Em artigo publicado pela tradicional revista britânica, jornalista afirma que brasileiros estão perdendo a confiança nas instituições e defende ampla reforma do Judiciário para combater a corrupção
A crise envolvendo o Banco Master e suas conexões com autoridades brasileiras ganhou destaque internacional às vésperas das eleições. Em artigo publicado pela revista britânica The Economist, uma das publicações de política e economia mais conhecidas do mundo, a jornalista Malu Gaspar faz duras críticas ao funcionamento das instituições brasileiras e sustenta que o país precisa promover uma ampla reforma do Judiciário.
O artigo, intitulado “What Brazil must do to kick the corruption habit” — em tradução livre, “O que o Brasil precisa fazer para abandonar o hábito da corrupção” — foi publicado como um ensaio de convidada. A própria The Economist apresentou Gaspar como a jornalista que revelou o mais recente grande escândalo brasileiro.
A publicação ocorre justamente na reta final da eleição brasileira e abre com uma afirmação contundente de Gaspar: mais uma vez, o país chega às urnas em meio a um “colossal escândalo de corrupção”.
Banco Master no centro do artigo
Grande parte da análise é dedicada ao caso Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo Gaspar, o episódio se diferencia de outros grandes escândalos brasileiros não apenas pela dimensão financeira e política, mas principalmente por ter alcançado integrantes do Supremo Tribunal Federal.
O artigo afirma que o Banco Master drenou cerca de R$ 60 bilhões do sistema financeiro brasileiro e teria se sustentado por uma rede de favores, contratos considerados duvidosos e pagamentos ilícitos. A jornalista compara a dimensão do episódio a grandes casos recentes da história brasileira, como o Mensalão e a Operação Lava Jato.
Mas é ao tratar do Judiciário que o texto assume seu tom mais contundente.
“O principal motivo é o envolvimento sem precedentes de ministros do Supremo Tribunal Federal”, escreve Gaspar.
A jornalista dedica parte importante de sua análise às relações entre pessoas ligadas ao STF e o Banco Master. O texto menciona especificamente o ministro Alexandre de Moraes e o contrato firmado pelo escritório de sua esposa com a instituição financeira, além de relatar acusações decorrentes de mensagens encontradas nas investigações. Moraes nega as acusações mencionadas no artigo.
“Brasileiros estão perdendo a confiança em suas instituições”
Para Gaspar, as consequências ultrapassam eventuais responsabilidades individuais. O problema central seria o dano provocado à credibilidade das instituições.
Segundo ela, o caso Master expôs um ambiente de possível tráfico de influência em torno de escritórios de advocacia ligados a parentes ou pessoas próximas de integrantes dos tribunais superiores, além de relações excessivamente próximas entre magistrados e advogados.
A avaliação apresentada na The Economist é de que o episódio causou “enormes danos” e está fazendo com que brasileiros já cansados de sucessivos escândalos percam a confiança nas instituições.
Gaspar chega a relacionar diretamente essa deterioração da confiança à própria estabilidade democrática brasileira.
Jornalista relata ter sido alvo de Vorcaro
O artigo também contém um relato pessoal da jornalista.
Gaspar afirma que, durante suas investigações sobre o Banco Master, um aliado de Vorcaro lhe ofereceu, em abril de 2025, um emprego de valor milionário. Na interpretação da jornalista, a proposta teria como objetivo afastá-la do jornalismo e interromper reportagens que incomodavam o banqueiro.
Posteriormente, segundo seu relato, ela descobriu que Vorcaro teria determinado uma investigação sobre sua vida pessoal, incluindo informações relacionadas aos filhos e ao companheiro.
Gaspar afirma cobrir o poder brasileiro há cerca de 30 anos e diz ter ficado impressionada com aquilo que descreve como a convicção do banqueiro de que poderia comprar pessoas e neutralizar adversários.
Reforma do Judiciário entra no centro do debate
A conclusão do artigo publicado internacionalmente é especialmente dura.
Malu Gaspar sustenta que começa a surgir no Brasil um consenso sobre a necessidade de uma ampla reforma do Poder Judiciário.
Na avaliação da jornalista, essa reforma deveria estabelecer novos mecanismos contra a corrupção, fortalecer a independência dos órgãos responsáveis pelas investigações e, principalmente, limitar poderes de magistrados que, segundo ela, agiriam como se estivessem acima da lei.
Gaspar também defende mudanças na estrutura do Orçamento federal, especialmente para reduzir distorções provocadas pelo volume de recursos discricionários atualmente controlados pelo Congresso.
A tese central é que a reconstrução dos mecanismos de freios e contrapesos entre os Poderes deixou de ser apenas uma discussão institucional e passou a representar, na visão da autora, uma questão ligada à própria sobrevivência da democracia brasileira.
Crise brasileira ganha repercussão internacional
A publicação pela The Economist dá dimensão internacional a um debate que até agora vinha sendo travado principalmente dentro do Brasil.
Não se trata de uma reportagem investigativa produzida pela equipe da revista sobre novas provas, mas de um artigo de opinião de Malu Gaspar publicado pela The Economist na seção “By Invitation”. Essa distinção é importante: as acusações e conclusões são apresentadas pela jornalista e devem ser atribuídas a ela, enquanto pessoas mencionadas mantêm direito de contestá-las.
Ainda assim, o espaço concedido por uma publicação internacional de grande circulação mostra que as repercussões do caso Banco Master e as discussões sobre a atuação do Supremo ultrapassaram as fronteiras brasileiras.
E Gaspar encerra sua análise com uma advertência: enfrentar os conflitos de interesse, fortalecer os órgãos anticorrupção e reformar o Judiciário e o sistema orçamentário, em sua avaliação, já não seria simplesmente uma opção política — mas uma condição para recuperar a confiança dos brasileiros nas instituições.