O governo brasileiro avalia que a crise diplomática com os Estados Unidos ainda está longe de chegar ao seu ponto mais crítico. Integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty acreditam que a tensão entre os dois países deve aumentar nos próximos dias ou semanas, com a possibilidade de novas medidas por parte de Washington.
Segundo a avaliação de autoridades ouvidas nos bastidores, a eleição presidencial brasileira passou a integrar uma disputa geopolítica mais ampla pela influência política na América Latina.
Essa percepção ganhou força após o governo brasileiro negar vistos de entrada a dois representantes americanos que viriam ao país em uma missão relacionada às eleições de 2026. No Itamaraty, a expectativa é de que os Estados Unidos respondam à decisão com novas medidas diplomáticas.
Entre as possibilidades analisadas pelo governo brasileiro estão restrições de vistos para autoridades nacionais e até a utilização da Lei Magnitsky como instrumento adicional de pressão. Nos bastidores, diplomatas resumem o cenário em duas palavras: “pressão máxima”.
A avaliação é de que Washington poderá combinar ações diplomáticas, administrativas e econômicas com uma ofensiva política e de comunicação para ampliar o desgaste do governo brasileiro.
Segundo essa leitura, a estratégia não dependeria de uma única medida de grande impacto, mas de uma sequência de iniciativas capazes de intensificar o debate sobre o cenário político brasileiro, fortalecer discursos de perseguição política e ampliar questionamentos sobre o processo eleitoral.
No entendimento do governo, esse ambiente acabaria favorecendo politicamente o senador Flávio Bolsonaro (PL). A avaliação é que cada novo episódio de tensão entre Brasília e Washington reforçaria sua narrativa de perseguição política, de continuidade do legado do ex-presidente Jair Bolsonaro e de alinhamento com setores da direita internacional. Integrantes do governo também consideram que esse contexto pode alimentar discursos de desconfiança em relação ao resultado das eleições, especialmente em caso de derrota da oposição.
No Itamaraty, a interpretação é de que o Brasil se tornou um dos principais focos de resistência ao avanço de governos de direita na América Latina. Diplomatas avaliam que diversos países da região estão politicamente alinhados ao presidente norte-americano Donald Trump, tornando a disputa eleitoral brasileira um tema de relevância estratégica no cenário regional.
Autoridades brasileiras ressaltam, contudo, que essa análise não significa que todas as ações de lideranças conservadoras da América Latina sejam coordenadas diretamente pela Casa Branca. A percepção é de que existe uma articulação política internacional entre grupos da direita, que atuariam de forma convergente no apoio a candidaturas, na difusão de narrativas e na pressão sobre governos de esquerda.
Nesse contexto, o governo também inclui a atuação do presidente da Argentina, Javier Milei. A avaliação é de que, além do alinhamento ideológico com Donald Trump e com o bolsonarismo, Milei teria interesse político em intensificar o confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deslocando a atenção de problemas enfrentados por seu governo no cenário interno argentino.
Nos bastidores do Planalto, a conclusão é de que a crise bilateral entre Brasil e Estados Unidos ainda está em desenvolvimento e que novos episódios de tensão são considerados não apenas possíveis, mas esperados nas próximas semanas.
