Grandes veículos de comunicação internacionais, entre eles USA Today, Politico, The Economist, People e Reuters, estudam limitar ou até encerrar parte de suas parcerias com o Google diante do avanço das ferramentas de inteligência artificial da empresa. A informação foi divulgada pelo Wall Street Journal.
Segundo a publicação, o movimento reflete a crescente insatisfação de empresas de mídia com a Alphabet, controladora do Google. Os grupos afirmam que o buscador deixou de ser uma fonte confiável de audiência após a expansão dos recursos de IA, que passaram a responder diretamente às perguntas dos usuários, reduzindo o número de acessos aos sites jornalísticos.
Na avaliação das empresas, essa mudança tem provocado queda no tráfego orgânico e afetado diretamente os modelos de receita baseados em publicidade.
Para David Buttle, CEO da consultoria DJB Strategies, o problema representa uma ameaça significativa para parte do setor editorial.
“Para algumas categorias de publishers, trata-se de uma questão existencial. Por isso, eles começam a considerar medidas mais drásticas”, afirmou Buttle ao Wall Street Journal.
Reddit e USA Today estudam restringir acesso do Google
O Reddit, uma das principais fontes de conteúdo indexado pelo Google, também avalia bloquear o acesso da empresa ao material publicado na plataforma para utilização em sistemas de inteligência artificial, segundo fontes ouvidas pelo Wall Street Journal.
Em 2024, a plataforma firmou um acordo estimado em US$ 60 milhões por ano para permitir que o Google utilizasse seu conteúdo no treinamento de modelos de IA. Com o contrato próximo do vencimento, executivos passaram a questionar os benefícios da parceria diante da redução do tráfego direcionado pelo buscador.
Já a USA Today analisa bloquear o rastreador do Google em seus sites. Caso a medida seja implementada, o conteúdo da empresa deixará de aparecer tanto nos resultados tradicionais quanto nos resumos gerados por inteligência artificial.
Dados da consultoria Semrush apontam que o tráfego orgânico vindo do Google para a edição nacional do USA Today caiu quase 50% entre junho de 2025 e junho de 2026.
“Chegou o momento de traçar um limite. Já basta”, declarou o CEO da USA Today, Mike Reed, ao Wall Street Journal.
Politico e Reuters também discutem mudanças
No Politico, controlado pelo grupo alemão Axel Springer, cresce o debate sobre restringir o acesso de robôs de busca ao conteúdo gratuito. Entre as alternativas analisadas está a exigência de cadastro para leitura das reportagens.
A Reuters também estuda bloquear o rastreador do Google em seu portal de notícias voltado ao público geral. Segundo o presidente da agência, Paul Bascobert, a empresa avalia o impacto financeiro de permanecer nas buscas tradicionais diante do crescimento das respostas produzidas por inteligência artificial.
“Estamos analisando cuidadosamente os custos e benefícios econômicos de permanecer nas buscas tradicionais em comparação com os resumos gerados por inteligência artificial”, afirmou ao Wall Street Journal.
Cresce disputa pelo uso de conteúdo na IA
O debate ocorre em um momento em que robôs automatizados já representam mais da metade do tráfego global da internet, segundo dados da Cloudflare.
Parte desses sistemas coleta conteúdos para treinamento de modelos de inteligência artificial, enquanto outros rastreiam páginas para responder perguntas dos usuários ou comercializar informações para terceiros.
Embora as editoras possam impedir que seus conteúdos sejam utilizados para treinar sistemas de IA, restringir totalmente o acesso dos robôs também pode fazer com que deixem de aparecer nos resultados tradicionais do Google.
Google anuncia mudanças
Em resposta às críticas, o Google informou que passará a oferecer, inicialmente no Reino Unido, uma opção para que editoras escolham participar — ou não — dos recursos de inteligência artificial sem perder espaço nos resultados tradicionais de busca.
A Reuters informou que pretende testar essa alternativa antes de decidir sobre uma eventual adoção em outros mercados.
A revista The Economist também analisa o novo modelo. Segundo Josh Muncke, vice-presidente de IA generativa da publicação, o desafio é avaliar os impactos de permanecer ou sair das funcionalidades de inteligência artificial da plataforma.
“O Google continua sendo uma força muito poderosa. O tráfego pode oscilar e estar em queda, mas ainda é tráfego”, afirmou.
Outros grupos adotaram estratégias diferentes. A revista People buscou compensar a perda de audiência ampliando receitas com eventos, redes sociais e aplicativos. Já a revista Time passou a utilizar anúncios em formato exclusivamente textual, projetados para serem identificados por robôs de inteligência artificial durante o rastreamento de conteúdo.
Em nota ao Wall Street Journal, o Google afirmou que suas ferramentas baseadas em IA continuam direcionando “bilhões de cliques para a web todas as semanas”. A empresa também destacou que oferece mecanismos para que proprietários de sites controlem o uso de seus conteúdos e informou manter programas de remuneração para mais de 200 veículos de comunicação que autorizam a utilização de seus materiais no treinamento de sistemas de inteligência artificial.
