No coração da Bahia, a cerca de 420 km de Salvador, um planalto de paredões de arenito guarda o maior parque de aventura a céu aberto como um paraíso no Nordeste. A Chapada Diamantina reúne três biomas, centenas de cachoeiras e grutas subterrâneas onde a luz do sol transforma a água em espelho azul.
De onde veio o nome que carrega diamantes na história
Em 1844, garimpeiros encontraram as primeiras pepitas de diamante às margens do rio Mucugê. A notícia se espalhou rápido. Em poucos anos, Lençóis se tornou a maior produtora mundial de diamantes e a terceira cidade mais importante da Bahia. Comerciantes franceses, ingleses e alemães chegaram à serra em busca das pedras, e a França instalou um vice-consulado na cidade para facilitar os negócios.
A riqueza durou cerca de 25 anos. A concorrência das minas sul-africanas, a partir de 1865, esvaziou as lavras. Hoje, os casarões do século XIX que restaram são tombados pelo IPHAN e abrigam pousadas e restaurantes. Ex-garimpeiros viraram guias de turismo, e o ciclo da pedra cedeu lugar ao ciclo da trilha.
O que visitar em uma região com mais de 300 cachoeiras?
O Parque Nacional da Chapada Diamantina, criado em 1985, protege 152 mil hectares da Serra do Sincorá. São quase 300 km de trilhas, 33 cachoeiras catalogadas dentro do parque e dezenas de grutas. A lista abaixo destaca atrações para diferentes perfis de viajante.
- Morro do Pai Inácio: cartão-postal da Chapada, com 1.120 m de altitude e vista de 360 graus da serra. Trilha curta de 400 m a partir da BR-242. O pôr do sol ali é considerado o mais bonito da região.
- Cachoeira da Fumaça: cerca de 380 m de queda livre, acessível por trilha de 5 km a partir do Vale do Capão. A água se dissipa no ar antes de tocar o poço, formando uma névoa que deu nome à cachoeira.
- Poço Azul: caverna submersa em Nova Redenção com águas tão transparentes que o fundo se vê a 18 m. É o maior sítio paleontológico submerso do Brasil, com fósseis de mais de 40 espécies pré-históricas, incluindo uma preguiça terrícola de 6 m.
- Poço Encantado: em Itaetê, um feixe de luz solar atravessa a caverna entre abril e setembro e tinge a água de azul turquesa. Não é permitido banho, apenas contemplação.
- Cachoeira do Buracão: em Ibicoara, exige trilha de 7 km e acompanhamento de guia local. O cânion estreito que emoldura a queda d’água é um dos cenários mais fotografados da Chapada.
- Igatu: apelidada de Machu Picchu baiana, a vila preserva ruínas de pedra do tempo do garimpo e um museu a céu aberto chamado Galeria Arte e Memórias.
Informações de visitação estão disponíveis no site do ICMBio. A entrada no parque é gratuita, mas a contratação de guia é recomendada: não há sinal de celular nem sinalização em boa parte das trilhas.
A Chapada Diamantina surpreende por sua história e cenários épicos. O vídeo é do canal Rolê Família, que conta com mais de 73 mil inscritos, e apresenta trilhas, vilas históricas e a produção de cafés na região:
Vale do Pati: por que este trekking atrai gente do mundo inteiro?
O Vale do Pati é considerado um dos trekkings mais bonitos do Brasil. A travessia clássica dura de 3 a 5 dias e cobre 36 km entre vales profundos, mirantes e comunidades rurais onde o tempo parece ter parado. O ponto de partida mais comum é o Guiné, no município de Palmeiras.
A hospedagem acontece em casas de moradores locais, que servem refeições caseiras e mantêm a economia do vale funcionando. Não há eletricidade em boa parte do percurso. Quem completa a travessia costuma dizer que ali entende o tamanho real da Chapada.
Godó de banana e carne de sol: o que se come na serra baiana?
A gastronomia da Chapada Diamantina mistura herança sertaneja e influências africanas. Os pratos carregam a memória dos garimpeiros que viviam das serras e dos rios.
- Godó de banana: ensopado de banana-da-terra com carne seca, prato típico dos antigos garimpeiros. Em Lençóis, é servido no Mercado Municipal.
- Carne de sol com feijão de corda: combinação sertaneja presente em praticamente todos os restaurantes da região.
- Beiju: feito de massa de mandioca na hora, recheado com coco ou queijo.
- Cortado de palma: iguaria do semiárido, à base de palma forrageira refogada.
A Rua das Pedras, em Lençóis, concentra a vida noturna e boa parte dos restaurantes. O clima é descontraído, com música ao vivo e mesinhas na calçada.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio na Chapada?
A Chapada Diamantina pode ser visitada o ano inteiro, mas cada estação entrega uma experiência diferente. No inverno, as águas ficam mais cristalinas; no verão, as cachoeiras ganham volume.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar à Chapada Diamantina saindo de Salvador?
Lençóis fica a 420 km de Salvador pela BR-242, cerca de 6h de carro. Ônibus partem da Rodoviária de Salvador diariamente, com duração semelhante. Há também voos de Salvador para o Aeroporto Horácio de Matos, em Lençóis, com tempo de voo de aproximadamente 1h. De Lençóis, as demais bases, como Mucugê, Andaraí e Vale do Capão, são acessíveis por estradas estaduais.
Leve a Chapada Diamantina no coração
Poucas regiões do Brasil concentram tanta diversidade em um espaço só: cachoeiras que somem no ar, cavernas com fósseis pré-históricos, vilas de pedra que parecem cenário de filme e trilhas que exigem dias de caminhada. A Chapada Diamantina é daqueles destinos que mudam o jeito de olhar para a natureza.
Separe pelo menos cinco dias, calce um bom tênis e vá conhecer a serra que já foi o maior garimpo de diamantes do mundo e hoje brilha por razões muito mais bonitas.