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Início Brasil

Conheça o homem acusado de comandar um dos cartéis mais perigosos do mundo

Por Junior Melo
12/ago/2026
Em Brasil, Mundo
,Autoridades da Irlanda, EUA e Reino Unido acusam Daniel Kinahan de dirigir uma perigosa organização criminosa. Collins Photo Agency.

,Autoridades da Irlanda, EUA e Reino Unido acusam Daniel Kinahan de dirigir uma perigosa organização criminosa. Collins Photo Agency.

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Daniel Kinahan, apontado pelas autoridades como um dos principais líderes do Grupo de Crime Organizado Kinahan (KOCG), foi colocado em prisão preventiva na Irlanda depois de ser extraditado dos Emirados Árabes Unidos. Aos 49 anos, o irlandês responde a acusações relacionadas ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro e deverá permanecer detido até o julgamento.

A audiência ocorreu no domingo (9/8), em Dublin, e durou aproximadamente 13 minutos. Durante a sessão, Kinahan reconheceu que teria poucas chances de conseguir liberdade mediante pagamento de fiança. Ele agradeceu aos magistrados, pediu desculpas por não estar acompanhado de um advogado e afirmou que pretende contratar um profissional assim que possível.

Apesar das acusações, Kinahan manteve uma postura calma e cordial durante a audiência. O comportamento contrasta com a imagem atribuída a ele pelas autoridades, que apontam a organização ligada à família como responsável pelo transporte de cocaína e heroína pelo Reino Unido e por outros países europeus. Segundo estimativas, o grupo movimentaria cerca de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,1 bilhões) por ano.

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Desde 2022, o governo dos Estados Unidos oferecia uma recompensa de US$ 5 milhões (cerca de R$ 25,7 milhões) por informações que levassem à localização e captura de Daniel Kinahan, de seu pai, Christopher Kinahan, e de seu irmão, também chamado Christopher.

A trajetória da família Kinahan

Daniel Joseph Kinahan nasceu em Dublin, em 25 de junho de 1977. Ele também é conhecido pelos nomes “Daniel Joseph”, “Chess”, “D” e “Cuz”. Sua infância e juventude ocorreram em regiões da capital irlandesa historicamente relacionadas à economia informal e à criminalidade.

As autoridades apontam que sua aproximação com o crime teria sido influenciada pelo pai, Christopher Vincent Kinahan, conhecido como “The Dapper Don” (“O chefe elegante”, em inglês). Durante a década de 1980, o patriarca esteve envolvido em crimes como roubos, fraudes e falsificação de cheques, antes de ampliar sua atuação no tráfico de heroína.

Em 1986, Christopher Kinahan foi preso por tráfico de heroína e recebeu uma condenação de seis anos de prisão. Segundo autoridades da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos, os filhos já teriam sido introduzidos nas atividades criminosas naquele período.

Christopher voltou a ser preso posteriormente na Holanda e na Bélgica. Durante períodos de encarceramento, segundo relatos da imprensa britânica, ele teria cursado estudos universitários e aprendido outros idiomas. Paralelamente, teria ampliado contatos com organizações criminosas, entre elas a Camorra italiana e grupos envolvidos com tráfico de drogas na Colômbia e no México.

No final dos anos 2000, o Grupo de Crime Organizado Kinahan já havia ampliado sua atuação para diferentes países europeus. A organização passou a ter forte presença no tráfico de drogas em Marbella, no sul da Espanha, região conhecida pelo turismo internacional.

Roy McComb, ex-vice-diretor da Agência Nacional contra o Crime do Reino Unido, atribuiu a expansão internacional do grupo à “ambição e determinação”. Segundo ele, a organização estabeleceu vínculos com grupos da América do Sul, Europa Oriental, Paquistão e Afeganistão envolvidos na distribuição de grandes quantidades de drogas.

McComb classificou o KOCG como uma das principais organizações responsáveis pela circulação de grandes volumes de narcóticos na Europa e afirmou que o grupo chegou a ser considerado uma ameaça à estabilidade do dólar americano, moeda utilizada em suas transações.

Patrimônio e negócios no Brasil

Em 2010, a polícia espanhola prendeu Daniel, Christopher e outro integrante da família, além de apreender imóveis e veículos de luxo. Daniel, porém, não foi condenado naquele processo.

As atividades atribuídas ao grupo também alcançaram países da América Latina, entre eles Brasil e Panamá. Segundo os jornalistas Stephen Breen e Owen Conlon, autores do livro The Clan (“O clã”, em tradução livre), a família Kinahan chegou a possuir imóveis no Brasil avaliados em mais de US$ 600 milhões (aproximadamente R$ 3,1 bilhões pelo câmbio atual).

