC, o valor corresponde aproximadamente ao faturamento de dois períodos de Natal, principal data do calendário do varejo brasileiro.
Reflexos sobre a arrecadação
O estudo também estima que a redução da atividade econômica pode afetar a arrecadação de impostos.
A lógica utilizada é que uma diminuição do consumo reduz também os tributos incidentes sobre a circulação de bens e serviços. Entre os impostos considerados estão ICMS, ISS e IPI, que serão substituídos gradualmente pelo IBS e pela CBS no processo de implementação da reforma tributária.
Klein estima que uma redução de 1% no PIB provocaria uma queda de aproximadamente 0,8% a 1,2% na arrecadação.
Considerando uma carga tributária bruta equivalente a cerca de 32,4% do PIB em 2025, o pesquisador calcula que o impacto econômico das bets poderia resultar em uma perda líquida entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões em receitas públicas.
Nesse cálculo, são descontados aproximadamente R$ 9 bilhões arrecadados diretamente por meio da tributação das plataformas de apostas.
O economista argumenta que o resultado coloca em discussão a ideia de que as bets necessariamente aumentam a arrecadação do governo. Para ele, é necessário considerar também a possível perda de receitas provocada pela redução do consumo em outras áreas da economia.
Estudo aponta possível aumento da desigualdade
Klein também avaliou como a transferência de recursos para as bets poderia afetar a distribuição de renda.
Para isso, foram considerados dois cenários. No primeiro, os R$ 62,5 bilhões de transferência líquida estariam concentrados entre os 99% da população que não fazem parte do 1% mais rico.
No segundo, além dessa concentração, parte dos recursos seria direcionada ao grupo mais rico da população.
Esse último cenário é considerado extremo pelo próprio estudo, já que parte das empresas do setor de apostas possui participação estrangeira, o que significa que uma parcela do dinheiro poderia deixar o país.
Nas duas hipóteses, o pesquisador calcula que a concentração de renda no topo da pirâmide poderia aumentar entre 0,5% e 2,1%.
Economista defende aumento da tributação
Diante dos resultados, Klein defende uma tributação maior sobre as empresas de apostas.
O argumento é que uma cobrança mais elevada poderia compensar, ao menos parcialmente, os efeitos negativos associados à atividade, incluindo impactos sobre a arrecadação, desigualdade e problemas sociais relacionados ao comportamento de aposta.
O pesquisador compara a situação à tributação elevada aplicada aos cigarros, devido aos custos sociais e de saúde relacionados ao consumo do produto.
Setor contesta metodologia
As entidades que representam as empresas de apostas questionam as conclusões do estudo.
A ANJL afirmou que as estimativas precisam ser avaliadas com cautela, principalmente porque dependem das hipóteses utilizadas pelo pesquisador e não constituem uma medição causal direta do impacto das bets sobre o PIB.
A associação também considera que o multiplicador econômico utilizado é elevado e contesta a estimativa de R$ 62,5 bilhões em perdas líquidas. Outro ponto levantado é que a análise não consideraria adequadamente o fato de que apostas podem substituir outros gastos de lazer, como cinema, teatro, serviços de streaming e eventos esportivos.
A entidade também questiona a comparação entre o impacto estimado das bets e o crescimento do PIB em 2025, argumentando que as plataformas já estavam presentes na economia brasileira em 2024. Para a associação, seria necessário medir especificamente a expansão do setor entre os dois anos.
O IBJR apresentou críticas semelhantes. O instituto afirma que o estudo parte de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente registradas pelas operadoras.
A entidade também questiona algumas das pesquisas utilizadas como referência e a premissa de que o dinheiro destinado às apostas seria integralmente convertido em consumo caso não fosse utilizado nas plataformas.
Segundo o instituto, uma análise mais ampla deveria considerar também os efeitos econômicos positivos do setor regulado, como empregos, fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária.
As entidades ressaltam que apontar limitações metodológicas não significa necessariamente invalidar o estudo, mas, segundo elas, é necessário considerar diferentes evidências para avaliar os efeitos econômicos e sociais das apostas no Brasil.
