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Início Mundo

Rússia ameaça usar armas nucleares se Otan bloquear Kaliningrado

Por Junior Melo
01/out/2026
Em Mundo
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, fotografado na terça-feira no Kremlin — Foto: Gavriil Grigorov/AFP

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, fotografado na terça-feira no Kremlin — Foto: Gavriil Grigorov/AFP

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A Rússia enviou uma mensagem à Otan e ao governo da Bélgica na qual advertiu que qualquer tentativa de isolar Kaliningrado, território russo localizado às margens do Mar Báltico, poderá provocar uma reação de Moscou. Segundo a Reuters, que teve acesso ao documento, o governo russo também afirmou que uma eventual escalada poderia levar a ataques contra centros de decisão de países integrantes da aliança militar.

Segundo informações divulgadas pelo O Globo nesta quarta-feira (30), a comunicação foi encaminhada à Otan e ao Ministério das Relações Exteriores da Bélgica. De acordo com a agência estatal russa Tass, Moscou pediu aos integrantes da organização que evitem declarações e medidas que, na avaliação russa, possam ampliar as tensões em torno do enclave.

Moscou critica exercícios militares

O governo russo afirma que a Otan estaria se preparando para possíveis operações destinadas a restringir o acesso a Kaliningrado. Entre os fatores citados por Moscou estão exercícios militares realizados pela aliança na região e a missão Baltic Sentry, criada para reforçar a proteção de estruturas submarinas.

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A Rússia também apontou exercícios aéreos realizados pela Otan em agosto na Polônia e nos países bálticos como um elemento de aumento das tensões nas proximidades do território russo.

A Embaixada da Rússia na Bélgica classificou a postura da Otan como “imprudente e irresponsável” e afirmou que as ações da aliança ampliam os riscos de um confronto militar direto. Representações diplomáticas russas em outros países europeus fizeram críticas semelhantes, relacionando os exercícios militares e o planejamento de cenários envolvendo Kaliningrado ao agravamento das tensões.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, defendeu a atuação dos diplomatas russos. Segundo a Interfax, ele afirmou que seria natural que as representações do país recordassem aos governos europeus os documentos considerados fundamentais por Moscou sobre a questão.

Otan rejeita acusações e condena ameaças

A Otan confirmou que houve uma troca de mensagens com Moscou sobre Kaliningrado, mas rejeitou a interpretação russa de que suas atividades representem uma ameaça ao território do país.

A organização afirmou que se trata de uma aliança de caráter defensivo e declarou que seus exercícios e demais atividades não representam risco para nenhuma parte da Rússia. A Otan também criticou ameaças relacionadas ao uso da força e classificou como irresponsável qualquer retórica envolvendo armas nucleares.

À Reuters, a porta-voz da Otan, Allison Hart, afirmou que a Rússia estaria recorrendo a táticas híbridas para pressionar os países europeus. Ela disse ainda que isso não alteraria o apoio da organização à Ucrânia.

Um diplomata da Otan ouvido pela Reuters interpretou a mensagem russa como uma tentativa de intimidar governos europeus. Segundo ele, a resposta da aliança buscou reafirmar que o bloco continuará apoiando a Ucrânia.

Uma autoridade europeia da área de defesa afirmou à agência que a advertência russa é particularmente grave e disse não se lembrar de uma manifestação semelhante desde o período posterior à Guerra Fria.

Por que Kaliningrado é estratégico?

Kaliningrado é um território russo no litoral do Mar Báltico que não possui ligação territorial direta com o restante da Rússia. O enclave fica entre a Polônia e a Lituânia e tem importância estratégica para Moscou.

A Rússia mantém na região uma estrutura militar que inclui forças navais e sistemas de mísseis. Entre eles estão os Iskander, capazes de transportar diferentes tipos de ogivas, inclusive nucleares.

A posição geográfica do enclave é uma fonte histórica de tensão entre Moscou e a Otan. Um dos cenários que preocupa os países aliados envolve a possibilidade de a Rússia tentar interromper a conexão terrestre entre os países bálticos e os demais integrantes da aliança.

Nesse contexto, a área situada entre Kaliningrado e Belarus — país aliado militarmente da Rússia — é considerada estratégica para os planejamentos de defesa da região.

Especialista vê risco de erro de cálculo

Para Nikolai Sokov, analista especializado em questões nucleares e ex-diplomata russo, os países ocidentais enfrentam dificuldades crescentes para ampliar o apoio militar à Ucrânia sem aumentar o risco de um confronto direto com Moscou.

Segundo ele, a advertência russa pode indicar maior influência de setores que defendem uma resposta mais dura às iniciativas ocidentais. Entre as medidas citadas estão o envio de armamentos para a Ucrânia, novas sanções contra a Rússia, interceptações de embarcações russas, exercícios militares e operações de inteligência na região do Báltico.

Sokov afirmou à Reuters que Moscou pode interpretar determinadas ações europeias, como um eventual bloqueio do Mar Báltico, de maneira muito mais grave do que os governos ocidentais pretendem. Na avaliação do analista, essa diferença de percepção aumenta a possibilidade de erros de cálculo entre os dois lados.

Europa acusa Rússia de ações híbridas

Além da disputa em torno de Kaliningrado, governos e serviços de inteligência europeus têm acusado a Rússia de ampliar ações classificadas como parte de uma campanha de “guerra híbrida”. As acusações incluem episódios de sabotagem e incêndios criminosos.

Moscou rejeita essas acusações e também nega que esteja planejando um ataque militar contra qualquer país integrante da Otan.

Na quarta-feira, o ministro da Defesa da Bélgica, Theo Francken, afirmou que as ações consideradas híbridas podem aumentar nos próximos meses. Segundo ele, a Rússia utiliza esse tipo de estratégia há décadas e o presidente Vladimir Putin teria experiência nesse campo.

A troca de acusações ocorre em um momento de elevada tensão entre Moscou e os países europeus, especialmente em razão da guerra na Ucrânia e da ampliação das atividades militares da Otan no entorno do Mar Báltico.

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