Um platô de pedra negra emerge acima das nuvens na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. O Monte Roraima, com 2.810 metros de altitude, é um tepui, uma montanha em formato de mesa esculpida pelo vento e pela chuva ao longo de cerca de 2 bilhões de anos. Apenas 5% de sua área pertence ao território brasileiro, mas é dali que parte a aventura mais extraordinária do norte do país.
O que é um tepui e por que o Roraima é diferente de qualquer montanha?
Tepui vem da língua dos Pemon e significa “casa dos deuses”. São montanhas tabulares do Escudo das Guianas, formadas no período Pré-Cambriano, quando a vida na Terra ainda era microscópica. O isolamento provocado por paredões verticais de até 1.000 metros criou um ecossistema único no topo: plantas carnívoras, sapos negros que não pulam e cristais de quartzo espalhados pelo chão.
O platô de aproximadamente 31 km² funciona como uma ilha no céu. Foi esse cenário que inspirou o escritor escocês Arthur Conan Doyle a criar o romance O Mundo Perdido, em 1912, e a Pixar a desenhar a montanha do filme Up: Altas Aventuras. O primeiro a alcançar o topo e documentar suas espécies foi o botânico britânico Everard im Thurn, em 1884.
A Casa de Makunaima: o que o Roraima significa para os povos indígenas?
Para os povos Pemon, Taurepang, Ingarikó e Macuxi, o Monte Roraima é a Casa de Makunaima, o herói criador dos índios Caribes. Os Pemon também o chamam de “Mãe de todas as Águas”, porque de suas bordas nascem rios que alimentam três bacias hidrográficas: Amazonas (Brasil), Orinoco (Venezuela) e Essequibo (Guiana). Na língua taurepangue, Roröimo significa “o grande verde azulado”, referência às cianobactérias que colorem a rocha.
O Parque Nacional do Monte Roraima, criado em 1989 pelo Decreto 97.887, protege 116 mil hectares do lado brasileiro. A área está inteiramente dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e funciona em regime de gestão compartilhada entre ICMBio, FUNAI e a comunidade Ingarikó, conforme registra o WikiParques.
Suba o Monte Roraima, um dos lugares mais antigos e surreais do planeta, onde os paredões tocam as nuvens. O vídeo é do canal Rolê Família, com mais de 70 mil inscritos, e detalha uma expedição de 7 dias, revelando a “La Ventana”, jacuzzis naturais e a conexão profunda com guias indígenas:
O que espera quem chega ao topo do tepui?
O cume é um labirinto de formações rochosas negras esculpidas pelo vento, grutas, lagos e mirantes sobre o abismo. As principais atrações se distribuem ao longo da travessia de topo, que dura entre dois e três dias.
- Vale dos Cristais: caminho coberto por cristais de quartzo branco que brilham sob o sol. É proibido retirar qualquer pedra.
- Jacuzzis: piscinas naturais de água gelada e cristalina com fundo de cristais e algas douradas, usadas pelos trilheiros para banho.
- Marco da Tríplice Fronteira: pilar de concreto onde se encontram Brasil, Venezuela e Guiana. Ali não há aduana nem portão.
- Maverick Stone: ponto mais alto do tepui (2.810 m), com vista panorâmica da Gran Sabana venezuelana.
- La Ventana: mirante natural que emoldura o tepui vizinho Kukenán e o vale entre as duas montanhas.
- El Foso: cratera com água no interior, onde os mais corajosos mergulham na temperatura próxima de zero.
Como funciona o trekking de 6 a 8 dias?
O acesso ao topo se dá exclusivamente pelo lado venezuelano. A expedição parte de Santa Elena de Uairén, na Venezuela, com transporte 4×4 até a comunidade indígena de Paraitepuy. De lá, são cerca de 45 km a pé até o cume, cruzando savana, rios e trechos de floresta. A contratação de guias da etnia Pemon é obrigatória.
O roteiro mais comum dura sete noites: duas de subida, três no topo (com travessia até o lado brasileiro e guianense) e duas de descida. Os acampamentos ficam em grutas naturais como a Gruta do Quati e o Hotel, apelido dado a um abrigo sob rochas perto do cume. Os guias Pemon preparam as refeições nos acampamentos, com cardápio baseado em carboidratos, grãos e proteínas.
Quando a montanha recebe melhor os visitantes?
O clima no topo é imprevisível e pode mudar em minutos. Na base, a temperatura é tropical; no cume, pode chegar perto de 0 °C à noite. O período seco oferece trilhas mais firmes e céu mais aberto.
Temperaturas aproximadas para o topo do tepui. Na base (Santa Elena de Uairén), a média anual fica entre 24 °C e 26 °C. Consulte o Climatempo para condições regionais atualizadas.
Como chegar ao Monte Roraima saindo do Brasil?
O ponto de partida é Boa Vista, capital de Roraima, que possui aeroporto com voos regulares a partir de Manaus e Brasília. De Boa Vista, são cerca de 215 km pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. De lá, mais 15 km até Santa Elena de Uairén. Brasileiros entram na Venezuela apenas com RG, sem necessidade de passaporte ou visto. Agências especializadas em Boa Vista e Santa Elena organizam toda a logística da expedição.
Toque a rocha mais antiga que você já vai conhecer
O Monte Roraima é o tipo de lugar que redefine a noção de tempo. A rocha sob os pés tem 2 bilhões de anos, as plantas ao redor evoluíram isoladas do resto do planeta e o marco de concreto no topo lembra que três países dividem uma montanha que nenhuma fronteira consegue conter.
Você precisa subir o Roraima ao menos uma vez na vida, nem que seja para entender por que os Pemon chamam esse tepui de Casa de Makunaima.