Um biólogo português viu fotos de um túnel verde formado por mais de 100 tipuanas e chamou a Rua Gonçalo de Carvalho de “a rua mais bonita do mundo”. A fama viralizou, mas quem visita Porto Alegre percebe que a capital gaúcha esconde muitos outros superlativos: a maior feira de livros a céu aberto das Américas, um parque que nasceu da abolição da escravatura em 1884 e um museu premiado com o Leão de Ouro de Veneza.
Uma capital fundada por casais açorianos perdidos
Em 1752, sessenta casais açorianos atravessaram o Atlântico com destino às Missões, no noroeste gaúcho. A demarcação das terras atrasou e as famílias ficaram no povoado às margens do Guaíba, então chamado de Porto de Viamão. Em 1772, o lugar foi elevado a freguesia com o nome de São Francisco do Porto dos Casais. Virou capital da capitania no ano seguinte e só ganhou o nome atual em 1894.
A história moldou o centro, onde mais de 80% do patrimônio arquitetônico da cidade se concentra. O Theatro São Pedro, inaugurado em 1858, é um dos teatros mais preservados do país. O Palácio Piratini, sede do governo desde 1921, ocupa a Praça da Matriz ao lado da Catedral Metropolitana, cuja cúpula atinge 65 metros de altura.
O que visitar entre parques e museus à beira do Guaíba?
Porto Alegre reúne natureza e cultura em distâncias curtas. Boa parte dos atrativos pode ser percorrida a pé, saindo do centro.
- Orla do Guaíba: 72 km de extensão revitalizada com pistas de caminhada, ciclismo e restaurantes. O pôr do sol visto daqui é considerado um dos mais bonitos do Brasil.
- Parque Farroupilha (Redenção): 37,5 hectares com mais de 10 mil árvores, lago com pedalinhos, 38 monumentos e o Auditório Araújo Vianna. O nome Redenção homenageia a libertação dos escravos do terceiro distrito da capital, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.
- Rua Gonçalo de Carvalho: 500 metros de túnel verde formado por 156 tipuanas, plantadas na década de 1930. Patrimônio Ambiental da cidade desde 2006, primeira via urbana da América Latina com essa distinção.
- Fundação Iberê Camargo: museu projetado por Álvaro Siza Vieira, vencedor do Pritzker. O edifício de concreto branco, às margens do Guaíba, levou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza em 2002. Entrada gratuita às quintas.
- Casa de Cultura Mario Quintana: antigo Hotel Majestic transformado em centro cultural, com galerias, cinema e o quarto preservado do poeta gaúcho.
Porto Alegre é uma capital pulsante que mistura a tradição gaúcha com uma vida urbana diversificada e acolhedora. O vídeo é do canal Olga Do Brasil, com mais de 200 mil inscritos, e apresenta o Mercado Público, a Orla do Guaíba e a vibrante atmosfera cultural da Casa de Cultura Mario Quintana:
Mercado Público: 156 anos de história em cada banca
Inaugurado em 1869, o Mercado Público resistiu a quatro incêndios e a um plano de demolição durante a ditadura militar. Hoje, mais de 100 bancas vendem erva-mate, especiarias, frutos do mar e produtos coloniais. O Gambrinus, restaurante mais antigo do Rio Grande do Sul, funciona ali desde 1889, quando uma confraria de imigrantes alemães pediu à intendência um espaço para beber cerveja e petiscar. Portugueses assumiram o ponto em 1964 e transformaram o cardápio: bolinho de bacalhau e linguado ao molho de camarão são os campeões de pedidos.
A maior feira de livros a céu aberto das Américas
Todo outubro e novembro, a Praça da Alfândega se transforma na Feira do Livro de Porto Alegre, realizada sem interrupção desde 1955. O jornalista Say Marques criou o evento com 14 barracas de madeira e um lema direto: “Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”. O livro mais vendido na primeira edição foi O Pequeno Príncipe. Em 1956, o escritor Erico Veríssimo inaugurou as sessões de autógrafos, tradição que segue até hoje. A Feira é considerada o evento literário mais antigo do país em atividade contínua.
Churrasco com vista para o Guaíba
A gastronomia porto-alegrense vai além do churrasco, mas ele é o ponto de partida.
- Churrascarias: cortes nobres servidos no rodízio com acompanhamento de saladas e massas. O ritual inclui o chimarrão antes da refeição.
- Cais Embarcadero: complexo gastronômico na orla com restaurantes e lancherias em contêineres, dividido entre a Travessa Pôr do Sol e a Alameda Gourmet.
- Brique da Redenção: feira de artesanato e antiguidades aos domingos na Avenida José Bonifácio, com barracas de comida regional. Existe desde 1978 e é Patrimônio Cultural do Rio Grande do Sul.
- Gambrinus: no Mercado Público, o restaurante de 1889 serve pratos portugueses e peixes do dia a preços acessíveis.
Quando ir e o que esperar do clima?
Porto Alegre tem as quatro estações bem definidas. O verão é quente e úmido, o inverno pode registrar mínimas próximas de 5 °C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à capital gaúcha?
O Aeroporto Salgado Filho recebe voos de todo o Brasil e está a 6 km do centro. De carro, a BR-290 (Freeway) liga Porto Alegre ao litoral gaúcho, enquanto a BR-101 conecta a capital a Florianópolis (460 km) e Curitiba (710 km). Gramado e Canela, na Serra Gaúcha, ficam a cerca de 120 km pela RS-020.
A capital que abraça pelo Guaíba
Porto Alegre é uma cidade que se revela aos poucos. O centro histórico guarda séculos em cada esquina, a Redenção carrega no nome a memória da liberdade, e o Guaíba emoldura tudo com um pôr do sol que silencia a cidade inteira. A gastronomia, os museus e a vida literária completam uma capital que merece mais do que uma escala.
Você precisa sentar na orla com um chimarrão, esperar o sol mergulhar no Guaíba e entender por que os gaúchos defendem essa cidade com tanto orgulho.