Derrota de Flávio Bolsonaro reduz a pressão sobre o ministro do Supremo e fortalece os planos de Davi Alcolumbre para permanecer na presidência do Senado, em meio a negociações com o governo federal.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teriam comemorado a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante um almoço reservado em Brasília. Segundo relatos citados na reportagem original, os dois mantêm uma rotina de encontros semanais.
O resultado eleitoral representa uma mudança no cenário político para ambos. A derrota de Flávio enfraquece a perspectiva de uma ofensiva da oposição contra ministros do Supremo e favorece os planos de Alcolumbre de continuar à frente do Senado.
Alcolumbre estima contar com até 48 votos para permanecer no cargo e afirma ter uma base mínima de 43 senadores, acima dos 41 votos necessários para conquistar a presidência da Casa.
A disputa, porém, continua aberta. O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, articula uma candidatura de oposição e também reivindica apoio de 48 parlamentares. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) é outra possível concorrente, apesar de União Brasil e Progressistas terem declarado apoio à recondução de Alcolumbre.
Com 29 cadeiras previstas para a próxima legislatura, o PL pretende transformar a eleição da presidência do Senado em uma oportunidade para modificar a relação de forças entre o Legislativo e o STF. O senador eleito Ubiratan Sanderson (PL-RS), em entrevista à revista Oeste, afirmou que a direita elegerá o próximo presidente da Casa.
Anistia a Bolsonaro entra nas negociações
A tentativa de garantir apoio à recondução de Alcolumbre envolve articulações politicamente delicadas. Segundo interlocutores citados na reportagem, o senador considera negociar com Lula uma eventual anistia ou medida de indulto em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro, buscando atrair votos da direita.
A possibilidade, entretanto, enfrenta resistência entre parlamentares bolsonaristas. Integrantes da oposição afirmam que uma eventual medida favorável a Bolsonaro não seria suficiente para assegurar apoio à permanência de Alcolumbre no comando do Senado.
Parte dos senadores também cobra uma definição do STF sobre a Lei da Dosimetria, que prevê a redução de penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro e pode beneficiar o ex-presidente.
A norma foi promulgada por Alcolumbre após o Congresso derrubar o veto de Lula. Moraes, relator de ações que questionam a constitucionalidade da legislação, suspendeu sua aplicação nos processos sob sua responsabilidade até que o Supremo examine a questão.
Alcolumbre tem influência sobre pedidos de impeachment
A permanência de Alcolumbre na presidência do Senado interessa também a Moraes porque cabe ao comando da Casa decidir sobre o encaminhamento inicial de denúncias por crime de responsabilidade contra ministros do STF.
Alcolumbre tem resistido à abertura de processos contra integrantes da Corte. A oposição, por sua vez, busca eleger um presidente do Senado disposto a analisar as representações e permitir que eventuais acusações avancem.
Antes da eleição presidencial, aliados do senador já admitiam que uma nova composição do Senado poderia aumentar a pressão para que ele desse andamento aos pedidos de impeachment de Moraes.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia fortalecer a oposição e ampliar as dificuldades de Alcolumbre para permanecer no cargo. Com a reeleição de Lula, esse cenário perdeu força, abrindo espaço para novas negociações políticas.
Encontros frequentes aproximaram Moraes, Alcolumbre e Lula
A relação entre Alcolumbre e Moraes se intensificou ao longo dos últimos meses. Em abril, os dois se encontraram em meio à articulação em torno da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF. Um dos encontros ocorreu na residência do ministro, na véspera da sabatina no Senado. A indicação acabou rejeitada pelos parlamentares, impondo uma derrota ao governo Lula.
Em agosto, Moraes teria atuado para aproximar novamente Alcolumbre e Lula, que haviam se distanciado após a rejeição de Messias. O ministro recebeu os dois em sua residência, em Brasília, em um jantar que também contou com a presença de Cristiano Zanin.
A relação ganhou relevância adicional em meio às controvérsias envolvendo o Banco Master e às disputas políticas em torno das investigações relacionadas à instituição financeira. Nesse período, Alcolumbre enfrentava cobranças da oposição para dar andamento aos pedidos de impeachment de ministros do Supremo, especialmente de Moraes.
Na segunda-feira, 26, Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta, visitaram Lula no Palácio da Alvorada para cumprimentá-lo pela vitória eleitoral. Em manifestação oficial, o presidente do Senado reafirmou sua disposição de manter o diálogo com o Executivo.
O resultado eleitoral alterou o ambiente político em Brasília, mas não encerrou a disputa pela presidência do Senado. Alcolumbre ainda precisará consolidar sua base parlamentar, enquanto a oposição tenta transformar a eleição interna em uma oportunidade para pressionar o Supremo e mudar a condução dos pedidos de impeachment contra seus ministros.
