A suspensão do chamado Chá do Milagre pela Anvisa reacendeu o debate sobre a segurança de produtos divulgados como naturais e com alegados efeitos terapêuticos. Em meio ao crescimento do consumo de chás, suplementos e misturas em pó para emagrecimento e bem-estar, o caso ilustra como promessas de resultados rápidos podem esconder riscos pouco visíveis para a saúde, especialmente quando não há registro, origem definida ou controle sanitário adequado.
O que é o Chá do Milagre?
O Chá do Milagre, também chamado de Pó do Milagre ou Pozinho do Milagre, é descrito como um produto em pó, vendido de forma informal e associado a finalidades medicinais, apesar de ser apresentado como alimento ou chá. Segundo a Anvisa, não há dados confiáveis sobre ingredientes, local de fabricação, empresa responsável ou responsável técnico, o que impede qualquer avaliação mínima de segurança.
Sem rótulo adequado, sem registro quando exigido e sem identificação do fabricante, não é possível analisar riscos toxicológicos, interações com medicamentos ou contraindicações para grupos vulneráveis. Nesses cenários, aplica-se o princípio da proteção à saúde pública: na ausência de dados mínimos de segurança e eficácia, a produção, venda, divulgação e consumo são proibidos em todo o país até que eventuais informações técnicas sejam apresentadas e avaliadas.

O Chá do Milagre emagrece ou trata ansiedade segundo a legislação?
Um dos pontos centrais do caso é a forma como o produto vinha sendo divulgado em redes sociais, com promessas de uso diário como se fosse um alimento comum. Anúncios em plataformas como Facebook e Instagram associavam o consumo a supostos efeitos terapêuticos, incluindo emagrecimento rápido, melhora do sono, controle da ansiedade e prevenção de doenças graves, sem qualquer respaldo científico.
Pela legislação brasileira, alimentos e chás não podem ser anunciados como medicamentos, nem prometer cura, tratamento ou prevenção de doenças. Para que uma substância tenha indicação terapêutica, precisa passar por estudos clínicos, avaliação de eficácia e segurança, além de registro em categoria compatível, como medicamentos ou produtos tradicionais fitoterápicos, evitando abandono de tratamentos comprovados e automedicação inadequada.
Quais são os riscos de consumir produtos de origem e composição desconhecidas?
O caso do Chá do Milagre reforça um alerta mais amplo sobre o consumo de produtos de origem incerta, como misturas para emagrecer, chás detox, cápsulas “naturais” e pós com promessas variadas de bem-estar. A aparência inofensiva, o apelo à natureza e relatos informais em grupos de mensagens ou perfis pessoais podem sugerir segurança, mas não substituem avaliação técnica nem controle de qualidade sanitária.
Entre os principais riscos potenciais associados a produtos sem origem rastreável nem composição definida, destacam-se problemas que podem se manifestar de forma aguda ou crônica, muitas vezes difíceis de relacionar diretamente ao uso do produto:
- Ingredientes não declarados, incluindo substâncias farmacológicas, laxantes potentes ou estimulantes proibidos;
- Contaminação microbiológica, por falhas de higiene na produção, armazenamento precário ou adulteração;
- Doses desconhecidas, que podem resultar em ineficácia, intoxicações ou sobrecarga de órgãos, como fígado e rins;
- Interações com medicamentos usados para hipertensão, diabetes, depressão e outras doenças crônicas;
- Contraindicações específicas para gestantes, idosos, pessoas com comorbidades ou em tratamento contínuo.
Como identificar alegações suspeitas sobre chás divulgados como milagrosos?
O episódio envolvendo o Chá do Milagre evidencia um padrão de discurso comum em produtos com forte apelo de marketing, que prometem resultados rápidos e abrangentes. Esses itens costumam usar linguagem emocional, termos vagos e histórias pessoais para convencer, sem explicar mecanismos de ação, sem apresentar estudos ou citar fontes confiáveis.
Ao se deparar com promessas exageradas em chás em pó, cápsulas ou misturas semelhantes, é importante observar sinais de alerta na comunicação. Alguns indícios frequentes em anúncios e postagens podem ajudar o consumidor a reconhecer ofertas arriscadas e a buscar fontes oficiais antes de qualquer uso:
Sinais de alerta em anúncios de “tratamentos” e suplementos
Se aparecer um ou mais itens abaixo, redobre o cuidado e confirme em canais oficiais.
Resultado rápido demais
Promessas de efeito imediato ou garantido em poucos dias.
Exemplo: “perda de peso em poucos dias” / “cura garantida”.
“Serve para tudo”
Garantia de múltiplos efeitos ao mesmo tempo, inclusive para doenças graves.
Exemplo: “melhora sono, humor, libido e ainda trata doenças graves”.
Rótulo incompleto
Ausência de informações essenciais de identificação e uso.
Verifique: lista de ingredientes, CNPJ, endereço e orientações claras.
Venda “só no direct”
Comercialização exclusiva por redes sociais, sem canais formais e sem empresa identificada.
Exemplo: não tem SAC, site oficial, CNPJ ou política de troca/atendimento.
Linguagem “milagrosa”
Uso de termos chamativos para induzir confiança sem provas verificáveis.
Atenção: “milagroso”, “secreto”, “100% seguro” e “especialistas anônimos”.
Por que casos como o Chá do Milagre tendem a aparecer com frequência?
A popularização de redes sociais e o interesse crescente por alternativas naturais criaram um ambiente favorável para a rápida difusão de produtos como o Chá do Milagre. A facilidade de criar perfis, publicar vídeos, contratar anúncios segmentados e receber pagamentos digitais permite que operações informais alcancem grande público antes que a fiscalização acompanhe o mesmo ritmo.
Ao mesmo tempo, o desejo de melhorar a alimentação, controlar o peso e reduzir sintomas de ansiedade estimula a busca por soluções simples, muitas vezes vistas como “sem contraindicações” apenas por serem naturais. Nessa conjuntura, regras sanitárias e exigências de registro podem parecer burocracia, mas na prática funcionam como barreiras essenciais para impedir que substâncias desconhecidas se tornem parte da rotina da população, reforçando a importância de orientação profissional e de consultar comunicados oficiais da Anvisa.