Sapatilhas de balé, cucas saindo do forno e palmeiras imperiais plantadas em 1873 convivem no mesmo endereço. Joinville, no norte de Santa Catarina, é a maior cidade brasileira do estado e carrega o título federal de Capital Nacional da Dança.
De dote real a Cidade das Flores: como tudo começou
A história nasce com um casamento improvável. Em 1843, a princesa Francisca Carolina de Bragança, irmã de Dom Pedro II, casou-se com o príncipe francês François Ferdinand de Orléans. O dote incluía terras no norte catarinense, vendidas depois à Sociedade Colonizadora de Hamburgo.
Em 9 de março de 1851, a barca Colon trouxe os primeiros 118 colonos alemães, suíços e noruegueses. A colônia recebeu o nome de Dona Francisca e depois foi rebatizada como Joinville, o título francês do marido. Dessa herança europeia nasceram as casas em enxaimel e o apelido que acompanha a cidade: Cidade das Flores.
Por que Joinville é a Capital Nacional da Dança?
Porque reúne dois feitos que nenhuma outra cidade brasileira tem. Desde 2000, Joinville sedia a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, a única filial da companhia russa fora de Moscou. A instituição segue a metodologia Vaganova, concede bolsa integral a todos os alunos e já formou quase 480 bailarinos, vários contratados por companhias na Rússia, na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Ao lado dela, todo mês de julho, o Festival de Dança de Joinville transforma a cidade no maior palco do mundo. Reconhecido pelo Guinness World Records desde 2005, o evento reúne mais de 7 mil bailarinos e atrai público superior a 200 mil pessoas em cerca de treze dias. A Lei 13.314/2016 oficializou o que o mundo da dança já reconhecia.
Joinville é a locomotiva econômica de Santa Catarina. O vídeo é do canal Coisas do Mundo, que conta com mais de 800 mil inscritos, e detalha a oferta de empregos, a segurança e o crescimento urbano da cidade:
O que visitar na maior cidade catarinense?
Joinville tem mais de dez museus, parques com mirantes e rotas rurais que justificam ao menos três dias de roteiro.
- Rua das Palmeiras: cartão-postal da cidade, com palmeiras imperiais plantadas em 1873 no coração do centro histórico.
- Museu Nacional de Imigração e Colonização: funciona no Palácio dos Príncipes, tombado pelo IPHAN, com acervo sobre os primeiros colonos europeus.
- Museu Arqueológico de Sambaqui: preserva artefatos de povos que habitaram a região entre dois mil e seis mil anos atrás.
- Mirante da Serra Dona Francisca: localizado na rodovia SC-418, a 750 m de altitude, com vista panorâmica que alcança a Baía da Babitonga em dias claros.
- Parque Municipal Morro do Finder: trilhas em meio à Mata Atlântica e mirante com visão privilegiada de toda a cidade.
Estrada Bonita e o turismo rural que preserva a herança alemã
A 15 minutos do centro, no distrito de Pirabeiraba, a Estrada Bonita oferece 5 km de colinas verdes, riachos e propriedades centenárias. A rota foi fundada em 1885 por imigrantes que trabalharam na construção da estrada de ferro de Paranaguá.
Ao longo do percurso, sete estabelecimentos servem almoços com marreco recheado, joelho de porco e chucrute, ou os tradicionais cafés coloniais com cucas, geleias e pães caseiros. O Museu Duas Rodas, dentro do Recanto Gehrmann, exibe um acervo de mais de 200 motos e bicicletas antigas. Quem prefere a rota da Serra Dona Francisca encontra cachaçarias artesanais e o Vale das Pitaias, com mais de 20 variedades da fruta.
Que sabores experimentar na Cidade das Flores?
A mesa joinvilense mistura tradição germânica com ingredientes da costa catarinense. A Via Gastronômica, na Rua Visconde de Taunay, concentra restaurantes variados em pouco mais de 2 km.
- Marreco recheado: prato mais tradicional da cidade, servido com repolho roxo e purê de maçã.
- Cuca: bolo alemão com fermento biológico e cobertura de farofa crocante, em sabores que vão de banana a goiabada.
- Chineque: massa enrolada cujo nome vem do alemão Schnecke (caracol), encontrada em padarias do centro e nos cafés rurais.
- Rollmops: peixe em conserva de tradição europeia, servido como entrada em restaurantes típicos.
Festa das Flores: a mais antiga do Brasil no gênero
Todo mês de novembro, Joinville se transforma num grande jardim. A Festa das Flores nasceu em 1936 como uma exposição de orquídeas criada por imigrantes apaixonados pela flora nativa. Em 85 edições, o evento só foi interrompido durante a Segunda Guerra Mundial e na pandemia de Covid-19.
A estrela da festa é a Laelia purpurata, orquídea símbolo de Joinville e de Santa Catarina. Cerca de 30 mil plantas compõem a exposição, que recebe aproximadamente 80 mil visitantes. Desde 2009, o evento é reconhecido como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Estado pela Lei Estadual 14.697.
Quando ir a Joinville e o que esperar do clima?
O apelido carinhoso “Chuville” existe por um motivo: chove o ano inteiro. O clima subtropical úmido pede guarda-chuva em qualquer estação, mas cada período tem seu charme.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Capital da Dança?
Joinville fica a 130 km de Curitiba e a 180 km de Florianópolis, ambas pela BR-101, cerca de 2h de carro. O Aeroporto Lauro Carneiro de Loyola opera voos diretos para São Paulo e Campinas. Ônibus partem das rodoviárias de Curitiba e Florianópolis com frequência ao longo do dia.
A cidade onde fábricas e sapatilhas dividem o mesmo palco
Poucas cidades brasileiras reúnem o peso de um parque industrial de classe nacional com a leveza de uma escola de balé reconhecida no mundo inteiro. Joinville junta tudo isso a jardins centenários, cucas saindo do forno e mirantes que alcançam a serra e o mar.
Você precisa subir ao mirante da Serra Dona Francisca, provar o marreco recheado em Pirabeiraba e sentir por que a Cidade das Flores faz quem visita querer voltar.