O Brasil atingiu a cota de exportação de carne bovina estabelecida pela China em uma salvaguarda anunciada no fim do ano passado. Com isso, os carregamentos brasileiros que desembarcarem nos portos chineses passarão a pagar uma sobretaxa de 55% até o fim do ano.
Segundo informações divulgadas pela Folha de S. Paulo, a medida entra em vigor em 1º de outubro, após os embarques brasileiros atingirem o limite estabelecido nesta terça-feira (29), segundo o Ministério do Comércio da China. Além da sobretaxa, incide uma tarifa de importação de 12%.
Diante da nova cobrança, o governo brasileiro busca utilizar cotas remanescentes de outros países. A possibilidade já havia sido rejeitada por Pequim anteriormente.
Na segunda-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Uruguai havia concordado com o uso, pelo Brasil, de parte de sua cota não utilizada.
“Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, escreveu Lula em uma publicação no X.
A chancelaria uruguaia, porém, informou que o país apenas concordou em apresentar a Pequim o pedido para utilização do remanescente. Segundo o governo uruguaio, a decisão cabe exclusivamente às autoridades chinesas, que ainda não haviam se manifestado.
Cota foi atingida antes do fim do ano
O governo brasileiro e o setor pecuário já esperavam que o limite fosse alcançado antes do encerramento do ano. A cota anual estabelecida pela China corresponde a cerca de 65% do volume de carne bovina exportado pelo Brasil ao país em 2025.
O regime chinês determinou que a sobretaxa seria aplicada quando o Brasil atingisse 1,1 milhão de toneladas exportadas em 2026.
Em 2025, a China respondeu por 48% do volume total de carne bovina exportado pelo Brasil, com 1,68 milhão de toneladas, avaliadas em US$ 8,9 bilhões.
Para reduzir os impactos da medida, frigoríficos diminuíram o ritmo de produção, adotando medidas como férias coletivas para funcionários e paralisações temporárias em algumas unidades.
Desde o estabelecimento da cota, o governo brasileiro realizou negociações com autoridades chinesas em busca de alternativas para reduzir os efeitos da salvaguarda sobre o setor, mas as tratativas não produziram resultados.
Salvaguarda chinesa
A salvaguarda foi criada com o objetivo de reduzir os impactos sobre a indústria chinesa diante do aumento da entrada de carne bovina importada no mercado.
A medida atinge diversos países, mas prevê exceção para nações em desenvolvimento que tenham participação de até 3% do total de carne importada pela China, desde que a soma das participações dos países beneficiados não ultrapasse 9%.
A iniciativa também integra uma estratégia chinesa de diversificação de fornecedores e redução da dependência de poucos países. Atualmente, o Brasil é a principal origem de produtos considerados importantes para o mercado chinês, como carne bovina e soja.
A China afirma que a diversificação dos fornecedores faz parte de sua estratégia para garantir a segurança alimentar. A medida tem gerado preocupação entre o governo brasileiro e o setor agropecuário.
Brasil busca novos mercados
Com a salvaguarda prevista para vigorar até 2028, o governo e o setor pecuário brasileiro buscam ampliar as vendas para outros mercados e reduzir a dependência das exportações para a China.
Entre os possíveis compradores está os Estados Unidos, onde a redução do rebanho e a demanda interna têm levado o país a buscar carne no exterior. A Coreia do Sul também aparece entre os mercados em negociação.
Outro movimento foi a habilitação de 21 frigoríficos brasileiros para exportar carne bovina à Indonésia, anunciada pelo Ministério da Agricultura na quinta-feira (10). Com a medida, o número de plantas brasileiras habilitadas a atender ao mercado indonésio chegou a 73.
