O Reino Unido autorizou a divulgação de informações classificadas relacionadas a componentes britânicos do míssil de cruzeiro SCALP, em uma medida destinada a apoiar a produção da arma em território ucraniano. O armamento, desenvolvido em parceria entre britânicos e franceses, é conhecido como Storm Shadow no Reino Unido.
A decisão foi anunciada nesta segunda-feira (24), durante a visita do primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, a Kiev. A iniciativa faz parte de um projeto para estabelecer linhas de montagem de mísseis de longo alcance na Ucrânia, em parceria com a França e a empresa europeia de defesa MBDA.
O SCALP é um míssil lançado a partir de aeronaves e projetado para atingir alvos fixos a longa distância. A Ucrânia já emprega versões fornecidas por países europeus em ataques contra posições russas.
A autorização britânica é considerada uma etapa importante para que especialistas franceses e ucranianos possam avançar na instalação de uma estrutura de produção local. Segundo avaliações divulgadas por veículos internacionais, porém, os efeitos práticos da iniciativa devem levar anos para aparecer, já que a fabricação em escala depende da criação de toda uma cadeia industrial.
Tecnologia de longo alcance
O SCALP utiliza sistemas de navegação desenvolvidos para permitir ataques de precisão contra alvos situados a grandes distâncias. A arma foi desenvolvida pela MBDA a partir de uma cooperação entre França e Reino Unido.
A Ucrânia pretende ampliar sua capacidade de atingir instalações militares russas situadas longe da linha de frente. O desenvolvimento de mísseis e drones de maior alcance tornou-se uma das prioridades da indústria de defesa ucraniana durante a guerra.
Além dos armamentos fornecidos pelos aliados, Kiev também trabalha na produção doméstica de sistemas de ataque de longo alcance. Entre eles está o FP-5 Flamingo, desenvolvido pela empresa ucraniana Fire Point, que, segundo autoridades ucranianas, pode alcançar alvos a milhares de quilômetros de distância.
O presidente Volodymyr Zelensky afirmou anteriormente que o Flamingo já havia sido empregado em operações contra instalações russas. A Ucrânia também utiliza drones de longo alcance para complementar sua capacidade de ataque.
Rússia critica decisão britânica
A decisão de Londres provocou reação imediata do Kremlin. O porta-voz da Presidência russa, Dmitry Peskov, acusou o Reino Unido de aumentar seu envolvimento no conflito e afirmou que a iniciativa representa uma escalada.
A reação ocorre em meio ao aumento das tensões entre Moscou e Londres. Autoridades russas já haviam advertido anteriormente que uma participação britânica mais direta no apoio militar à Ucrânia poderia trazer consequências para o Reino Unido.
Apesar das críticas russas, Burnham reafirmou o compromisso britânico com Kiev. Durante a visita à Ucrânia, o primeiro-ministro declarou que a segurança dos dois países está ligada e afirmou que Londres continuará apoiando os ucranianos.
A viagem a Kiev também marca a primeira visita internacional de Burnham desde que assumiu o cargo de primeiro-ministro, em 20 de julho de 2026.
Ucrânia enfrenta falta de mísseis de defesa
O avanço na produção de armas de ataque ocorre paralelamente a uma dificuldade enfrentada pela Ucrânia na área de defesa aérea.
O país tem enfrentado escassez de interceptadores para sistemas como o Patriot, de fabricação norte-americana, enquanto a Rússia mantém ataques com mísseis e drones contra cidades e instalações ucranianas.
O governo ucraniano já manifestou interesse em produzir interceptadores Patriot dentro do próprio país. A proposta chegou a receber apoio inicial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas posteriormente perdeu força.
A necessidade de reforçar a defesa aérea aumentou à medida que Moscou intensificou o emprego de ataques de longo alcance.
Produção própria ganha espaço
Mesmo diante das dificuldades, a Ucrânia vem ampliando sua indústria nacional de defesa. Empresas do país trabalham no desenvolvimento de mísseis e drones capazes de atingir alvos situados a centenas ou milhares de quilômetros de distância.
Esse crescimento aumenta a capacidade de Kiev de atacar estruturas militares e estratégicas localizadas no interior da Rússia.
Ao mesmo tempo, a cooperação com países europeus busca permitir que a Ucrânia passe a fabricar ou montar sistemas de armamentos ocidentais dentro de seu próprio território. O projeto envolvendo o SCALP é uma das iniciativas de longo prazo nesse sentido.
O governo britânico considera que o fortalecimento da capacidade militar ucraniana faz parte de uma estratégia de apoio de longo prazo. Burnham também participou, durante a visita a Kiev, de uma reunião da chamada “Coalizão dos Dispostos”, grupo internacional formado para apoiar a segurança da Ucrânia.
