A participação de outros dois delegados em uma reunião entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e integrantes da cúpula da Polícia Federal (PF) aumentou o desconforto entre magistrados da Corte. O encontro ocorreu nesta semana e contou com a presença do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, além de responsáveis por áreas de investigação e inteligência.
Também participaram Dennis Cali, diretor da área de Combate ao Crime Organizado, Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial, Vitor Arruda, chefe da Coordenação de Inquéritos Especiais, e Guilhermo Catramby, coordenador de Contrainteligência. A presença dos dois últimos nomes foi divulgada nesta sexta-feira (9) e ampliou as dúvidas sobre os objetivos da reunião.
A preocupação de integrantes do STF está relacionada às atribuições dos setores representados no encontro. A Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado conduz apurações envolvendo o Banco Master e possíveis irregularidades relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A área de inquéritos especiais também deverá fornecer ao presidente do Supremo, Edson Fachin, informações sobre eventuais vínculos entre ministros e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Nos bastidores, há questionamentos sobre a possibilidade de uma seleção prévia das informações que serão apresentadas à presidência do tribunal. Vitor Arruda, um dos participantes da reunião, também aparece entre os responsáveis por um relatório mencionado pelo ministro André Mendonça, que apontou a existência de 52 mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro.
A Diretoria de Inteligência Policial, por sua vez, reúne estruturas de inteligência e contrainteligência. A corporação também desempenha funções em investigações de grande repercussão, incluindo procedimentos relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, aos atos de 8 de janeiro e aos inquéritos sobre desinformação e ataques às instituições democráticas.
A reunião ocorreu em meio a movimentações envolvendo o inquérito das fake news, que passou a ser analisado por Edson Fachin. O presidente do STF determinou uma revisão dos procedimentos relacionados à investigação, que reúne mais de uma centena de casos vinculados.
Nesse contexto, o ministro Luiz Fux solicitou acesso a investigações sigilosas que estavam sob a relatoria de Alexandre de Moraes. Na sexta-feira, Fachin negou o acesso imediato, mas afirmou que pretende arquivar o inquérito das fake news após analisar as peças processuais. Segundo ele, a medida deverá assegurar publicidade aos atos e acesso integral aos autos, atendendo ao pedido de Fux.
Outra frente de discussão envolve uma ação apresentada pelo Progressistas (PP) em 2024. O partido questiona a legalidade de investigações relacionadas à tentativa de golpe atribuída a Jair Bolsonaro e apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Até o momento, nem o STF nem a Polícia Federal apresentaram esclarecimentos públicos sobre o motivo da reunião entre Moraes e os integrantes da corporação. A falta de informações oficiais mantém o episódio no centro das discussões internas da Corte.