Com a perspectiva de um Congresso mais conservador e a possibilidade de derrota de Lula, articulações envolvendo Alcolumbre, o STF e cargos estratégicos podem transformar os últimos meses da atual legislatura em uma batalha pelo controle das instituições.
O Brasil pode estar caminhando para uma das mais graves crises institucionais de sua história recente. E o perigo talvez não esteja apenas no resultado das urnas, mas principalmente no que poderá acontecer entre o encerramento das eleições de outubro e a posse dos novos parlamentares, em fevereiro de 2027.
Uma questão já domina as projeções políticas em Brasília: a possibilidade de formação de um Congresso Nacional majoritariamente conservador, com uma bancada de direita ainda mais expressiva e menos disposta a aceitar os arranjos políticos que marcaram os últimos anos.
Se essa tendência se confirmar e vier acompanhada de uma vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula, o atual grupo de poder enfrentará um cenário particularmente delicado.
É nesse contexto que surge uma hipótese inquietante: o velho Congresso, mesmo politicamente derrotado nas urnas, poderia ser utilizado para criar obstáculos institucionais ao novo governo antes mesmo de sua posse.
Alcolumbre e a estratégia de sobrevivência política
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ocupa uma posição privilegiada nesse tabuleiro.
Com influência sobre a pauta legislativa, as articulações partidárias e a tramitação de indicações para cargos estratégicos, Alcolumbre dispõe de instrumentos políticos capazes de produzir consequências muito além do encerramento da atual legislatura.
A hipótese que merece atenção é a formação de uma aliança circunstancial entre parlamentares de esquerda, setores do centro político e congressistas derrotados nas urnas.
Esses parlamentares, embora eventualmente rejeitados pelo eleitorado, continuarão exercendo seus mandatos até 31 de janeiro de 2027.
É justamente nessa janela que poderão surgir iniciativas capazes de alterar profundamente a relação entre o próximo governo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
Não se trata de afirmar que exista um acordo formal comprovado entre esses personagens, mas de identificar uma convergência de interesses que poderia favorecer uma articulação dessa natureza.
O STF como principal instrumento de contenção
Um eventual governo Flávio Bolsonaro encontrará um Supremo Tribunal Federal cuja composição foi profundamente influenciada pelos governos anteriores.
Nesse cenário, a possibilidade de aprovação de mudanças legislativas destinadas a ampliar garantias institucionais, competências ou mecanismos de proteção do STF precisa ser acompanhada com atenção.
O problema não está na existência de garantias à independência do Judiciário, indispensáveis ao Estado Democrático de Direito.
A preocupação surge quando mudanças institucionais eventualmente passam a ser concebidas não para proteger a Constituição, mas para dificultar deliberadamente a atuação de um governo legitimamente eleito.
Uma legislação aprovada às pressas, nos últimos meses de uma legislatura, poderia criar obstáculos políticos e jurídicos de difícil reversão.
A pergunta central é simples: o atual Congresso respeitará a nova configuração de poder escolhida pelos brasileiros ou tentará deixar amarras institucionais para seus sucessores?
Rodrigo Pacheco, Alcolumbre e a disputa por cargos estratégicos
Outro ponto sensível envolve o preenchimento de posições de grande influência no Estado brasileiro.
O nome do senador Rodrigo Pacheco, por exemplo, aparece como uma possibilidade política a ser observada em eventuais articulações envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
Uma indicação dessa natureza, caso exista vaga constitucionalmente aberta e seja efetivamente apresentada pelo presidente da República, dependerá de aprovação do Senado.
Já o próprio Alcolumbre poderia ter interesse político em uma futura vaga no Tribunal de Contas da União, instituição que exerce papel relevante na fiscalização da administração pública federal.
Nesse caso, a escolha dependeria da existência de vaga e do procedimento constitucional correspondente.
A importância dessas movimentações não pode ser subestimada.
Ministros do STF e do TCU exercem funções com garantias institucionais e permanência que ultrapassam os ciclos eleitorais, embora não se trate, tecnicamente, de cargos vitalícios sem limite de idade.
Uma indicação realizada no encerramento de um governo pode produzir efeitos por muitos anos.
É precisamente por isso que essas posições se tornam tão disputadas em períodos de transição política.
Randolfe Rodrigues e Simone Tebet: o futuro dos aliados de Lula
A eventual derrota de Lula também poderia desencadear uma disputa por espaços institucionais destinados a preservar a influência de integrantes de seu grupo político.
Nesse contexto, nomes como Randolfe Rodrigues e Simone Tebet poderiam surgir em especulações sobre futuras nomeações para posições estratégicas.
É necessário ressaltar que não há, nesta análise, comprovação de um plano fechado para acomodar esses nomes em cargos específicos.
