No verão brasileiro, aliviar o calor costuma significar recorrer à piscina, manter o ventilador ligado durante a noite ou investir em um ar-condicionado potente. Para um grupo cada vez maior de milionários e bilionários ao redor do mundo, porém, a solução tem sido criar um verdadeiro inverno particular dentro de casa.
Conhecido como quarto de neve, o ambiente reproduz uma paisagem de inverno em espaço fechado. A estrutura funciona como o oposto de uma sauna: mantém temperaturas negativas e produz neve real, com flocos caindo do teto para proporcionar uma experiência semelhante à de uma nevasca.
Com o aumento das temperaturas em diversas regiões do planeta, mansões, coberturas e até iates de luxo passaram a incorporar esse tipo de instalação.
Existe quarto de neve no Brasil?
Até o momento, não há registro conhecido da instalação de um quarto de neve em território brasileiro.
Consultadas pela BBC News Brasil, duas das principais empresas do segmento — a italiana TechnoAlpin e a americana Spa Butler — informaram que nunca realizaram projetos desse tipo no país. Isso, no entanto, não descarta a possibilidade de alguma outra empresa ter executado uma instalação semelhante.
A Spa Butler afirmou apenas que já recebeu consultas de clientes da América do Sul, mas nenhuma delas evoluiu para um projeto no Brasil.
Embora existam clínicas e spas brasileiros que ofereçam sessões de crioterapia, a experiência é diferente. Esses tratamentos utilizam banheiras com água gelada, normalmente entre 4°C e 15°C, ou câmaras de corpo inteiro que funcionam com nitrogênio líquido e podem atingir temperaturas entre -80°C e -190°C por poucos minutos.
Nos quartos de neve, por outro lado, o diferencial está na produção de neve real e na criação de um ambiente que simula o inverno, proporcionando uma experiência sensorial completa.
Quanto custa instalar um quarto de neve?
A TechnoAlpin, conhecida mundialmente pela fabricação de canhões de neve utilizados em estações de esqui, adaptou essa tecnologia para ambientes internos há cerca de dez anos.
Segundo Elisabeth Steger, diretora de desenvolvimento de negócios da divisão de neve indoor da empresa, os quartos de neve foram inicialmente desenvolvidos para spas e centros de bem-estar.
“Nossos quartos de neve nasceram no setor profissional de bem-estar e spa. Em vários países, eles são usados como uma forma suave de baixar a temperatura do corpo depois da sauna, fazendo parte de protocolos modernos de terapia de contraste”, afirmou à BBC News Brasil.
A empresa comercializa modelos como o Snowroom, mantido a -10°C com neve produzida diariamente, e o Snowsky, que recria uma nevasca contínua com efeitos de iluminação.
Nos Estados Unidos, a Spa Butler se especializou na instalação desses ambientes em residências de alto padrão, iates e spas exclusivos.
Segundo Tyler Slater, sócio-fundador e diretor de operações da empresa, um quarto de neve com dimensões aproximadas de 2,1 metros por 3 metros custa a partir de US$ 128 mil, cerca de R$ 653 mil.
Projetos personalizados, com acabamentos em mármore, pedra natural ou madeira, podem ultrapassar US$ 300 mil (aproximadamente R$ 1,53 milhão).
A instalação exige uma infraestrutura complexa, incluindo sistema próprio de refrigeração comercial, rede elétrica dedicada, drenagem, ventilação e isolamento térmico reforçado.
Mansões e iates já contam com a tecnologia
Um dos exemplos mais conhecidos é o do bilionário indiano Mukesh Ambani, que instalou um quarto de neve em Antilia, sua residência de 27 andares localizada em Mumbai.
Outro caso famoso é o do superiate Serene, de 134 metros de comprimento, atualmente pertencente ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. A embarcação possui um ambiente mantido a aproximadamente -11°C.
Antes de ser adquirido pelo príncipe saudita, o iate pertencia ao empresário russo Yuri Shefler e chegou a ser alugado pelo empresário Bill Gates por valores que, segundo o The New York Times, alcançavam até US$ 5 milhões por semana.
Nos Estados Unidos, a empresária Katelin Schebler também instalou um iglu particular em sua residência.
“É uma tempestade agradável, não uma nevasca de verdade. É algo que dá vontade de aproveitar”, afirmou ao jornal americano.
Especialistas do mercado de embarcações de luxo afirmam que o perfil dos compradores também mudou nos últimos anos.
“Antes, o design de um iate girava em torno de festas e bares. Hoje o foco está muito mais em saúde e longevidade”, disse Kevin Kramer, corretor da Burgess Yachts, em Aspen, no Colorado.
Segundo fabricantes do setor, a proposta dos quartos de neve segue a mesma lógica das saunas e das banheiras de gelo, combinando estímulos de calor e frio para favorecer protocolos de contraste utilizados em centros de bem-estar.
“É a mesma coisa que a sauna faz com o calor — o quarto de neve faz com o frio. E, como a sauna, também vira ponto de encontro social”, afirma Alina Hernandez, diretora de inovação da Touchless Wellness Association, em material divulgado pela TechnoAlpin.
