Diálogos encontrados pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que o banqueiro autorizou cerca de R$ 51,9 milhões em pagamentos relacionados ao portal Metrópoles entre 2024 e 2025. Nas conversas, ele classificou a relação comercial com o site como a “coisa mais importante” e acompanhou pessoalmente as negociações com a empresa, pertencente ao empresário e ex-senador Luiz Estevão.
As mensagens também apontam que o portal, por meio de sua CEO, Lilian Tahan, teria submetido publicações ao crivo de Vorcaro e orientado reportagens contra um diretor do Banco Central a pedido do banqueiro. Os diálogos revelam a participação direta do empresário nas tratativas, que eram conduzidas por meio de Ana Lúcia Matos, então superintendente de Comunicação e Marketing do Banco Master.
Negociações envolveram contratos milionários
Segundo os registros das conversas, em julho de 2024 foram acertados dois projetos de educação financeira envolvendo o Metrópoles e empresas do Grupo Master, a seguradora Kovr e o Will Bank. Os contratos somavam aproximadamente R$ 900 mil.
Em 3 de julho daquele ano, Vorcaro cobrou rapidez na conclusão dos negócios com o portal. “Temos que acelerar isso”, escreveu à funcionária, em uma sequência de mensagens. Ana Matos informou que ainda aguardava propostas referentes a algumas das ações previstas.
O banqueiro insistiu na urgência e pediu que o contrato avançasse. Na ocasião, foi sugerido um acordo de R$ 420 mil por meio da Kovr, relacionado a um patrocínio de educação financeira. Oito dias depois, Vorcaro perguntou se o negócio havia sido fechado. Ao receber uma resposta positiva, acrescentou: “Estamos sob ataque”.
Em agosto de 2024, Ana Matos voltou a mencionar as negociações e informou que outro projeto, desta vez por meio do Will Bank, também havia sido fechado. Segundo ela, os dois acordos custaram cerca de R$ 450 mil cada.
Contrato de R$ 20 milhões gerou discussão
Em dezembro de 2024, Vorcaro encaminhou à funcionária uma minuta de contrato com o Metrópoles. As conversas indicam que o negócio previa R$ 20 milhões, mas não esclarecem qual serviço ou projeto justificava o valor.
Ao analisar a proposta, Ana Matos considerou o montante elevado e sugeriu negociar uma redução para uma faixa entre R$ 12 milhões e R$ 15 milhões. Ela argumentou que o portal já havia recebido cerca de R$ 1 milhão em junho.
Vorcaro, porém, rejeitou a proposta de redução. “Não! Coisa mais importante nossa vida é esse Metrópoles”, respondeu.
Ainda naquele mês, Ana perguntou se o pagamento dos R$ 20 milhões deveria ser feito integralmente pelo Banco Master ou dividido entre a instituição e as empresas Kovr e Will Bank.
Em 23 de dezembro de 2024, ela apresentou ao banqueiro um cronograma de pagamentos em quatro parcelas, previstas entre janeiro e outubro de 2025. A funcionária demonstrou preocupação com a continuidade dos repasses e perguntou se deveria seguir o calendário ou aguardar uma nova orientação.
Em outro momento, informou que o portal também estava cobrando os valores. Vorcaro autorizou que os pagamentos prosseguissem.
Metrópoles propôs patrocínio de R$ 6 milhões
Em 26 de junho de 2025, Lilian Tahan apresentou a Vorcaro uma proposta de patrocínio para a transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro. O valor negociado era de R$ 6 milhões.
Antes da conclusão do acordo, Ana Matos relatou ao banqueiro que havia conversado com a executiva e com Luiz Estevão sobre a iniciativa. Vorcaro concordou com a contratação e orientou que os encaminhamentos fossem feitos diretamente com a superintendente de Comunicação do banco.
Em agosto de 2025, Ana informou a Vorcaro sobre outro projeto negociado com o Metrópoles, desta vez no valor de R$ 25 milhões. Segundo a funcionária, a proposta previa pagamento em duas parcelas, mas ela sugeriu ampliar o prazo, considerando que o banco já estava pagando o patrocínio de R$ 6 milhões relacionado à Série D.
Vorcaro pediu que o novo montante fosse dividido em cinco parcelas.
Em uma mensagem posterior, Ana afirmou que os pagamentos dos dois projetos estavam em andamento: R$ 6 milhões pelo patrocínio esportivo e R$ 25 milhões pelo outro contrato. Ela também informou que a segunda parcela do acordo de R$ 25 milhões seria paga naquela semana.
Os diálogos indicam, portanto, que os dois contratos eram distintos e que ao menos parte dos valores havia sido paga.
Relatório do Coaf apontou R$ 27,2 milhões em repasses
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), divulgado pelo Estadão, identificou R$ 27,2 milhões em transferências diretas do Banco Master para o Metrópoles entre 2024 e 2025.
O órgão de inteligência financeira classificou as movimentações como suspeitas e apontou que a empresa teria realizado débitos logo após receber os recursos, direcionando valores a outras empresas ligadas à família de Luiz Estevão. Segundo o relatório, esse padrão “pode configurar possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.
Os dados do Coaf abrangiam os repasses feitos diretamente pelo Banco Master e não incluíam transferências realizadas por outras empresas do conglomerado de Vorcaro.
A diferença entre os R$ 51,9 milhões mencionados nas conversas e os R$ 27,2 milhões identificados pelo Coaf decorre do alcance distinto dos registros: as mensagens tratam de valores negociados e autorizados, enquanto o relatório citado contabiliza transferências diretas feitas pelo banco.
Os diálogos levantam questionamentos sobre a relação comercial entre o Banco Master e o portal, especialmente diante das referências à participação pessoal de Vorcaro nas negociações e à suposta influência sobre conteúdos jornalísticos.
Fonte: Pleno News