Entretanto, o histórico de negociações políticas em Brasília demonstra que postos de longa duração, especialmente em órgãos de controle e tribunais, frequentemente despertam interesse quando se aproxima uma mudança de governo.
Para aliados que perderem espaço político, uma nomeação institucional poderia representar não apenas continuidade de influência, mas também estabilidade diante de um ambiente político adverso.
O temor de uma inversão de forças
Existe ainda um componente que não pode ser ignorado: o receio de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro provoque uma profunda inversão das relações de poder em Brasília.
Setores hoje próximos ao governo Lula poderiam passar à oposição, perdendo influência sobre ministérios, órgãos federais, estruturas administrativas e decisões estratégicas.
Também poderiam enfrentar maior pressão por investigações, fiscalização e responsabilização política.
O temor, nesse cenário, seria experimentar o mesmo ambiente de confronto institucional que marcou a relação entre o Estado e integrantes do campo bolsonarista nos últimos anos.
Mas existe uma distinção fundamental: nenhuma mudança de governo autoriza perseguições políticas, assim como nenhuma autoridade pode utilizar o aparato estatal para proteger aliados de investigações legítimas.
O que deve prevalecer é a aplicação da lei, com respeito ao devido processo legal, independentemente de quem esteja no poder.
O período mais perigoso poderá começar depois das urnas
A eleição não encerra imediatamente os mandatos parlamentares.
O presidente eleito toma posse em 1º de janeiro de 2027, enquanto os novos deputados e senadores assumem seus mandatos em 1º de fevereiro.
Isso significa que, durante os últimos meses de 2026, o Congresso atual continuará exercendo plenamente suas competências constitucionais.
E, mesmo depois da posse presidencial, haverá um mês de convivência entre o novo chefe do Executivo e a legislatura que se encerra.
Esse intervalo poderá se transformar em uma das fases mais tensas da transição.
Parlamentares derrotados, partidos enfraquecidos e lideranças ameaçadas pela perda de influência ainda terão condições de votar projetos, aprovar indicações e participar de negociações com efeitos duradouros.
O risco político está justamente na possibilidade de que essas prerrogativas sejam utilizadas para consolidar interesses de grupos que perderam apoio popular.
O velho Congresso contra o novo Brasil?
Se as urnas confirmarem uma guinada conservadora, o Brasil poderá assistir a uma situação paradoxal.
De um lado, uma nova maioria parlamentar eleita com a promessa de mudanças.
Do outro, uma legislatura em fim de mandato, ainda detentora dos instrumentos necessários para aprovar decisões capazes de limitar a atuação dos sucessores.
O Congresso atual tem legitimidade constitucional para exercer suas funções até o último dia de mandato. Isso, porém, não elimina a obrigação política de agir com transparência e responsabilidade diante do resultado eleitoral.
Mudanças estruturais no funcionamento dos Poderes, especialmente quando realizadas durante uma transição, exigem debate público aprofundado.
A sociedade precisa conhecer os objetivos, os beneficiários e as consequências de cada proposta.
O maior perigo não é a alternância de poder. É a possibilidade de que setores derrotados nas urnas tentem neutralizar antecipadamente as escolhas feitas pelos eleitores.
A democracia não pode terminar na apuração dos votos
O Brasil já enfrentou crises políticas suficientes para compreender que a estabilidade democrática depende tanto do respeito às eleições quanto do comportamento daqueles que deixam o poder.
Caso se confirme a derrota de Lula e a eleição de uma maioria conservadora no Congresso, o país terá diante de si um teste institucional decisivo.
Davi Alcolumbre e as demais lideranças parlamentares terão de escolher entre conduzir uma transição republicana ou alimentar suspeitas de que o Legislativo está sendo utilizado para preservar posições de poder.
Não é possível afirmar antecipadamente que haverá uma operação coordenada de blindagem institucional.
Mas a possibilidade de articulações envolvendo alterações legislativas, indicações ao STF, vagas no TCU e acomodações de aliados merece fiscalização rigorosa da imprensa e da sociedade.
O resultado das urnas precisa ser respeitado não apenas formalmente, mas também em seu significado político.
Afinal, de nada adiantará o eleitor renovar o Congresso e escolher um novo presidente se, antes da posse dos novos representantes, os derrotados conseguirem construir mecanismos destinados a impedir as mudanças prometidas nas urnas.
O verdadeiro teste da democracia brasileira poderá começar justamente quando as urnas forem fechadas.
E a pergunta que ficará para Brasília é inevitável:
O velho Congresso aceitará a chegada do novo poder ou tentará governar o futuro antes de deixar o passado?
Artigo de opinião | Júnior Melo