No leste do Tocantins, a 300 km de Palmas, o cerrado abre espaço para um paraíso brasileiro de areias alaranjadas de até 40 metros de altura e piscinas naturais onde a pressão da água impede qualquer corpo de afundar. O Jalapão reúne cinco áreas de conservação em mais de 34 mil km² e recebeu 53.966 visitantes só nas dunas em 2023, segundo o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins).
O cerrado que esconde um deserto de areia dourada
O Parque Estadual do Jalapão foi criado em 12 de janeiro de 2001 pela Lei Estadual 1.203. Com aproximadamente 159 mil hectares concentrados no município de Mateiros, a unidade faz parte de um mosaico que inclui a APA do Jalapão (461 mil hectares) e a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins. Juntas, essas áreas formam o maior trecho contínuo de cerrado em alto grau de conservação do Brasil.
As dunas nasceram da erosão natural das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo. O vento moldou a areia fina ao longo de milhares de anos e criou um cenário que muda de cor conforme o sol se move. No fim da tarde, o dourado vira cobre, e o silêncio só é quebrado pelo vento que desce a serra.
Por que é impossível afundar nos fervedouros?
Os fervedouros são nascentes de rios subterrâneos onde a água brota da areia com pressão suficiente para manter qualquer pessoa na superfície. O fenômeno se chama ressurgência e cria piscinas naturais de tons que variam entre azul-turquesa e verde-esmeralda. O Jalapão concentra mais de uma dezena desses pontos, cada um com personalidade própria.
O Fervedouro do Ceiça, primeiro a ser descoberto, é o maior da região. O Fervedouro Bela Vista é considerado o mais bonito, com vegetação densa ao redor e água cristalina. Cada grupo tem limite de 20 minutos por nascente, e o uso de protetor solar é proibido antes do banho para preservar a qualidade da água.
Quais atrações visitar além das dunas e fervedouros?
O Jalapão vai muito além dos seus dois cartões-postais mais famosos. O roteiro completo pede pelo menos cinco dias e um veículo 4×4 com guia credenciado.
O ouro do cerrado que nasce das mãos quilombolas
O capim dourado não é capim. É uma sempre-viva da família das eriocauláceas (Syngonanthus nitens), nativa das veredas do Jalapão. Suas hastes douradas são costuradas com fibra de buriti pelas artesãs de Mumbuca, que transformam a matéria-prima em cestos, biojoias, chapéus e peças de decoração vendidas em todo o Brasil. Em 2024, Mateiros recebeu por lei federal o título de Capital Nacional do Capim Dourado.
A colheita só é permitida entre 20 de setembro e 20 de novembro, período em que as sementes já amadureceram. Em setembro, a comunidade celebra a Festa da Colheita com música, dança e rodas de conversa. Para quem visita o Jalapão, parar em Mumbuca é mergulhar em uma cultura que sustenta a economia local: cerca de 80% dos moradores de Mateiros trabalham de alguma forma com o capim.
Quando ir ao Jalapão e o que esperar do clima?
O Jalapão tem duas estações bem definidas. A seca, de maio a setembro, é a melhor época para visitar: as estradas de terra ficam transitáveis, os fervedouros ganham transparência máxima e praticamente não chove. O calor é constante o ano inteiro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Mateiros, cidade-base do Jalapão. Condições podem variar. Consulte a previsão antes de viajar.
Como chegar ao coração do Tocantins?
O ponto de partida é Palmas, que tem voos diretos de Brasília, São Paulo e Goiânia. De lá, são cerca de 300 km até Mateiros pela TO-050 e TO-255. O trecho de asfalto vai até Ponte Alta do Tocantins (135 km); depois, são 165 km de estrada de terra que exigem veículo 4×4. A viagem leva de cinco a seis horas. Agências credenciadas pelo Naturatins operam pacotes com transporte, guia e hospedagem incluídos.
Um pedaço do Brasil que ainda surpreende
O Jalapão entrega o que poucos destinos brasileiros conseguem: silêncio, paisagens que mudam a cada hora do dia e o encontro com comunidades que vivem do que o cerrado oferece sem destruí-lo. Entre dunas, fervedouros e o brilho do capim dourado, a região prova que o interior do Brasil ainda guarda cenários capazes de tirar o fôlego de viajantes experientes.
Vale cruzar o cerrado e sentir por conta própria por que o Jalapão ainda parece um segredo bem guardado no coração do Tocantins.