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Início Mundo

Brasil tirava proveito comercialmente dos EUA há décadas, entenda

Por Junior Melo
24/jul/2026
Em Mundo
Bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos

Divulgação/Embaixada dos EUA/Agência Brasil

Bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos Divulgação/Embaixada dos EUA/Agência Brasil

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Novamente alvo de tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, o Brasil acumula um déficit de US$ 144 bilhões (cerca de R$ 734 bilhões) em quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos. Os dados mostram que a balança comercial favorece Washington, que registrou superávit em 26 dos 41 anos da série histórica do Departamento do Censo dos EUA.

Quando também são considerados os serviços, a vantagem americana é ainda maior. Entre 2000 e 2025, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 480 bilhões (aproximadamente R$ 2,4 trilhões) na relação comercial com o Brasil, segundo o Departamento de Análise Econômica (BEA). Mesmo assim, o governo americano impôs uma nova tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras e outra de 12,5%, relacionada a alegações sobre falhas no combate ao trabalho escravo.

Durante sabatina no Senado dos EUA, o indicado para a embaixada americana no Brasil, Daniel Perez, reconheceu que seu país mantém um superávit expressivo na relação comercial, mas evitou justificar as novas tarifas.

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“Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas”, afirmou.

O representante do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, também reconheceu o superávit americano, mas defendeu que ainda existem barreiras ao comércio dos EUA.

“Temos superávit nessa relação. Mas há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias”, declarou.

Relação comercial mudou ao longo das décadas

Segundo especialistas, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos passou por diferentes fases nas últimas décadas.

A cientista política Cristina Pecequilo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que as oscilações independem do partido que ocupa a Casa Branca.

“Essas oscilações independem, do lado americano, de ser um governo democrata ou republicano. O que elas vão levar em conta é o nível de autonomia do Brasil”, afirma.

Entre 1985 e 1995, o Brasil registrou superávits comerciais com os Estados Unidos. O cenário começou a mudar durante o governo Fernando Henrique Cardoso, período marcado pelo aumento das importações brasileiras de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e produtos de telecomunicações americanos.

O país voltou a registrar saldo positivo em 2002 e atingiu seu maior superávit em 2005, impulsionado pelas exportações de minério de ferro, petróleo, ouro e café.

A partir de 2008, porém, após a crise financeira internacional, os Estados Unidos passaram a registrar superávits consecutivos na balança de bens com o Brasil. Em 2025, o déficit brasileiro alcançou US$ 14,4 bilhões, mais que o dobro do registrado no ano anterior.

No setor de serviços, a vantagem americana é ainda mais ampla. Em 2025, os EUA registraram superávit recorde de US$ 27,4 bilhões (R$ 139 bilhões) na relação com o Brasil.

Os dados parciais de 2026 indicam que o Brasil já figura como o sexto maior gerador de superávit comercial para os Estados Unidos, embora seja o segundo parceiro comercial mais taxado pelo governo americano, atrás apenas da China.

Tarifas vão além da balança comercial

Para o economista Tomás Marques, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), as tarifas não têm como objetivo principal corrigir um déficit comercial.

“Os percentuais são arbitrários. O objetivo é mexer no jogo e renegociar a partir da posição dos Estados Unidos como grande importador. Tarifas e comércio exterior são instrumentos para tentar reorganizar a indústria e recuperar competitividade”, afirma.

Segundo ele, isso explica a lista de exceções criada pelo USTR, que preserva cerca de 2.100 produtos, como commodities agrícolas, minerais e metais considerados estratégicos para o mercado americano.

De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, apenas cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos serão efetivamente atingidas pelas novas tarifas.

Para Cristina Pecequilo, o comércio representa apenas parte da disputa.

“O comércio é o que está menos em jogo. Os Estados Unidos usam o ambiente comercial para pressionar o Brasil em outros setores”, afirma.

Etanol e agronegócio estão entre os focos

A investigação conduzida pelo USTR cita temas que vão além das exportações de mercadorias, incluindo o Pix, a regulação das plataformas digitais e questões relacionadas ao combate à corrupção.

Entre os produtos, um dos principais focos é o etanol. Os Estados Unidos alegam que o Brasil retirou, em 2017, o tratamento tarifário especial concedido ao combustível americano.

Para o historiador Leonardo Trevisan, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o etanol representa uma disputa maior.

“O ‘xis’ da história é o brutal crescimento do agronegócio brasileiro”, afirma.

Segundo ele, a agricultura americana enfrenta forte concorrência dos produtos brasileiros, fator que possui grande peso político nos Estados Unidos.

O próprio chefe do USTR, Jamieson Greer, reconheceu essa disputa.

“Eles [Brasil] são concorrentes dos Estados Unidos, especialmente na agricultura. Sempre que tentamos vender nossas commodities no exterior, competimos com os brasileiros”, declarou.

Especialistas apontam impactos para os dois países

Na avaliação dos especialistas, o Brasil possui menor poder de barganha nas negociações, mas ambos os países tendem a sofrer prejuízos.

Tomás Marques destaca que empresas americanas possuem forte presença na economia brasileira, enquanto Leonardo Trevisan lembra que o Brasil é atualmente o principal fornecedor de pelo menos 11 produtos para o mercado dos Estados Unidos.

Segundo ele, cerca de 6 mil empresas americanas mantêm cadeias produtivas integradas com o Brasil, tornando a relação econômica relevante para ambos os lados.

Para Cristina Pecequilo, os Estados Unidos também enfrentam custos ao ampliar as tensões comerciais.

“Quem vai resistir mais? Os Estados Unidos, do ponto de vista interno, têm um custo alto ao perder um parceiro importante com o qual mantêm superávit e ao aumentar a autonomia política e econômica do Brasil”, afirma. Ela ressalta, porém, que os impactos sobre a economia brasileira também são significativos.

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