Em abril, após o anúncio da prisão de Kinahan, o ex-presidente da Colômbia Gustavo Petro afirmou que o irlandês integraria a chamada “Junta do Narcotráfico”, uma suposta organização internacional com sede em Dubai. A estrutura seria ligada a atividades de tráfico de drogas, assassinatos seletivos e lavagem de dinheiro na Colômbia e em outros países da América Latina.

O papel de Daniel Kinahan

Embora Christopher Kinahan continue sendo associado pelas autoridades à organização criminosa, investigadores acreditam que Daniel tenha assumido uma posição central na administração das operações cotidianas do grupo.

Após a audiência, Daniel foi encaminhado para a prisão de segurança máxima de Portlaoise, localizada cerca de 80 quilômetros a sudoeste de Dublin. Ele deverá permanecer no local enquanto aguarda o julgamento.

Kinahan é pai de cinco filhos e nega as acusações. Durante uma entrevista concedida a um podcast enquanto ainda estava em Dubai, afirmou acreditar que havia sido transformado em bode expiatório.

Ao longo dos últimos anos, ele também procurou construir uma imagem pública relacionada ao boxe. Em 2012, criou a empresa MTK Global, voltada à promoção de lutas. A atuação no esporte o aproximou de nomes importantes da modalidade, entre eles o boxeador Tyson Fury.

Essa imagem foi abalada em fevereiro de 2016, quando integrantes do grupo rival Hutch tentaram matar Kinahan durante a pesagem de uma luta no hotel Regency, no norte de Dublin.

O ataque resultou na morte de um integrante ligado aos Kinahan e deixou outras duas pessoas feridas. Imagens feitas por celulares registraram a movimentação provocada pelo tiroteio. Segundo as autoridades, a disputa entre os grupos já teria provocado pelo menos 18 mortes.

Depois do episódio, Daniel Kinahan mudou-se para Dubai. No país, continuou ligado ao setor de boxe enquanto era acompanhado pelas autoridades.

De acordo com informações do Departamento de Estado dos Estados Unidos, relatórios de inteligência indicavam que Kinahan comandava integrantes de alto escalão do KOCG a partir de Dubai. A suspeita era de que ele coordenasse operações de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro utilizando empresas aparentemente legais.

Investigações e conexões internacionais

As autoridades também investigaram possíveis relações internacionais mantidas pelo grupo. Em 2022, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) informou que a organização teria tentado adquirir nove aviões de carga De Havilland Canada DHC-5 Buffalo pertencentes à Força Aérea Egípcia. O grupo também teria demonstrado interesse em um Antonov An-26 localizado na Venezuela.

Os contatos estabelecidos por Kinahan em Dubai também despertaram atenção das autoridades americanas. A Administração de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês) afirma que ele teria estabelecido uma parceria com o Hezbollah para operações de lavagem de dinheiro utilizando o sistema hawala, método informal de transferência de recursos.

Também foram investigados possíveis vínculos com o regime iraniano. Segundo o site Bellingcat, Kinahan teria auxiliado o Irã na comercialização de petróleo em possível violação às sanções internacionais. Uma investigação publicada pelo jornal britânico The Times também apontou suspeitas de relações entre o grupo e a inteligência iraniana, especialmente em atividades relacionadas ao comércio ilegal de petróleo.

As acusações contribuíram para o encerramento da permanência de Kinahan nos Emirados Árabes Unidos. A Irlanda negociava há anos um tratado de extradição com o país, acordo que acabou sendo assinado em 2024.

Kinahan foi a segunda pessoa extraditada para a Irlanda com base no tratado. Antes dele, Sean McGovern, descrito por um juiz como um “lugar-tenente de alto escalão” do grupo Kinahan, também foi enviado ao país. Em junho, McGovern recebeu uma pena de 24 anos de prisão após se declarar culpado de duas acusações relacionadas à direção de uma organização criminosa.

Para transportar Kinahan de Dubai à Irlanda, o governo irlandês utilizou um avião oficial normalmente destinado ao transporte de ministros. Depois de chegar ao país, ele foi levado diretamente ao tribunal sob forte esquema de segurança.

Durante a audiência, Kinahan vestia roupas simples, um moletom preto e óculos. Ele permaneceu de pé, com as mãos entrelaçadas, enquanto um funcionário apresentava as acusações. Ao ser questionado pelos três juízes, respondeu de maneira educada e afirmou que ainda avaliaria se participaria pessoalmente da próxima audiência, marcada para 5 de outubro, ou se prestaria depoimento por videoconferência a partir da prisão.

Do lado de fora do tribunal, mais de 100 pessoas aguardavam a passagem do comboio policial que transportou o acusado em alta velocidade.

Com a prisão preventiva, o processo contra Daniel Kinahan entrou em uma nova etapa. Antes da extradição, ele já havia demonstrado preocupação com o futuro em uma entrevista, na qual afirmou: “Acredito que já tenho prisão perpétua”.

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