Nos últimos anos, a relação entre câncer e Alzheimer tem chamado a atenção de pesquisadores do mundo todo. Dados clínicos mostram que é raro encontrar uma mesma pessoa com histórico das duas doenças, e essa observação vem intrigando a comunidade científica há décadas. Um estudo recente em camundongos traz novas pistas para esse enigma e sugere que uma proteína ligada ao câncer pode, paradoxalmente, ajudar a proteger o cérebro contra a forma mais comum de demência em idosos.
Como funciona a doença de Alzheimer?
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que compromete memória, raciocínio, linguagem e orientação no tempo e no espaço. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que essa forma de demência responda por mais da metade dos casos em idosos, tornando-se um desafio crescente em um país que envelhece rapidamente.
Uma das marcas biológicas mais estudadas do Alzheimer é o acúmulo de proteínas anormais no cérebro, especialmente a beta-amiloide. Essas proteínas formam placas entre os neurônios, dificultam a comunicação entre as células, desencadeiam inflamação e, ao longo do tempo, contribuem para a perda de memória e declínio cognitivo.
Como uma proteína ligada ao câncer pode proteger contra o Alzheimer?
O estudo liderado pelo neurologista Youming Lu, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, na China, investigou a possível ação protetora de moléculas liberadas por tumores. Em modelos animais com Alzheimer, camundongos que desenvolveram tumores de pulmão, próstata ou cólon não apresentaram o mesmo padrão de formação de placas beta-amiloides no cérebro.
Ao isolar as substâncias secretadas pelas células cancerígenas, os cientistas identificaram a cistatina C, capaz de atravessar a barreira hematoencefálica e alcançar o cérebro. Lá, essa proteína se ligou a moléculas envolvidas nas placas e ativou a TREM2, que estimula células de defesa a remover depósitos tóxicos, melhorando o desempenho de memória e cognição nos animais testados.
Quais são os possíveis caminhos de tratamento derivados dessa descoberta?
Os pesquisadores enfatizam que os resultados foram obtidos em camundongos e ainda não está claro se o mesmo mecanismo ocorre em humanos. Estudos em andamento avaliam se a cistatina C e a ativação da TREM2 funcionam de forma semelhante em pessoas com câncer e em indivíduos em risco de desenvolver demência, o que poderia abrir novas frentes terapêuticas.
A ideia não é utilizar tumores, mas imitar, de forma segura, o efeito protetor observado. A partir dessa lógica, várias estratégias vêm sendo consideradas para transformar esse conhecimento em intervenções práticas:
- Desenvolver fármacos que aumentem a ação ou a estabilidade da cistatina C no cérebro;
- Estimular a via de ativação da TREM2 para melhorar a remoção de placas beta-amiloides;
- Combinar essas abordagens com terapias já em estudo para demências, como imunoterapias;
- Investigar se mecanismos semelhantes podem atuar em outras doenças neurodegenerativas.
O que se sabe hoje sobre a relação entre câncer e Alzheimer?
A relação entre câncer e Alzheimer é complexa e ainda não totalmente compreendida. Uma metanálise de 2020, com dados de mais de 9,6 milhões de pessoas, sugeriu que ter diagnóstico de câncer ao longo da vida se associa a cerca de 11% menos casos de Alzheimer, mas isso não significa proteção garantida.
Fatores como mortalidade precoce por câncer, diferenças de acompanhamento médico, efeitos colaterais de quimioterapia e radioterapia e o impacto de inflamações crônicas podem interferir nessa estatística. Por isso, os cientistas defendem cautela ao interpretar a associação e reforçam a necessidade de estudos de longo prazo em populações diversas.
Quais cuidados ajudam a proteger o cérebro?
Enquanto terapias baseadas em proteínas como a cistatina C ainda estão em fase inicial, especialistas recomendam estratégias já reconhecidas para reduzir o risco de demência. Essas medidas atuam em fatores de risco modificáveis, protegendo vasos sanguíneos, neurônios e a reserva cognitiva ao longo da vida:
- Controlar pressão arterial, diabetes e colesterol com acompanhamento médico;
- Evitar tabagismo e reduzir o consumo de álcool;
- Praticar atividade física regular, adequada à idade e condição clínica;
- Manter alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras e gorduras saudáveis;
- Estimular o cérebro com leitura, estudos, jogos de raciocínio e interação social;
- Buscar avaliação médica ao notar sinais persistentes de perda de memória.