Carros não entram em Morro de São Paulo. Quem desembarca do catamarã encontra ruas de pedra, bagagem em carrinho de mão e cinco praias tão bem organizadas que dispensam nomes: são numeradas de 1 a 5. O vilarejo no Nordeste, encravado na Ilha de Tinharé, no município de Cairu, na Bahia, guarda ruínas coloniais do século XVII, um mar calmo o ano inteiro e a energia de um destino que mistura festa, história e dendê no mesmo prato.
De refúgio contra piratas a paraíso sem automóveis
Martim Afonso de Sousa desembarcou na ilha em 1531 e a batizou de Tinharé, palavra tupi que significa “aquela que avança sobre o mar”. A posição estratégica na entrada da Baía de Todos os Santos atraiu corsários holandeses e franceses ao longo de dois séculos. Em 1630, o governador-geral ordenou a construção da Fortaleza do Tapirandu, que conserva até hoje cerca de 678 metros de muralhas.
Uma lenda local conta que, em 1628, o almirante holandês Pieter Heyn enviou navios para saquear a vila. Os invasores teriam avistado o que parecia um batalhão na costa e desistiram do ataque. Os moradores atribuíram a miragem a um milagre de Nossa Senhora da Luz, padroeira do vilarejo. A Fonte Grande, construída em 1746, foi o primeiro sistema público de distribuição de água da Bahia colonial. Já a luz elétrica só chegou à ilha em 1985.
O que visitar nas praias numeradas e além delas?
Cada praia tem personalidade própria. O mar é calmo em todas, o ano inteiro. As atrações históricas ficam concentradas no centrinho, entre o cais e a Primeira Praia.
- Primeira Praia: a 300 m do centro, é o point dos surfistas e o ponto de chegada da tirolesa que desce do Farol, com 340 m de extensão e cerca de 50 m de altura, a maior tirolesa dentro d’água do Brasil.
- Segunda Praia: coração da ilha. Barracas, música ao vivo, festas e luaus que varam a madrugada. De dia, frescobol, vôlei e kitesurf.
- Terceira Praia: mar calmo e ponto de partida para passeios de lancha. A Ilha de Caitá, em frente, tem recifes de corais e é um dos melhores pontos de mergulho da região.
- Quarta Praia: extensa e quase deserta, ideal para longas caminhadas e silêncio.
- Fortaleza do Tapirandu: ruínas tombadas pelo IPHAN, com vista para o canal de Tinharé. O pôr do sol visto das muralhas é um ritual diário acompanhado de viola e samba.
- Igreja de Nossa Senhora da Luz: construção iniciada em 1628, concluída apenas em 1845. Altares barrocos e imagens sacras dos séculos XVII e XVIII.
O vídeo é do canal Vamos Fugir Blog, que conta com quase 200 mil inscritos, e apresenta um guia completo de roteiro, custos e experiências, como a famosa tirolesa, o banho de argila na Gamboa e a vibrante vida noturna da ilha:
Volta à ilha e piscinas naturais completam o roteiro?
Sim. O passeio mais procurado é a Volta à Ilha, que leva o dia inteiro de lancha. O roteiro inclui paradas nas piscinas naturais de Garapuá e Moreré, onde recifes de corais formam aquários naturais em pleno mar, e uma visita à vizinha Ilha de Boipeba, ainda mais preservada e rústica que o Morro.
Outra opção é a trilha até a Gamboa, que segue pela costa e passa por um paredão de argila onde visitantes tomam banho de lama. O retorno é de barco, já que a maré sobe e cobre trechos do caminho. Para quem prefere terra firme, passeios de quadriciclo levam até a praia semideserta de Garapuá, a 26 km por trilhas na mata.
Entre julho e outubro, baleias jubarte visitam o litoral baiano para se reproduzir. Passeios de observação saem do Morro em parceria com o Instituto Baleia Jubarte.
Moqueca, lambreta e dendê na mesa da ilha
A culinária mistura tradição baiana com frutos do mar frescos. Restaurantes se espalham pelo centrinho e ao longo da Segunda Praia.
- Moqueca baiana: peixe, camarão ou lagosta cozidos em azeite de dendê, leite de coco e pimenta, servida no prato de barro.
- Bobó de camarão: creme de mandioca com camarões refogados em dendê, acompanhado de arroz branco.
- Lambreta: molusco típico da região, grelhado com limão e manteiga. Servido nas barracas das piscinas naturais.
- Acarajé: bolinho de feijão-fradinho frito no dendê, recheado com vatapá, caruru e camarão seco.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O calor é constante, com temperaturas acima dos 25°C o ano inteiro. A chuva se concentra entre abril e julho, mas raramente impede passeios.
Temperaturas aproximadas às do Climatempo. Condições podem variar conforme frentes frias e regime de marés.
Como chegar ao vilarejo sem carros?
A forma mais popular é o catamarã, que parte do Terminal Turístico Náutico, atrás do Mercado Modelo em Salvador. A travessia dura cerca de 2h30. Outra opção é o trajeto por terra: van até Valença (cerca de 4h) e lancha rápida até o Morro (15 minutos). Há também voos para o Aeroporto Regional de Valença. Na ilha, deslocamentos maiores são feitos de trator, quadriciclo ou barco-táxi.
Onde a bagagem chega em carrinho de mão
Morro de São Paulo prova que um destino pode ser completo sem asfalto, sem automóveis e sem pressa. A fortaleza de quase quatro séculos, as cinco praias de mar manso e o vilarejo iluminado por luzes de festa compõem um lugar que se entende melhor descalço.
Você precisa descer do catamarã, entregar a mala ao carregador e caminhar até a Segunda Praia para sentir o que é um destino onde o tempo obedece ao ritmo da maré.